sexta-feira, 29 de maio de 2026

Lá Embaixo



Não basta saber o nome que você carrega,  

É preciso habitá-lo com os sonhos

Erguê‑lo na pele feito floresta,  

Mesmo quando o mundo pesa nos ombros

Hoje, tudo toca o que sou 


Não há fuga, não há transferência  

A verdade não aceita procurador

A identidade que mente é desfeita no primeiro abalo  

Como barro sem fogo, mapa sem referência

Ou você se alinha à alma, ao halo


Ou o corpo grita — cansa, trava, quebra o compasso

Racionalizar é vestir silêncio em tempestade:  

Adiar o trovão não impede o colapso

A mente desce agora onde antes não tinha coragem  

E não há saída, só encontro lá embaixo


Pensar já não é inocente

Cada ideia é semente de boletins  

O que fica prossegue presente 

Não porque é refúgio, mas porque é raiz

O coração indomável 


Recusa pactos com jaulas  

E onde havia medo, dependência ou hábito  

Ergue‑se o fim como descarga

O corpo pede manobra

A força contida vibra nos ossos


Não há mais tempo para demora

Não há mais vendas para os olhos

Se você não muda em escolha

O tempo move em impacto  

Velhos reflexos falham e escoam


Pelo ralo, o mundo já não responde no automático

Saturno sopra com ar sério:  

“Amadureça diante do caos.”  

E o remédio é simples, quase austero:  

Diminuir até restar o essencial


Só cresce o que é autêntico  

O resto implode em silêncio

Nada aqui é etéreo,  

Nada aqui é supérfluo.

A vida não escuta presságios


A vida responde a passos

E, no coração da bagunça,  

Algo se organiza:  

Nomear dissolve a angústia,  

Encarar integra a ferida


Quando a mente aceita o destino,  

O caminho respira  

O passado se tranquiliza  

Porque foi finalmente compreendido

Nem toda força sabe proceder 

                

E agir certo vale mais que agir com rapidez

Não cai o que se sustenta

A sorte não visita —  

Ela reconhece prudência

O destino abriga


Quem pode sustentá‑lo

A mente desce onde antes não tinha ousadia

E não há saída, só encontro lá embaixo.

Agora, o que chega persevera

Revela-se a luz escondida pela sombra


Vira fonte o que era controvérsia

A presença se torna idioma

O poder — silencioso — retorna.  

Não anuncia,  

Não implora


Apenas vigora como sol de dia

E, de agora em diante,  

Não há mais reconstrução infinita  

Há continuidade, corre o sangue

Não há mais avaria


Há rearranjo de valor da gangue interna

Quando frutifica o sentido  

A resistência verga.

Você não só vive o destino —  

Você o enxerga


Nem todo prazer acompanha evolução  

O coração a crescer aprende

No ritmo da mobilização

O passado solta o presente

O antigo gosto já não alimenta


O conforto agora nasce da coerência

E o excesso — outrora envolvente —  

Torna‑se peso que o novo eixo repele

A verdadeira sorte é aquilo que permanece

A ferida é transformada em força que suporta


O bem-estar vira bússola suave

E nem todo desejo merece rota ou finalidade

Agora, você opta  

Agora, você pilota

Agora, você responde — não reage


O crescimento cria núcleo

A emoção já não dita o caminho

O destino exige um coração adulto  

Diante dos indícios

O caos ficou para trás há poucos minutos


E, no centro de tudo,  

O eixo se firma calado e ileso

E a paz que sai do forno

É o respaldo que leio 

Na placa: não há retorno.


 

domingo, 24 de maio de 2026

Saudades de um Mundo Imortal

 


Eu alimento saudades

De um tempo sem despedida

Quando o medo era suave

E mais leve era a vida

Levo colher à boca do afã 


O relógio corria outrora 

Sem pressa do amanhã 

A inocência dormia

Sem receio da aurora 

Hoje o peito é nostalgia


Fotografia empoeirada

Canção que o tempo assovia

Na janela da madrugada

Mas não reclamo do vento

Nem do peso que a idade traz

 

Pois a dor de cada momento

Deixou um palhaço lá para trás

Revoluções e novidades

Já estão na pauta do dia

Em meio às ansiedades


Respirar é alforria

O mundo gira depressa

Tudo muda de repente 

Às vezes a alma tropeça

Tentando ser coerente


Eu não tinha dificuldades

Para encontrar alegria;

Ela morava nas tardes,

Nos silêncios, na poesia

Ela ficava bem à vontade 


E, mesmo após tantas partidas,

Apesar de várias barbaridades

Mesmo após o tempo ruir

Ainda alimento saudades

De quando ninguém morria.



terça-feira, 19 de maio de 2026

Eixo quieto


Névoa no caminho,  

coração guia em silêncio —  

tudo nasce em paz. 



segunda-feira, 18 de maio de 2026

Manuscritos do caos

 


Se os pensamentos não viram manuscritos

As memórias perdem os próprios ritos

E se esquecem da história de Jesus Cristo

Dos perigos das apostas do imprevisto

Dos apóstolos perdidos no bazar


Dos jogos de azar queimando no bar

Dos focos de arte, ofício e artifício

Virou bóia o que um dia foi míssil

Não é brincadeira do copo

Eu retorno mas já estive morto


Sem me entornar no assoalho

Atravesso o palco sem atalhos 

Estou de volta — mas não como antes

O teatro mudou meu semblante

Agora atuo de outra maneira


Mais coração, menos ribanceira

Sou altruísta sem virar otário

Sobrevivo ao mundo arbitrário

Preciso transmitir ondas largas

Transtornar o silêncio com palavras


Preciso transmutar o pensamento

Antes que o vento leve o momento

Passar pra tinta azul ou vermelha

Preta, versejo para que me veja

Porque a cor da caneta é minúcia


Quando a alma escreve lúcida

Quando eu consigo tocar ideias

Como nuvens suspensas e etéreas

Flutuando num céu impune

Onde o verbo cria e reúne


Onde o caos mental desacelera

Quando a escrita acaba com a espera

Se eu não manuscrever na hora

Meus pensamentos de agora

As memórias se perdem no fundo do mar


Antes mesmo de pensar em pescar

Escrever com a mão é tão poético

Quase um ritual magnético

As lembranças se recortam devagar

Deixam o pandemônio quieto


Reconheço a praticidade vulgar 

Das notas digitais do dia

Do bloco aceso no celular

Pronto pra salvar epifanias

Mas recordações não seriam lembranças


Sem o peso humano das mudanças

A disciplina espiritual doma o fogo 

Cérebro é pulmão, quer fôlego

A caneta é pincel e câmera

É baqueta que conduz a atmosfera


É batuta que rege o escarcéu

Organizando o ruído cruel

É instrumento, ponte e conduta

Pra ouvir o que o mundo não escuta

Metamorfose da ausência em sinal


E dar melodia ao caos mental

Se os pensamentos não virem os manuscritos

As memórias emudecerão os próprios gritos 

Vão se esquecer da história, de Jesus Cristo,

Dos amigos das respostas do espírito. 





domingo, 17 de maio de 2026

O que não quebra revela

 



Estou em paz, estou em mim

Ancorado com as pernas

Perto do porto do sim

É tempo de observar

Palavras, quando certas,


Conseguem alterar

A jaula tem janela

As grades se desfazem no ar

Recupero meu poder  

Sem destruir ninguém  


Rompo — e soube entender

Reinvento quem sou: eu sou quem?

Subo, sem perder o solo

Sem me esquecer da cuca

Às vezes perco o pôr-do-sol


Minha imperfeição cura

E descubro quem sou  

Quando não posso voltar

Nada, nada, nada é calmo

A vida é como o mar


Tudo é necessário

O que não quebra revela

A verdade invade feito rádio

E amar errado apaga a vela

A sensibilidade guia


Sem ela, nada é seguro

O ego obsequia  

O falso cai feito muro

Como sol no fim do dia

Tombo e me reestruturo


Para raiar até nas manhãs frias

Sentir com verdade salva

Evitar a dor pesa mais

O não dito fica na jaula

Estou em mim, estou em paz


O desejo muda o caminho

O infinito é breve

Paro de ser meu inimigo  

O automático já não serve

O destino antigo acaba


E não é casualidade:

Quando é página virada  

É porque não era mais verdade

Estou em paz, estou bem assim

Amarrado com as ideias


No mar derramado de mim

Batendo braços e pernas

Certo do porto do sim

No corpo, na caravela

Estou em paz, estou aqui.


sábado, 16 de maio de 2026

2024 (Ou Quando O Silêncio Já Não Cabe)

 



O velho equilíbrio racha, imperceptível,  

Como vidro cansado de sustentar o mesmo peso

O corpo se insurge em latejos

O instinto recusa o pacto do comedimento

Já não se pede controle, mas um tipo

Mais incomum de astúcia


Há desejos que não mais escutam  

Às antigas desculpas

O que antes preenchia  

Agora apenas se aproxima

Resta ternura, ainda há a sessão da tarde  

Mas a ilusão se despede muda


Como quem apaga a luz sem alarde

Mesmo em meio aos rompimentos  

Algo em você não demole  

Existe um novo centro

Por enquanto, sem nome, porém forte

Até onde ir sem aniquilamento?  


Até onde ceder sem desaparecimento?

Nem toda libertação vocifera

Algumas amadurecem quietas

O afeto perde o disfarce de evasão

E aprende a ser apuração

E a mente, encurralada pela própria verdade,  


Olha de frente o que sempre ficava na periferia

Já não há mais possibilidade  

De dormir dentro da própria vida

Quando a energia desperta,  

A alma nega o silêncio imposto há eras

Não é arrebatamento


É densidade,  

É responsabilidade,  

É fechamento

Você já viveu isso noutra vivência  

E ter o conhecimento  

Disso é não precisar da reincidência


Nada aqui castiga

Tudo conclui um dia

Crescer também é um gesto de cuidado

Não negar o terremoto

Alegria real, sem pose para fotos,  

Ou aplauso emprestado?


O passado já não é o dono

No máximo, dá conselhos

Não é abandono  

É uma espécie de adeus cavalheiresco

Não amar menos

Amar com requinte pleno


O destino falou baixo

Em dois mil e vinte e quatro  

Quem deu ouvidos

Não errou o próprio caminho

Há algo sentido tão fundo  

Que não volta a caber no repúdio


Por fora, quase nada mudou

Por dentro, rearranjou-se tudo

Nem todo final precisa de espetáculo  

Para ser irrevogável

O que se perde ao continuar cedendo direito?  

Quantos vínculos invisíveis já são desfeitos?


Não é moral, é energético

Enquanto algo tem seu término  

Outra ordem nasce

Um caminho de autonomia se desenha, discreto, 

Contudo, é inevitável, eu sei que sabe

Você não deve mais nada


Você já não cabe  

Na imagem que projetava

A dor agora tem delineamento

Deixa de ser frêmito  

E se torna entendimento

Dói, mas abre


A ferida já não quer teoria,

Quer virar sabedoria em carne

Nem todo prazer compensa o preço

Nem toda permanência é apego

Essa vida ainda é sua  

Ou apenas repeteco?


Agora, a existência pede postura,  

Chega de lero-lero

Nada floresce por completo, por ora,  

E o que finda aqui descarta regresso

Quando o poder às suas mãos retorna

Acordos antigos perdem serventia


Não é queda, é a remoção das fantasias

Sobre quem você pensava ser

O futuro não está translúcido  

Mas o passado já não serve de refúgio

Antes de mudar de vida,  

A vida muda, tranquila, dentro de você.



quinta-feira, 14 de maio de 2026

Teimosa porta

 

Nem toda verdade 

Precisa nascer na fúria

Mas nenhuma pode mais ficar muda

Há verdades que pedem silêncio

Uma lacuna dentro do peito


Antes do desfile na rua

Num Sete de Setembro

Antes de renascer

A alma se desgruda

De quem fingia ser


Nenhuma certeza fica muda

E então a pergunta: 

Você quer ovação na coluna

Ou a verdade nua?

Não cabem as duas coisas


A porta aparece sempre

Entrar ou não é escolha ainda 

Mas o destino insta

O desejo já não pesa: 

Vira força criativa


Dizer o necessário, sem aplauso, 

É coragem que não grita 

Mas muda tudo

O desconforto não falha: 

Empurra futuros


A sombra fala

A tonalidade é sua

Expressar a verdade 

Ou provar que não erra nunca?

A diferença muda o trajeto


Você não se rasga

Ao olhar para dentro de si

Você se costura

A vergonha enfraquece

A dor ganha nome


Quando há verdade, 

A vida responde

E pede que abandone o controle.

Pessoas mostram e seguem

Com o tempo, a verdade emudece


Ela basta

Isso não é retrocesso 

É casulo

Antes de agir no mundo

Aceite-se sem máscara


E então, a porta deixa de ser escolha:

Você já é quem perpassa.