A consciência se extrai
Na mesa de cirurgia
O tempo urge há tempos
Eu pensava que não urgia
Para presentear o meu pai
Eu recebi um cinzeiro
Cinza no jardim de infância
Na semana do Dia dos Pais
Em mil novecentos e oitenta e quatro
Era um presente clássico
Havia propagandas de cigarro
Fumaça em ambiente fechado
Um jóquei guia
De modo hábil o seu cavalo
Um estudante de filosofia medita
Sobre os mistérios da vida
Mesmo na noite sem lua
Posso ver meus olhos
Operários perfuram
Um poço de petróleo
Os raios solares inundam
E bronzeiam os livros amarelos
Um pavão exibe as plumas
Diante de um velho castelo
Um artista executa
Uma complexa figura ritualística
Um grande chapéu adornado
Com fitas sopradas pelo vento
Uma figura de cera ganha vida
Estou sendo, eu estou sendo
Empurrado para fora
De uma identidade antiga
Uma luz brilha e vai embora
Através de uma janela estranha
Celulares são armas luminosas
Quando dançam em Copacabana
Sonhos são lembranças
- Estou menos cínico do que cônscio -
Chega um dia que cansa
Jogar xadrez contra pombos
O sangue escorre
Das mãos aneladas de vocês
Os sonhos agonizam de porre
Sob escombros falam em português
Os cães farejam
Sobre os mistérios da vida
A consciência é uma estrela
Na mesa de cirurgia.