quarta-feira, 8 de abril de 2026

Memórias analógicas

 


Colonizador interestelar

Atravessa o vácuo devagar,

Vai à Lua coletar maravilhas,

Sóis artificiais

E minérios que brilham


Como segredos digitais

Há gestos mínimos na Terra:

Vedar o açucareiro,

Proteger a doçura do mundo,

Não dar língua ao formigueiro


Porque até o pequeno descuido

Desperta enxames no escuro

As memórias analógicas

Não se perdem no ar,

Mudam de forma, se alojam


Aprendem a se disfarçar

Como ilusões de óptica 

Como peixes no fundo do mar

Pensei que esquecera

A centelha que sobrevive


Mas, ao escrevê-la,

Vi que não é só superfície 

O sentido, uma labareda

Lambendo a vela,

Revelando o filme


Minha presença nesta dimensão

Não grita: é um sinal,

Um anúncio em construção,

Um eco ainda inicial

Estou aqui para dizer algo


No mais íntimo afago

Aprender é um ritmo interno:

Agir com consciência,

Sem impulso histérico

Em busca de urgência.


É saber o passo além da prece

Entre avanço e permanência

O pensamento floresce

Quando alguém o escuta,

E a voz - quando acolhida -


Vira ferramenta absoluta

Dela nasce sustento,

Dela a vida se recruta

Retorno ao passado em espiral

Devaneios e perguntas 


Num diálogo essencial

A cura vem antiga

Num sopro ancestral

E então crio as cantigas 

Não por fuga


Mas por pertencimento

A criatividade me abriga,

Faz do caos um movimento,

E do sentir, um lugar

Onde enfim me reconheço


As memórias moram no lar

Como nuvens num aguaceiro 

Numa manhã solar

Não sou mais o mesmo 

Antes da palavra, sinais.





quarta-feira, 1 de abril de 2026

Pelos Nevoeiros

 

Torra o suado dinheirinho 

Num litro de gim

Mas dispensa um livro

Que nem é de latim

A farmácia nunca fecha


Remédio se transforma em veneno 

Drogaria não mofa de eterna

Até vinte nove de novembro

De dois mil e vinte e quatro

Eu estava mal, triste e bem longe


Acordava cansado

E adormecia insone 

Esquecia que o sentido

Estava escondido me lendo

No fundo sabia onde


Perambulava o bom senso

Nas barbas do horizonte

Gastando o salário pequeno 

Com noitadas sem fim

Nenhum níquel 


Pelo livro escrito por mim

A dor se transmuta em cura

E a intuição, em jardim 

Para que se cubra

De flores sem floreios


Não adquire uma obra

Que nem é de latim

Se o idioma for vodka 

Seca todo o dindim

A biblioteca não fica aberta


O dia inteiro

Porém a gente tropeça 

Pelos nevoeiros 

Das lojas e pelejas

De coisas ilógicas, supérfluas. 













sexta-feira, 27 de março de 2026

Jorge de Figueiredo Melo


Cruz-maltino 
Mas na verdade
Adora automobilismo,
Verde, velocidade 
E Led Zeppelin

Questão de pele
Questão de sangue
Questão de dons
Tudo isso abrange
Muitas questões

Nascido no bairro do Pita,
Filho da pernambucana Elita
E do paraibano Ivo
Faz pipoca e batata frita
Para Pedroca e Miguelito

Quando eu era criança 
E morava na casa dos meus avós
No Barreto, de manhã bem cedo,
Ele fazia pra mim vitamina de banana
Com geleia de mocotó

Jorge de Figueiredo Melo
Personalidade forte
Pai de Patrícia e Marcello
Gargalha feito guitarra de rock 
Do signo de Áries

Quebra-galho e arquiteto dos lares
Ouve o repertório de Big Boy
De um tempo que nunca se foi
Que pulsa num estalo, na trajetória
De São Gonçalo a Conservatória. 

domingo, 22 de março de 2026

Um sonho oracular

 


Um sonho oracular
Um desejo particular
Poesia, qualquer dança
Algum par que me leve

Uma surpresa familiar
Quem sou eu se me descrevem?
Uma magia, uma lembrança
Quem imagino ser um dia serve

Emoções não são leves
São portais de mudança
Eu não evoluo sozinho
Mas através de vínculos

A minha dor vira cura
Quando me comunico
Uma precisão, uma loucura
Que precisa de adaptação

Que sobrevivam as emoções
Queda do pedestal,
Quebra de ilusões
Alinhamento com o destino real

Quem sou eu quando me olho?
Quem eu suponho ser basta?
Entre as lavas me desloco
Para onde não estava

Engano o relógio
Invento palavras
E também este negócio
Venho como se estivesse lá

É disso que eu gosto
Meu lar, qualquer lugar
Descolo entre as lavas
Um sonho oracular.






quinta-feira, 19 de março de 2026

Vinhetas

 

Eu vejo propagandas

como quem anda de volta,

passos rumo a outra rota 

em ruas de fita solta —

vinhetas de velhas bandas

soprando ecos na memória.


Um vídeo-game de fases raras,

vidas que já foram embora,

níveis que a infância guardava

numa tela que o tempo devora.

E a ignorância, tão clara,

hoje se exibe — e se adora.


Mas a vida ainda entoa

um refrão manso e profundo,

sobretudo após o mergulho

no escuro íntimo do mundo;

nas águas turvas e boas

onde me afundo em refúgio.


E então, num gesto interior,

acendo um antigo interruptor —

luz breve, mas necessária,

rasgando a sombra precária

no silêncio da caverna.


Ali, com mãos mais eternas,

escrevo com letras dispersas

da sopa ardente de amor;

palavras líquidas, imersas,

cozidas no mesmo calor.


E ao sair, com o peito aceso,

entre o que fui e o que sou,

vejo, num sopro suspenso,

comerciais de antigamente —

como se o tempo, indefeso,

ainda cantasse na gente.




quinta-feira, 12 de março de 2026

Você é

 

Você é o que ingere

Você é uma senha

Está sob a sua pele

Na sua película


Você reflete o que come

Você é o que repele

Não é apenas um nome

Que nos significa


Você é uma senda

O vício só é sadio

No início, tá tranquilo 

Tá favorável o meu ovo


A bebida é a soma

Do admirável mundo novo

É a debandada no sumiço

Você é o que toma


Você é o que olha

Quando nada se vê 

Você é o que canta

Velhos sucessos da MPB 


Você é quem manda

Pra dentro e pra fora

Você é quem conta a história

Você é o que emana


Você é quem abre

Quando as portas se fecham

Você é quem sabe

Sobre choques e queixas


A bebida é uma peçonha 

A pessoa não é um copo

Mas um corpo que sonha

Você é o escape, seu escopo.






domingo, 1 de março de 2026

Barômetro da alma

 


Cansaço da procura,
febre de dopamina barata;
no pulso, a cura sussurra
ação — não mais bravata.

Não se pode rolar o dedo no céu
como quem desliza a vida
num carrossel de pixels,
numa tela acesa e fingida.

Quando vivi na gruta escura,
julguei perda o silêncio e o tempo;
mas era a raiz da luta,
lavra funda no pensamento.

Um barômetro íntimo anuncia
o que não se dá a toda hora:
não é o prejuízo, nem o juízo final —
é só a chuva antes da aurora.

Os frágeis biscoitos de água e sal,
úmidos de ar e memória,
quebram-se mais que outrora;
o barômetro insiste: vigia a história.

Há dias fáceis — quase leves —,
em que o vento avisa e acolhe;
noutros, cala-se o breve
e a vida apenas nasce e colhe

Está no ar, à vista,
na pista quente da praça,
na página ainda não escrita
que o tempo amassa e enlaça.

Já fui garoto inquieto,
caçador de brilho imediato,
correndo atrás do afeto
da dopamina no buraco

Hoje minha alma tem couro,
cicatriz que não se retrata;
palavra é lâmina e ouro,
silêncio é chão que me ata.

E quando a cidade se aquieta,
entre passos e fumaça,
a poesia — secreta —
adormece e respira na praça.