Não adianta tentar
Mudar as pessoas
Nem mudar de lugar
Se você não remove
De si um grão nem uma gota
Assim, não há metamorfose
Eu não sou mais
Aquele jovem, antigo avatar
Não sou menos
Do que eu mesmo
Sou mais do que tenho
Já deixei de representar
Aquela personagem
Permaneceu tempo demais no ar
Repetindo bordões e tempestades
Não tenho fórmula nem receita
Não sou norma nem exemplo
Não me altero só porque é sexta
Mudo por ser o momento
Cada aniversário é singular
Nunca mais incendiário da minha casa
Não sou o mesmo rapaz
Apesar de restar alguma brasa
Ao respirar, vem a paz
A rodopiar no vento e me abraça...
Cadê as cláusulas com as garantias
Do fim da minha saúde
Simultaneamente à minha partida?
Prefiro ser esta metáfora ambulante
Basta que eu mude
Que não seja como antes
Para iniciar a mudança
Quiçá a vida siga insalubre
Há quem lembre que é só uma saída
Para qualquer alegria momentânea
Voltar a manuscrever
É bem analógico e salutar
Eu não quero ser
Cupim do meu lar
Sei o que passei e penso
Eu conheço muito bem
O que pulsa aqui dentro
Sei melhor do que ninguém
As cores do pensamento
Vagões do velho trem
Enfeites da oferenda sagrada
Em vez de rigores da obrigação
A remoção das vendas da madrugada
Revela as coisas como são:
Peixe com limão, escrever à mão
Banana com mel
Já deixei de atuar
Debaixo de um papel
O que fui eu não sou mais
O que for é poema meu.