Eu me manifesto
Nem preciso falar alto
Que tive acesso
Aos lados, aos laudos
Agora sei como se nomeiam
As dolorosas estações
Alheias, as aves
Passeiam por entre os espigões
De solidão suave
Minha cabeça é um rádio
Um bolchevique propaga
Sua revolução
Uma criatura faz
Uma leitura em sua aura lilás
Crianças brincam no pátio
Um tumulto num mercado
Um estudante de química
Conduz um experimento
Um vento forte limpa
As nuvens do firmamento
Um jogo do que for
Ocorre a qualquer momento
Um bosque de árvores em flor
Crianças jogam futebol
Um grupo de jovens
Sentados em instrução espiritual
Um grupo de imóveis
Centrados em especulação moral
Crianças se jogam
Um navio se ancora
Em porto seguro
Um poderoso estadista invoca
O auxílio de oráculos
Para guiar suas escolhas
Uma pessoa vestida
Em pele de raposa
Um jovem aprende a se expressar
Em sua língua nativa
Brilhantes vitrais
Numa grande basílica
Um entusiasta ativista político em marcha
Um grupo de pessoas se domicilia
Numa ilha habitada por pássaros
Cupidos nadam num lago
Eu me manifesto
E nunca mais me calo
Eu estou impresso
Pelos lados e laudos
Eu me manifesto —
Nem ergo a voz, nem faço alarde
O som me atravessa baixo
Como corrente que arde
Tive acesso aos lados, aos laudos,
Aos nomes que doem nas estações
Sei agora como se chamam
Essas íntimas dissoluções
Aves riscam o céu de chumbo
Entre espigões de concreto,
E há um despertar tão profundo
Que chega a ser uma canção de sucesso
Minha cabeça é um rádio aceso,
Um mundo em sobreposição:
Um bolchevique anuncia em chamas
Sua eterna revolução
Uma criatura lê a aura do drama
Crianças brincam num quintal,
Um mercado em tumulto vibra,
Um caos vivo, essencial
Um estudante de química
Ensaia o invisível em reação
Enquanto um vento varre a névoa
Do vasto céu em expansão
Tudo acontece — jogos, metas —
A qualquer fôlego, a qualquer momento;
Bosques florescem em silêncio
Meninos chutam o vento
Jovens se reúnem, atentos,
Em busca de um sonho espiritual;
Outros erguem muros sonolentos
De um cimento que no fundo é cal
Crianças se lançam ao riso,
Um navio encontra o seu lugar
Em porto seguro, estabelecido,
Como um coração a repousar
Um estadista, grave, consulta
Oráculos na escuridão
Tentando ler no sutil
Um rumo para a decisão
Um ente veste o vazio
Em pele de raposa e mistério
Um jovem aprende sua língua
Como quem funda um império
Vitrais brilham numa igreja,
Luz fragmentada em oração
Um ativista passeia
Pela rua em combustão
Há uma ilha viva de pássaros,
Gente que aprende a coexistir;
E cupidos nadam num lago,
Como se amor fosse um elixir
Eu me manifesto —
E agora não me calo mais:
Estou impresso nos lados da moeda
Nos laudos, nos sinais
Brilhantes vitrais da capela.