Se os pensamentos não viram manuscritos
As memórias perdem os próprios ritos
E se esquecem da história de Jesus Cristo
Dos perigos das apostas do imprevisto
Dos apóstolos perdidos no bazar
Dos jogos de azar queimando no bar
Dos focos de arte, ofício e artifício
Virou bóia o que um dia foi míssil
Não é brincadeira do copo
Eu retorno mas já estive morto
Sem me entornar no assoalho
Atravesso o palco sem atalhos
Estou de volta — mas não como antes
O teatro mudou meu semblante
Agora atuo de outra maneira
Mais coração, menos ribanceira
Sou altruísta sem virar otário
Sobrevivo ao mundo arbitrário
Preciso transmitir ondas largas
Transtornar o silêncio com palavras
Preciso transmutar o pensamento
Antes que o vento leve o momento
Passar pra tinta azul ou vermelha
Preta, versejo para que me veja
Porque a cor da caneta é minúcia
Quando a alma escreve lúcida
Quando eu consigo tocar ideias
Como nuvens suspensas e etéreas
Flutuando num céu impune
Onde o verbo cria e reúne
Onde o caos mental desacelera
Quando a escrita acaba com a espera
Se eu não manuscrever na hora
Meus pensamentos de agora
As memórias se perdem no fundo do mar
Antes mesmo de pensar em pescar
Escrever com a mão é tão poético
Quase um ritual magnético
As lembranças se recortam devagar
Deixam o pandemônio quieto
Reconheço a praticidade vulgar
Das notas digitais do dia
Do bloco aceso no celular
Pronto pra salvar epifanias
Mas recordações não seriam lembranças
Sem o peso humano das mudanças
A disciplina espiritual doma o fogo
Cérebro é pulmão, quer fôlego
A caneta é pincel e câmera
É baqueta que conduz a atmosfera
É batuta que rege o escarcéu
Organizando o ruído cruel
É instrumento, ponte e conduta
Pra ouvir o que o mundo não escuta
Metamorfose da ausência em sinal
E dar melodia ao caos mental
Se os pensamentos não virem os manuscritos
As memórias emudecerão os próprios gritos
Vão se esquecer da história, de Jesus Cristo,
Dos amigos das respostas do espírito.