segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Algo ao redor



Arte como veículo 

De consciência 

Eu carrego nos versículos 

Uma memória imensa


Um souvenir coletivo

Poesia como nave

Das cores na razão do delírio 

Camadas, palavras fáceis


Passam pela cabeça 

Reformas de base

Famílias, partidos, seitas

Fezinhas, vícios, viagens


O triunfo é um tipo de perda

Ah, se as pessoas amassem

Não haveria tantas neuras

Nem diplomacias incapazes 


A voz já não aceita

Permanecer à margem

Quando compartilho quem sou

Algo prospera ao redor


Aquilo que antes era tormenta

Vira uma ferramenta de auxílio

Tanto se pensa quanto se sente

Qualquer arte é terapêutica


É a carruagem da mente

Um comunitário mimo

Uma lembrança perene

Embrulhada nos livros


A voz já refuta

Ficar de fora da luta

Quando ofereço quem sou

Algo floresce ao redor.












 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Salvo o cansaço



O tempo se mede em horas

E a vida, em experiências

Argamassas de memórias

Argumentos me aguentam


Juventude bela

Alegria imortal 

Juventude velha

Nada fazia mal


Tomos são bilhetes 

De viagem

De pensamentos

Tomo um assento


Um mate 

Ou um café com leite

Posso pedir um fervor

Talvez seja um favor


Mundo safári

Tudo falso

Salvo o cansaço

Entre Epstein e Vorcaro


Crimes e festas funestas

Máscaras caem sem mistério 

Sobre os minérios raros

Eu me enterro na floresta


O tempo todo e mais umas horas

A vida é uma experiência

Que só ocorre agora

Que me socorre do lodo


Linda juventude

Alegria eterna

Não passou em brancas nuvens

Ninguém passava a perna


Posso pedir um abraço

Talvez seja um passo

Mundo safado

Tudo falso


Salvo o cansaço

Posso ser quem sou

Talvez peça um cipó

E atravesse a peça


De uma coxia a outra

Feito um sol

Entrecortando a moita

Está desfeito o nó.













 

sábado, 19 de setembro de 2026

Um anjo com uma harpa



Eu não cria nos sonhos 

Tampouco nas utopias

Apenas vivia atônito 

Quem cria é dono


Da própria vida

Abraço da dúvida 

Dança, há música 

Dança sem infâmia

 

Um anjo com uma harpa

Criança da revolução americana

Uma mulher entra num convento 

Pelicanos se movem


Solidário comportamento 

Nuvens se locomovem

Como devaneios, como asas

No interior das profundezas da Terra


Novas formações estão surgindo

Garagem repleta de automóveis de competição 

Um homem que desceu de seu navio

É envolvido por uma multidão


A colheita é lunar

Noite de lua crescente pra cheia

Dança, música há

O som ambiente me recheia


Lucro ao luar 

Uma jovem rega flores no jardim

Garotada fantasiada

Em brincadeiras de Halloween


Alguém apara palmeiras altas

Agora vejo sentido pra mim

Soma de passos pequenos

Revoluções por dentro


Um anjo com uma harpa

Nuvens em movimento 

Pensamentos, fumaça

Eu não acreditava em nada.






 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Retratos e retratações

 



Hoje é dia de fazer algo 

Pela primeira vez 

O silêncio revela do alto

Caminhos inefáveis


Confie: você está

Onde precisamente precisa estar

Com a colheita de guimbas

Ao longo do dia


Um menor abandonado

Confecciona um cigarro

Faces cansadas na fila

Frases causadas da fala


Engajamento na anestesia

Paraíso de plástico

Paraíso da hipocrisia

Do trágico elástico


Paraíso dos infelizes

De cujo elenco

Eu era membro

As armas estão no ar


Ainda me lembro 

De como voltava

Ondulante do mar

Ia e vinha, ia e vinha, ia e vinha....


Sonho como se fosse amanhã 

Eu tirava, com a minha irmã, 

A pele descascada de papai

A memória é um ímã


Barca lotada 

Passageiros de pé

Ponte engarrafada

E na tevê o show da fé


Noites

Pedras

Poesias

Cadê elas?


Onde ficam?

Por onde andam?

Almas lacradas na apatia

Eu gostava daquela banda


Mas o exímio guitarrista 

É desafinadamente antivacina 

Os retratos não podem ver

Contudo pelo que sei


As retratações têm

A possibilidade de rever

As pistas largas

Da Avenida Presidente Vargas


Foram lavadas

Com água, sabão e prudência 

Para a remoção das obras equinas 

Após o desfile da independência


Um mendigo da Avenida Rio Branco

Em frente a um banco 

Ouve um hip-hop

Bebe um milk-shake do Bob's


E pita um cigarro de Jah

Ao lado do seu fiel cão sem horizonte 

E da placa, onde se lê fome

Em inglês, em espanhol e no olhar.









quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Quem tem medo é capaz

 


As estrelas precisam de breu

Para mostrar seu brilho

Alguém trouxe brigadeiro para mim

E foi-se embora de Icaraí


Mas o doce me deixou tranquilo 

Ele, ela, você e eu

Enfim estamos nos entendendo

Fantasias não são fatos


Caiu na realidade a fada

Veneno, símbolo de status 

Quando não humilha, mata

De modo ligeiro ou lento


Para descansar em paz

É só uma questão de data

Quem tem medo é capaz

De ações inconsequentes


Canções, assobios, pensamentos 

Que sabem que cansam e tremem

Caixas, corações e cabeças

Abalos das rádios AM e FM


O invisível seletor de frequência 

Vive no interior, no som ao redor do trem,

No amor e no vibrante silêncio

Do breu imenso entre as estrelas.








quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Imaginação, memória e ônibus de leito

 


Antigamente as mídias televisivas

Nao eram mais do que sete

Não tinha Internet

E com a cabeça na barriga


Do meu pai eu assistia

Ao Jornal da Manchete

Agora cada pessoa

É uma emissora


Globo, Bandeirantes, Record

A Bíblia é só um livro histórico 

Eu podia estar pior 

Entretanto cantava o repertório 


Com os primos, tios e avós

Nas poltronas, programas de auditório 

Hoje cada pessoa anda absorta

Na tela, na cela, na bolha


Ninguém mais sai pra dançar

Ninguém mais usa telefone fixo

Ninguém espera mais

A estreia do clipe daquele disco


No Ponto Zero da MTV

Ou no derradeiro bloco do Fantástico 

Eu poderia estar nem aí 

Porém viajo nas estações do rádio


As mídias eram pouquíssimas

Não passam de livros históricos

Os almanaques e a bíblia 

Eu poderia vendar os olhos


Todavia estou na vigília

A pele é apenas uma parede

Apelo, espelho, legado

Arte é mais do que mero enfeite


Veículo significado 

Palavra minério 

Infância substância

Fissura caramelo


A dor da anestesia se amansa 

Mistura de apatia, silêncio e medo

Uma loucura de gincana

Quem será o primeiro?


Agora sei ler seus lábios 

Depois de tantas lições

Edições do dicionário 

Eu me dispo das ilusões


Que não me deixam ver direito 

O canal com imagem boa era o quatro

Imaginação, memória e ônibus de leito

Sempre me levam embora, é o contrato.



















sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Paciente é o vento

 


Uma cortina de partituras

Deixa o sol tocar a ideia

Com o cortador de unha 

No chaveiro, desbrava-se a floresta

A par do coração, a par da cura


À parte do colegiado

Cadê o hábito da leitura?

A habitação é no peito 

O que é um pleito

Para quem está catalogado?


O futuro será mais quente 

Do que circo mambembe

Enquanto houver montanhas

Para o vento escultor e paciente

O presente escuta e lá pelas tantas


Vira um decadente passado 

Vídeo-tape, teia de aranha

Choro no chão de mosaicos

Penico debaixo da cama

Mangas cortadas da camisa


Artimanha, tapete puxado

Pelos diretores, pelos deuses

O melhor roteiro se improvisa

Nem sempre, só às vezes

Uma pedra, uma peça, uma pesquisa


Paciente é o vento

Que esculpe montanhas

Lembranças e monumentos 

Ah, me desculpe: de vez em quando

O improviso é o melhor plano.