sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Paciente é o vento

 


Uma cortina de partituras

Deixa o sol tocar a ideia

Com o cortador de unha 

No chaveiro, desbrava-se a floresta

A par do coração, a par da cura


À parte do colegiado

Cadê o hábito da leitura?

A habitação é no peito 

O que é um pleito

Para quem está catalogado?


O futuro será mais quente 

Do que circo mambembe

Enquanto houver montanhas

Para o vento escultor e paciente

O presente escuta e lá pelas tantas


Vira um decadente passado 

Vídeo-tape, teia de aranha

Choro no chão de mosaicos

Penico debaixo da cama

Mangas cortadas da camisa


Artimanha, tapete puxado

Pelos diretores, pelos deuses

O melhor roteiro se improvisa

Nem sempre, só às vezes

Uma pedra, uma peça, uma pesquisa


Paciente é o vento

Que esculpe montanhas

Lembranças e monumentos 

Ah, me desculpe: de vez em quando

O improviso é o melhor plano.









segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A humanidade



Para sair do armário 

Doação de camisas

Alusivas à bebida

Eu saí do aquário

Só visto o que me representa


Está tudo tão claro

A humanidade virou uma doença 

A humanidade é um tumor

A humanidade está à venda

A humanidade se desumanizou


A humanidade é um artifício 

Poucos olham nos olhos

O símbolo do infinito 

Exibe o balé dos opostos

A inteligência artificial sabe fazer um monte


De coisas e desconhece o que sinto e sonho

Caso eu não conte

Dos oito aos vinte e oito

Meu aparelho de som 

Era um espelho nitidamente bom


Talvez o meu sonho seja

Anunciado no Diário Oficial 

Mas a revolução por excelência 

Só vai me dizer se tem doce, 

Se tem acidez ou sal


Quando lamber o jornal

Como se labareda fosse

Um fogo ou uma língua qualquer

A humanidade está podre

A humanidade é um câncer. 





 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Holograma da Alegria



O universo é um holograma,

E a consciência, um telegrama

Que verseja a mensagem 

Sem endereço, sem programa.


Interessante tarde,

Interessantíssima trindade:

Corpo, tempo e ânsia 

Brincando de eternidade.


Ser humilde

É saber o próprio limite,

É reconhecer que o passo alcança

Antes que o salto precipite.


Pode ser um contratempo

Tal rapidez imensa

Quem corre demais contra o tempo

Pode topar na própria urgência 


Brinde sem recipiente,

Conteúdo de peçonha,

Estúdio, ambiente 

Sob controle, na redoma 


Há pessoas fugazmente alegres,

Tristemente alegres,

Estranhamente alegres,

De alguma forma, alegres.


 

sábado, 8 de agosto de 2026

Uma verdade




Encontrar uma verdade 

Importa mais

Do que vencer rivais

Aposta é um desastre


O jogo já se diz de azar

Desejo uma dança justa

Com uma verdade

Que justifique a luta


Quem quer dançar

Sob luzes e tremeliques no baile?

Tudo o que recebo sabe

Bem que o trem deve circular


Conhecimento vale mais

Do que dólar, ouro e euro

O que aprendo não cai no bueiro 

Nem no lodo: eu penso através


De teias, veias e memórias 

Ah, máquina louca, se pudesse

Me deslocar às incontáveis horas

Pisaria nas poças, nas paisagens e nos seus pés


Nas poesias em órbita

Queimaria a lâmpada na quermesse; 

Agora considero a dança

No convés, entre ondas 


Siderais das marés

Onde uma verdade se sonha

Onde uma verdade avança

Onde uma verdade me encontra.






 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Não espere mais



Não espere mais

Pelas aspas nos pensamentos 

Você sabe pensar

Voraz vem o vento


Tirando as caspas da inteligência capilar

E as pulgas do intelecto auricular

O resto é menos fuga

Do que o afago da intuição


A parede do vizinho se fura

Com a fúria de um furacão 

Cada manhã é um renascimento

Não espere mais a voz da razão 


Quando eu fico quieto 

Não significa que os sonhos

Ressonam na sombra do deserto

Somente cochilam no ponto de encontro


As nuvens surrealistas

Soletram um novo alfabeto

E versejam numa nova língua 

Não espere mais


Godot ou seja quem for

Apenas levante e vá

Em várias regiões e no interior

O vento virá voraz


A dispensar o teto sonolento 

A depender das horas

A despencar do firmamento

Ou do leito com lençóis de paz


Lecionando que não esperar mais

Não quer dizer desespero

Apenas levite e vá 

O silêncio vem violento


O medo faz parte do jogo

Para distinguir o trigo

É preciso conhecer o joio

Os dentes nem sempre são amigos


Psiquismo automático

Lapidação no lápis do instante 

Não espere mais o telenoticiário 

Apenas se leve adiante.







 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Elefante na sala




Se estivesse no tempo 

Estaria em rotação 

Ih, foi mal!

Ainda estamos aprendendo 

A cantar esta canção


Se estivesse no espaço,

Estaria flutuando

Nunca pensei que fosse fácil 

Parece que nós não temos

A letra desta música


Um abraço talvez valha

Mais do que mil conselhos

As mudanças climáticas

Findam o mundo mais cedo

E fede o elefante na sala


O progresso é feito 

De firmeza em vez de pressa

Quem tenta já está 

Na frente de quem suspeita

Eita! Esta letra você vai ter que inventar.










 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Metáfora ambulante




Não adianta tentar 

Mudar as pessoas

Nem mudar de lugar

Se você não remove

De si um grão nem uma gota


Assim, não há metamorfose 

Eu não sou mais

Aquele jovem, antigo avatar

Não sou menos

Do que eu mesmo


Sou mais do que tenho 

Já deixei de representar

Aquela personagem 

Permaneceu tempo demais no ar

Repetindo bordões e tempestades


Não tenho fórmula nem receita

Não sou norma nem exemplo

Não me altero só porque é sexta

Mudo por ser o momento

Cada aniversário é singular 


Nunca mais incendiário da minha casa

Não sou o mesmo rapaz 

Apesar de restar alguma brasa

Ao respirar, vem a paz

A rodopiar no vento e me abraça...


Cadê as cláusulas com as garantias

Do fim da minha saúde

Simultaneamente à minha partida?

Prefiro ser esta metáfora ambulante 

Basta que eu mude


Que não seja como antes 

Para iniciar a mudança

Quiçá a vida siga insalubre 

Há quem lembre que é só uma saída

Para qualquer alegria momentânea


Voltar a manuscrever 

É bem analógico e salutar

Eu não quero ser

Cupim do meu lar

Sei o que passei e penso


Eu conheço muito bem 

O que pulsa aqui dentro

Sei melhor do que ninguém

As cores do pensamento

Vagões do velho trem


Enfeites da oferenda sagrada 

Em vez de rigores da obrigação 

A remoção das vendas da madrugada

Revela as coisas como são:

Peixe com limão, escrever à mão 


Banana com mel

Já deixei de atuar

Debaixo de um papel

O que fui eu não sou mais

O que for é poema meu.