Névoa no caminho,
coração guia em silêncio —
tudo nasce em paz.
Compilação randomicamente ordenada dos versos meus ou de Tchellonious ou de Tchello Melo ou de Marciano Macieira ou de algum lugar.
Se os pensamentos não viram manuscritos
As memórias perdem os próprios ritos
E se esquecem da história de Jesus Cristo
Dos perigos das apostas do imprevisto
Dos apóstolos perdidos no bazar
Dos jogos de azar queimando no bar
Dos focos de arte, ofício e artifício
Virou bóia o que um dia foi míssil
Não é brincadeira do copo
Eu retorno mas já estive morto
Sem me entornar no assoalho
Atravesso o palco sem atalhos
Estou de volta — mas não como antes
O teatro mudou meu semblante
Agora atuo de outra maneira
Mais coração, menos ribanceira
Sou altruísta sem virar otário
Sobrevivo ao mundo arbitrário
Preciso transmitir ondas largas
Transtornar o silêncio com palavras
Preciso transmutar o pensamento
Antes que o vento leve o momento
Passar pra tinta azul ou vermelha
Preta, versejo para que me veja
Porque a cor da caneta é minúcia
Quando a alma escreve lúcida
Quando eu consigo tocar ideias
Como nuvens suspensas e etéreas
Flutuando num céu impune
Onde o verbo cria e reúne
Onde o caos mental desacelera
Quando a escrita acaba com a espera
Se eu não manuscrever na hora
Meus pensamentos de agora
As memórias se perdem no fundo do mar
Antes mesmo de pensar em pescar
Escrever com a mão é tão poético
Quase um ritual magnético
As lembranças se recortam devagar
Deixam o pandemônio quieto
Reconheço a praticidade vulgar
Das notas digitais do dia
Do bloco aceso no celular
Pronto pra salvar epifanias
Mas recordações não seriam lembranças
Sem o peso humano das mudanças
A disciplina espiritual doma o fogo
Cérebro é pulmão, quer fôlego
A caneta é pincel e câmera
É baqueta que conduz a atmosfera
É batuta que rege o escarcéu
Organizando o ruído cruel
É instrumento, ponte e conduta
Pra ouvir o que o mundo não escuta
Metamorfose da ausência em sinal
E dar melodia ao caos mental
Se os pensamentos não virem os manuscritos
As memórias emudecerão os próprios gritos
Vão se esquecer da história, de Jesus Cristo,
Dos amigos das respostas do espírito.
Estou em paz, estou em mim
Ancorado com as pernas
Perto do porto do sim
É tempo de observar
Palavras, quando certas,
Conseguem alterar
A jaula tem janela
As grades se desfazem no ar
Recupero meu poder
Sem destruir ninguém
Rompo — e soube entender
Reinvento quem sou: eu sou quem?
Subo, sem perder o solo
Sem me esquecer da cuca
Às vezes perco o pôr-do-sol
Minha imperfeição cura
E descubro quem sou
Quando não posso voltar
Nada, nada, nada é calmo
A vida é como o mar
Tudo é necessário
O que não quebra revela
A verdade invade feito rádio
E amar errado apaga a vela
A sensibilidade guia
Sem ela, nada é seguro
O ego obsequia
O falso cai feito muro
Como sol no fim do dia
Tombo e me reestruturo
Para raiar até nas manhãs frias
Sentir com verdade salva
Evitar a dor pesa mais
O não dito fica na jaula
Estou em mim, estou em paz
O desejo muda o caminho
O infinito é breve
Paro de ser meu inimigo
O automático já não serve
O destino antigo acaba
E não é casualidade:
Quando é página virada
É porque não era mais verdade
Estou em paz, estou bem assim
Amarrado com as ideias
No mar derramado de mim
Batendo braços e pernas
Certo do porto do sim
No corpo, na caravela
Estou em paz, estou aqui.
O velho equilíbrio racha, imperceptível,
Como vidro cansado de sustentar o mesmo peso
O corpo se insurge em latejos
O instinto recusa o pacto do comedimento
Já não se pede controle, mas um tipo
Mais incomum de astúcia
Há desejos que não mais escutam
Às antigas desculpas
O que antes preenchia
Agora apenas se aproxima
Resta ternura, ainda há a sessão da tarde
Mas a ilusão se despede muda
Como quem apaga a luz sem alarde
Mesmo em meio aos rompimentos
Algo em você não demole
Existe um novo centro
Por enquanto, sem nome, porém forte
Até onde ir sem aniquilamento?
Até onde ceder sem desaparecimento?
Nem toda libertação vocifera
Algumas amadurecem quietas
O afeto perde o disfarce de evasão
E aprende a ser apuração
E a mente, encurralada pela própria verdade,
Olha de frente o que sempre ficava na periferia
Já não há mais possibilidade
De dormir dentro da própria vida
Quando a energia desperta,
A alma nega o silêncio imposto há eras
Não é arrebatamento
É densidade,
É responsabilidade,
É fechamento
Você já viveu isso noutra vivência
E ter o conhecimento
Disso é não precisar da reincidência
Nada aqui castiga
Tudo conclui um dia
Crescer também é um gesto de cuidado
Não negar o terremoto
Alegria real, sem pose para fotos,
Ou aplauso emprestado?
O passado já não é o dono
No máximo, dá conselhos
Não é abandono
É uma espécie de adeus cavalheiresco
Não amar menos
Amar com requinte pleno
O destino falou baixo
Em dois mil e vinte e quatro
Quem deu ouvidos
Não errou o próprio caminho
Há algo sentido tão fundo
Que não volta a caber no repúdio
Por fora, quase nada mudou
Por dentro, rearranjou-se tudo
Nem todo final precisa de espetáculo
Para ser irrevogável
O que se perde ao continuar cedendo direito?
Quantos vínculos invisíveis já são desfeitos?
Não é moral, é energético
Enquanto algo tem seu término
Outra ordem nasce
Um caminho de autonomia se desenha, discreto,
Contudo, é inevitável, eu sei que sabe
Você não deve mais nada
Você já não cabe
Na imagem que projetava
A dor agora tem delineamento
Deixa de ser frêmito
E se torna entendimento
Dói, mas abre
A ferida já não quer teoria,
Quer virar sabedoria em carne
Nem todo prazer compensa o preço
Nem toda permanência é apego
Essa vida ainda é sua
Ou apenas repeteco?
Agora, a existência pede postura,
Chega de lero-lero
Nada floresce por completo, por ora,
E o que finda aqui descarta regresso
Quando o poder às suas mãos retorna
Acordos antigos perdem serventia
Não é queda, é a remoção das fantasias
Sobre quem você pensava ser
O futuro não está translúcido
Mas o passado já não serve de refúgio
Antes de mudar de vida,
A vida muda, tranquila, dentro de você.
Nem toda verdade
Precisa nascer na fúria
Mas nenhuma pode mais ficar muda
Há verdades que pedem silêncio
Uma lacuna dentro do peito
Antes do desfile na rua
Num Sete de Setembro
Antes de renascer
A alma se desgruda
De quem fingia ser
Nenhuma certeza fica muda
E então a pergunta:
Você quer ovação na coluna
Ou a verdade nua?
Não cabem as duas coisas
A porta aparece sempre
Entrar ou não é escolha ainda
Mas o destino insta
O desejo já não pesa:
Vira força criativa
Dizer o necessário, sem aplauso,
É coragem que não grita
Mas muda tudo
O desconforto não falha:
Empurra futuros
A sombra fala
A tonalidade é sua
Expressar a verdade
Ou provar que não erra nunca?
A diferença muda o trajeto
Você não se rasga
Ao olhar para dentro de si
Você se costura
A vergonha enfraquece
A dor ganha nome
Quando há verdade,
A vida responde
E pede que abandone o controle.
Pessoas mostram e seguem
Com o tempo, a verdade emudece
Ela basta
Isso não é retrocesso
É casulo
Antes de agir no mundo
Aceite-se sem máscara
E então, a porta deixa de ser escolha:
Você já é quem perpassa.
I
Engenheiro do haikai,
a identidade não se extravia —
nem parte.
Só muda de pele, de película
como cobra que atravessa o vale da noite
sem perder o brilho da escama.
II
Religião humana:
voltaram as cores,
vibrantes e mansas,
aos meus sonhos indolores
de uma paz sem cicatriz,
de um repouso para mim.
III
Paranoias do processo.
O veneno parece ameno,
fino como fio de navalha,
firme e festeiro —
bebe-se sorrindo a taça
como um brinde
à própria vertigem.
IV
A tela finge ser espelho.
O muro, o relógio,
as máquinas domésticas do medo
falarão em alto e bom som
farão vermelho,
profetizando em neon
que o futuro é analógico.
V
Que haja a saída
à beira das abóbadas do céu.
Viagem feroz da existência,
asas rasgando a atmosfera
como quem acha sua poltrona
sem passagem de volta.
Autorizado o embarque.
VI
Fricção interna:
agir
ou fugir da caserna.
O medo da instabilidade
ergue seus dentes elétricos.
A tela —
peçonha moderna —
hipnotiza todas as idades.
VII
O futuro é analógico.
Aniquilam-se as saudades
com dedos magnéticos,
executando em silêncio histérico
o plano diabólico
de substituir memórias
por superfícies luminosas.
VIII
Cadáveres do cemitério
de sabonetes Phebo
ainda exalam perfume e lembranças.
Cheiro histórico,
limpo e melancólico,
como nuvens de sonhos intactos
e coloridos numa gaveta de infância.
IX
O elo é velho
feito sobrenome:
Moreira Melo.
Tchello, telúrico, Marcello —
nomes que carregam barro,
sangue, versos e origem.
Únicos
como toda herança invisível.
X
E eu me recordo
como se fosse amanhã:
eu e minha irmã,
no quarto do Fonseca,
antes de existir a internet
como uma religião inteira.
Mil novecentos e oitenta e sete.
A televisão respirava baixo.
Assistíamos à novela das oito
"O Outro",
com Francisco Cuoco
duplicando destinos na tela,
ao passo que o mundo, lá fora,
ainda era tátil,
paulatino
e profundamente afável.
Cada dia nasce noutro tom,
Um acorde novo pede escuta.
Sou curiosidade, cor de som
E a cura me conduz como batuta
Não é a agulha que me regula
É um pulso mais profundo
Uma bússola que aponta à bula
Do remédio do real mundo
A data de nascimento
Certificada no relógio quebrado
Junho, setembro ou novembro
Qualquer hora é aniversário
Sobretudo quando lembro
Que sou meu pior adversário
Não procuro mais caminho
Nem troco de fase
Eu me torno o próprio destino,
E me componho do topo à base
A verdade não tem conveniência
A realidade é viva — e quer vicejar
Viver não é só sobrevivência
É ter coragem de samurai
Sem provas nem vendas
Sem desejo vexado
A intuição é autêntica
É um cavalo indomável
A técnica já é memória
No corpo que aprendeu;
A vida pede fé agora
No salto para o apogeu
Não é mudança de recinto —
É um ciclo que se encerra:
Carma antigo de domínio
Como dominó cai por terra
Visto uma pele com mais poros
Instinto como direção;
Troco muros de protocolos
Por coerência no coração
O ego solta as rédeas
Já não dirige meu curso
É a alma quem me redige
Vereda não mais procuro
Quando a ilusão desmorona
Uma palavra se revela:
Ainda crua, é daquele idioma
Que vira ponte, lua, estrela
O desgaste não é queda
É sinal de conclusão
Toda forma cadavérica
Cede espaço à expansão
A antiga imagem se extingue
Já não veste o que eu sou;
E o que hoje não fica livre
Amanhã pesa e cobra pelo show
Não abandono a técnica
Ela aprende a servir
O ego larga as rédeas
Pesco o que rasga aqui
A virada é um zumbido:
Admito que nada rejo
O saber que abre caminho
É o inaudito desejo
Não é fuga nem inércia,
Nem mudez por temor
É agir com a alma alerta
Puro néctar do que sou
O passado me observa
Como raiz sob o chão
Minha estrutura se eleva
Na bravura da expansão
E o destino, em sua escuta,
Responde ao mais sutil gesto
O sol anda ciente da noite curta
A alma me escreve o trajeto
Quando sou quem me atravessa
Vida sintoniza utopia
Ação cura ferida velha
Alienação não cicatriza
O chamado é movimento
Com ternura e precisão
Sem calar o que sou por dentro
Nem trair meu coração
A sombra ganha contorno
Deixa de ser jaula
Com grades de ouro
No ritmo, visto a minha cara
Na luta armada da poesia
Sem ferir, sem desistir —
Com a farda de artista,
Pescando o que nada aqui.