segunda-feira, 27 de julho de 2026

Ponte treliçada

 

Uma auxiliar de serviços gerais 

Fã de The Smiths

Ouve na sua única folga semanal 

Seus sucessos juvenis

Junto com seu filho triste


Cuja avó paterna não lhe faz uma visita

Desde o Natal de vinte, o da covid

Mesmo sendo vizinha

Do mesmo bairro

Já o pai ausente só liga no aniversário 


Ponte treliçada 

Tensão produtiva 

Bigmouth strikes again

Não precisa da chegada

Do futuro pra ser alguém.




 


terça-feira, 21 de julho de 2026

Ao meu amor


 


Eu pergunto ao meu amor
Se o mundo já acabou
Ela me responde num beijo
Siga a cabo seus interesses

More no seu apto endereço
Como se não coubesse
Não se vive atualmente
Como nos anos noventa

Não se vive para sempre
No conto de fadas da adolescência
A espera fica sonhando
Sincronia não é coincidência

Indago à minha estrela
Agora eu me arranco
Com os fios da sobrancelha
Espessos, pretos e brancos

Crescem os cabelos da orelha
O sonho fica esperando
Eu questiono à minha sereia
Como se não soubesse

O muro desmoronou
Tudo vira assunto do teste
Para morar com quem sou
Interior satélite

Eu pergunto ao meu amor
Em que lapso estou
Ela me beija numa resposta
Pendure os quadros da mostra.












quinta-feira, 9 de julho de 2026

O sino da sorte



A intuição é a bússola
Em mares nunca singrados
A perdição é uma busca
E o perdão, um crédito caro
Para quem se debruça

Em ondas, frequências e abraços
Fica o sino da sorte
Presente de tia Nelsina,
Irmã de vovó Joanna
E mãe de Leninha

Tia Nelsina ia com mamãe ainda criança
Ao auditório da Rádio Nacional
Na Praça Mauá
Mil novecentos e cinquenta nove
Artistas sensacionais

O sino da sorte
Toca os seus sinais
Dá os seus toques
Aos ouvintes ancestrais
Plateia interna

Aplausos, assobios
Lágrimas simpáticas e sinceras
Na cabeceira da sala o sino
Badala e ressoa
Rádio que ouço desde menino

Orações, hinos, canções, bichos e pessoas
Além da voz baixa que passa
Com quase volume nenhum
Sim, eu acho que Dona Jane passeava
Com tia Nelsina por volta de sessenta e um.





















 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Cada pergunta

 

Cada pergunta 

Até a idiota

Não é um entrave 

Mas uma porta que se abre


Eu me recordo 

De onde vim

Com a tripulação a bordo

Do navio ancorado em mim


Cada dúvida 

Até a estúpida 

Não é um empecilho 

Mas uma escada


Cujo sentido

Ou esconderijo

É o ponto de encontro

De partida e de chegada


Eu me lembro

De onde cresci 

Quando era pequeno 

E os imóveis, enormes.








quarta-feira, 1 de julho de 2026

Aos dias loucos da infância

 



Eu te agradeço

Pelo medo, pelo pix

Por ter tido cedo o clique

Para sair da matrix 

Mesmo que fique


Eu tenho que parar 

De marcar com os olhos 

E criar logo um portfólio 

Eu rogo por aquele colo 

Que só rola quando volto


Aos dias loucos da infância 

Quando a loucura não era estranha 

E sabia dançar samba

Eu agradeço àquela criança

Velha dança da mudança. 



sábado, 27 de junho de 2026

Rios de tinta




Rios de tinta

Correm pelas páginas,

Pelas veias distintas,

Vertem-se em lágrimas

Para que se sinta


No tato e na tática

A palavra nunca estática

Que veleja entre cinzas

Margens e paredes

Nos rios de tinta


Vejo caveiras com sede

Em vez de pinguins

O veneno nas veias

Já não vence o que há em mim

Meu coração detento


Bombeia e não carimba licença 

O tempo ligeiramente lento

Bambeia da lua nova à lua cheia

Sem querer eu me lembro

Entre partidos e seitas


Do que, sem lembrar, eu quero

Merecidos mistérios

Caveiras fico vendo

Quando as coisas se nomeiam

A escolha do veneno


Escorrendo como tinta fresca 

Atravessa o coração detento

O chão, o gesto e o tanque

Rios de tintas, de janeiro a dezembro,

Aflitas no que me tange


Escolho o veneno

Que percorre meu sangue,

Corta o coração detento,

O porão, o mangue,

Rios de tinta, ritos de coragem 


Ferem, pintam, reinventam

Escrevem na minha carne

O que as letras não enfrentam

Aceleram por dentro, ofegantes,

Dilaceram o silêncio da margem


E, no que me tange,

Fazem de mim bumerangue 

Os rios de tinta nunca apenas passam

Pelos seus navegantes

Na terra, na tez e no texto se grafam.




 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Ecos do tempo estático

 





Quantos vendavais

São vendáveis?

Onde estão as chaves

Por um futuro de paz?

Não é o tempo que corre


É a gente que se move

Muito além dos pratos úmidos,

Dos copos no escorredor,

Há um suspiro e um susto

Ao lado de mim, no interior


O tempo está parado,

Feito fantasma no armário,

Habitando as frestas da cozinha 

O avesso do calendário

Não é o tempo que caminha


É o sonho que se avizinha

Como quem surge na neblina

E acende uma luz na praxe

Quantas tempestades

Precisam ser vencidas?


Para a rendição da distância

Na idade das saudades

Não é o tempo que anda,

São as plantas na varanda,

Estendendo folhas à lufada


Aprendendo a dança plácida

O tempo permanece inerte 

Entre o amanhã e as lembranças

No mesmo instante servem

A ausência e as esperanças


Como pedras no aquário,

Imersas num mundo sem pressa,

Onde tudo repousa diáfano

Enquanto a vida atravessa

Como árvores e pássaros.