Colonizador interestelar
Atravessa o vácuo devagar,
Vai à Lua coletar maravilhas,
Sóis artificiais
E minérios que brilham
Como segredos digitais
Há gestos mínimos na Terra:
Vedar o açucareiro,
Proteger a doçura do mundo,
Não dar língua ao formigueiro
Porque até o pequeno descuido
Desperta enxames no escuro
As memórias analógicas
Não se perdem no ar,
Mudam de forma, se alojam
Aprendem a se disfarçar
Como ilusões de óptica
Como peixes no fundo do mar
Pensei que esquecera
A centelha que sobrevive
Mas, ao escrevê-la,
Vi que não é só superfície
O sentido, uma labareda
Lambendo a vela,
Revelando o filme
Minha presença nesta dimensão
Não grita: é um sinal,
Um anúncio em construção,
Um eco ainda inicial
Estou aqui para dizer algo
No mais íntimo afago
Aprender é um ritmo interno:
Agir com consciência,
Sem impulso histérico
Em busca de urgência.
É saber o passo além da prece
Entre avanço e permanência
O pensamento floresce
Quando alguém o escuta,
E a voz - quando acolhida -
Vira ferramenta absoluta
Dela nasce sustento,
Dela a vida se recruta
Retorno ao passado em espiral
Devaneios e perguntas
Num diálogo essencial
A cura vem antiga
Num sopro ancestral
E então crio as cantigas
Não por fuga
Mas por pertencimento
A criatividade me abriga,
Faz do caos um movimento,
E do sentir, um lugar
Onde enfim me reconheço
As memórias moram no lar
Como nuvens num aguaceiro
Numa manhã solar
Não sou mais o mesmo
Antes da palavra, sinais.