A criatividade nasce
quando o silêncio respira
e se dobra em perguntas macias —
dúcteis como fios de ouro
puxados do escuro.
Respondo aos poucos,
como quem tateia um rosto na neblina.
Mas diga:
quer que ainda pergunte?
Se não é verdade,
é tão bem contado
que veste o corpo da fábula
com a gravata do fato.
Não sei se cheguei tarde
ou se o instante era exato —
sei que as montanhas, um dia,
aprenderam a ser túneis
para que o medo passasse curvado.
Motos zunem feito moscas elétricas
entre carros monocromáticos,
um enxame de pressa e metal.
Palestras ocas, paletas foscas,
vozes mastigando o banal
no espetáculo engarrafado da tarde.
E enquanto o trânsito range,
pensamentos evaporam —
viram nuvens à deriva
num céu que ninguém reparte.
A queda do Ocidente
(era só manter os olhos abertos) —
mas estavam cerrados por dentro.
O cuidado do ente,
calado e doente,
posa na fachada do teatro
como cartaz antigo
prometendo um sonho
que cheira a perfume caro
e desaparece no intervalo.
A queda do dente,
presa entre a ironia e o cinismo,
entre o ramerrão e o cinema —
rimos para não ranger.
Quer que ainda me acostume
ao gosto metálico do mundo,
à piada repetida
como se fosse roteiro inédito?
Sigo sobrevoando o abismo
com asas feitas de risco.
Estendo a mão às estrelas
não para possuí-las,
mas para apagar o egoísmo
que insiste em brilhar sozinho.
Os olhos se abrem — janelas —
e deixam de ser espelhos:
passam a ser ferramentas,
úteis como pontes sobre o escuro.
Atualizo, a cada quinzena,
a senha de acesso ao espanto,
redefino os emblemas,
decifro o vão delicado
entre êxito e sucesso —
um vive de aplauso,
o outro, de sentido.
E no balcão do cotidiano
alguém pergunta, sorrindo:
— Vai comer agora
ou quer que embrulhe o infinito?
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