quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Quer que ainda pergunte?

 

A criatividade nasce

quando o silêncio respira

e se dobra em perguntas macias —

dúcteis como fios de ouro

puxados do escuro.


Respondo aos poucos,

como quem tateia um rosto na neblina.


Mas diga:

quer que ainda pergunte?


Se não é verdade,

é tão bem contado

que veste o corpo da fábula

com a gravata do fato.


Não sei se cheguei tarde

ou se o instante era exato —

sei que as montanhas, um dia,

aprenderam a ser túneis

para que o medo passasse curvado.


Motos zunem feito moscas elétricas

entre carros monocromáticos,

um enxame de pressa e metal.


Palestras ocas, paletas foscas,

vozes mastigando o banal

no espetáculo engarrafado da tarde.


E enquanto o trânsito range,

pensamentos evaporam —

viram nuvens à deriva

num céu que ninguém reparte.


A queda do Ocidente

(era só manter os olhos abertos) —

mas estavam cerrados por dentro.


O cuidado do ente,

calado e doente,

posa na fachada do teatro

como cartaz antigo

prometendo um sonho

que cheira a perfume caro

e desaparece no intervalo.


A queda do dente,

presa entre a ironia e o cinismo,

entre o ramerrão e o cinema —

rimos para não ranger.


Quer que ainda me acostume

ao gosto metálico do mundo,

à piada repetida

como se fosse roteiro inédito?


Sigo sobrevoando o abismo

com asas feitas de risco.


Estendo a mão às estrelas

não para possuí-las,

mas para apagar o egoísmo

que insiste em brilhar sozinho.


Os olhos se abrem — janelas —

e deixam de ser espelhos:

passam a ser ferramentas,

úteis como pontes sobre o escuro.


Atualizo, a cada quinzena,

a senha de acesso ao espanto,

redefino os emblemas,

decifro o vão delicado

entre êxito e sucesso —

um vive de aplauso,

o outro, de sentido.


E no balcão do cotidiano

alguém pergunta, sorrindo:

— Vai comer agora

ou quer que embrulhe o infinito?


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