terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Shopping Center do Inferno (Vale do Silício)

 


Olhar um ponto fixo

Sustém o corpo em pé:

Assim no fundo da treva

Como no fundo do fel


O diabo, arquiteto aplicado,

Ergueu prédios de vidro e delírio

— assinou contratos, startups,

No Vale do Silício.


É preciso ser mais esperto

Que o próprio espelho digital,

Mais sagaz que o algoritmo

Da inteligência artificial.


Perto de um paraíso urgente,

Sangue com selo celestial,

Nossa árvore genealógica

É história editada, seletiva, oral.


No silêncio secreto dos genes,

Herdamos afinidades e aversões:

Rechaço, rebeldia,

Uma calma escolhida a dedo,

Serenidade em prestações.


Assim no fundo da terra

Como no fundo do céu,

O diabo misturou os séculos,

Confundiu credos, vendeu o véu.


Inteligência artificial,

Novo Oráculo de Delfos.

Preguiça cerebral em alta,

Pensar virou esforço tosco.


O diabo mora ali faz tempo,

No Vale reluzente e liso

Ninguém mais decora datas,

Ninguém liga por improviso.


Perderam-se números, nomes,

Aniversários, memórias e a paz.

No Vale dorme a raposa —

Covarde, cínica, capaz.


Atenção em estilhaços,

Informação rala, mesquinha.

Pensar virou terceirizado:

Estupidez humana em linha.


É preciso ser mais humano

E menos virtual, afinal,

Mais inteligente que o conforto

Da inteligência artificial.


As redes reprogramam

Corações, hábitos, razões.

Bem-vindos à máquina do caos,

Curtam, compartilhem, amém.


Uma borboleta cruzou meu olhar

No engarrafamento banal.

Talvez gostasse do meu perfume,

Do meu gosto de nuvem,

Peixe aéreo, sal.


No liquidificador do tempo:

Poeira, tapume e verso.

Liquefiz xepas de feira,

Poemas velhos, o universo


É estranho relê-los agora,

Após tantos invernos,

Entre filtros, feeds,

E diversos algoritmos.


A maturidade — santo remédio —

Não cura, mas dá distância.

Ensina que nem todo inferno

Arde: alguns oferecem Wi-Fi e vitrines,

Num shopping do Vale do Silício.


Olhar um triângulo por dentro

Equilibra tanto quanto um livro

O inferno mais controverso

Tem praça de alimentação

E estacionamento exclusivo.



quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Caverna e casa



A normose vem maquiada

Inflada de normalidade

É a caverna pós-moderna


Antiquíssima novidade

Você não precisa de merda

Nenhuma para existir entre


A personagem de família

E o explorador de espuma

Radical na superfície


O pensamento estampa a camisa

O ajuste só aparece depois

Quando o excesso escorre


E revela o corte exato


Que a casa vire laboratório

De experiências santas e ousadas

Enquanto a mente ensaia seu repertório


Se morre um projeto

Se cai o teto da pousada

A mente calcula os escombros


Absorve a perda

Redesenha a rota dos sonhos

Sem guerrear contra o tempo


Usa a persistência

Como andaime

Para erguer estruturas futuras


Mas aprenda:

A mente veloz demais

Pode atropelar a intuição


A comunicação — dom antigo —

Dá voz ao que é sutil

Sem transformá-lo em ruído


Para não confundir silêncio

Com improdutividade

Nem rigor com verdade


Confesso: fui ingênuo

Quando nadava na tragédia densa

No oceano do veneno


E achava uma boa ideia

Buscar chaves mágicas

Em fechaduras erradas


A chave dos enigmas

Sempre esteve no bolso

No claviculário do osso


Axiomas e atitudes 

Sintomas bem adaptados

Tratados como virtude


Há quem tema sair da caverna

E repita a mesma novela

Funcional, cansada, correta


A saída da esquete caquética

Doeu nos olhos

Todavia limpou a lente


Não sou mais planta atônita

Há luz — e ela não conforta

A caverna é cenário


Faz-de-conta

Com mobília gótica

E poeira bem distribuída


Nada ali brilha

Mesmo quando a vida insiste

Do lado de fora


Da personagem de família

Ao explorador de espuma

Radical na superfície


Há quem prefira o velho filme

Quem vive no automático

Não espera espelhos


Nem cultiva pensamento crítico

O exemplo se oferece 

Nunca se impõe


A caverna arma seu circo

Luzes falsas, cruzes,

Risos em looping


Nem com cupom

A plateia aceita sair

Jura amar o espetáculo


Até que a casa vira santuário

E não aquela caverna de neon

Entre Las Vegas e São Paulo.















quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

As Pirâmides de Gizé

 

O novo não se guarda

Apenas no dia posterior

Cada um aguarda até de madrugada 

A sua dose diária de amor


Para viver hoje

O novo não mora só 

Na aurora mesmo sem a luz do sol

O novo veio pois já se trouxe


Pelo anseio doce

Aparentemente pusilânime

Na firmeza silente da fé

Tudo se move na sua hora


Embora pareça tarde

As Pirâmides de Gizé

São o marco zero da humanidade

Que virou um sério banzé


Cara, você não quer mais pertencer:

Quer fazer sentido

Camarada, ser você agora é 

O seu caminho


Mesmo que frustre mofadas expectativas

Não precisa mais polir o lustre

Tem que confiar na intuição amiga

Não é um tempo de agradar o clube


Mas de ajustar a sua trajetória

Ou você se posiciona na zona da nuvem 

Ou lhe empurram para fora 

Da região da alucinação


Sem rigidez na estrutura

Disciplina sem autoanulação

Responsabilidade sem culpa

Você não quer mais caber na foto


Perante o desejo do êxito 

Não vai aparecer o novo

Somente quando abrir os olhos

Com zelo onde estiver


A peça nos seus trâmites 

Embora soe um papel ilusório 

Consoante a constelação de Órion

As Pirâmides de Gizé


Marco zero da humanidade

Na construção, trabalhadores livres

Eis o único milagre 

Do mundo ancião que sobrevive


As quatro faces laterais,

Da Grande Pirâmide de Gizé 

Estão conforme os pontos cardeais

Conectando Rá, o deus do sol, aos faraós


Blocos de até dez toneladas 

Deslocados por trenós

Sobre areia molhada 

Para facilitar o deslizamento


Usando artesãos, polés 

E engenheiros no erguimento

Das Pirâmides de Gizé

Velha Maravilha ainda de pé


O novo não irrompe

Apenas no dia seguinte 

Que logo será ontem

A dose diária de requinte.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Notícias do interior

 



Nem sempre está certo 

Um fundo assertivo 

O futuro é um furto 

Um fluxo furtivo 

Inconscientemente penso


Nem sempre estou perto 

Na linha de frente, pêndulo 

O inconstante é pétreo 

Notícias do interior 

Do instante que não veio


Da noite anterior 

Do dia primeiro 

A saída da zona da culpa 

Para o lugar da responsabilidade 

Não funciona logo como atravessar a rua


É para se adaptar a uma nova cidade

O atraso exato da descoberta

Do padrão inato e repetitivo  

Cuja necessidade da quebra  

Deriva de tempos deveras idos


Contudo, tudo faz parte 

Do jogo esculpido de vida

Da culpa à realidade 

Foi uma bela saída 

Notícias dos bastidores


Que duram há milênios 

Bastam as dores dos leitores 

Eles ainda estão lendo

Notinhas decoradas dos interiores 

Apesar do dia que virá


Da noite que não está nos arredores 

No entanto vai pintar 

Nem sempre está perto 

O perfeito perfil perdido 

O sexto sentido é sutil feito susto


Um absurdo pululante e seletivo

Um alucinante crepúsculo 

De berros em cores, novas internas

Internacionais arrebóis de assuntos 

Na lentidão certa da voz da descoberta. 














sábado, 10 de janeiro de 2026

Os tempos são outros



Abandono do pensamento 

De como a vida deveria ser cinema

Abraço do novo tempo

Tentando se jogar na consciência

Os jornaleiros não têm mais conhecimento

Dos nomes dos logradouros

 

Há quem ignore o número do seu aparelho

Inegavelmente, os tempos são outros

Livramento do túmulo do passado 

Palavras de raiva e arrependimento 

Como pedras no sapato

Descalço na terra, no cimento

 

Não é mamão com açúcar 

Embora saiba andar há tempos 

Tropeço e tombo em algumas ruas

Tomara que fique o ensinamento 

A vontade nua e a realidade crua

Vociferam rara relevância

 

Revelam-se várias ruas

Que se rebelaram pela distância

A boa educação só parece

Uma espécie de submissão

Os ecos do novo século estão aos pés 

Não são netos da imaginação


O desperdício foi um cego investimento

E a perda, um tipo de tesouro

Os jornaleiros perderam o conhecimento 

Dos nomes dos logradouros

Renúncia do habitual tormento 

Na cuca, o ritual na velocidade em dobro


Com tempo eu gosto e contemplo

Agora entendo, são jogos loucos 

Tanto na selva quanto na jaula

Névoas da missão em emissão 

Colegas da nova era chegaram

Não são nuvens nem legos da ilusão


Não sou novinho em folha 

Tampouco nasci no dia anterior 

Renasci anteontem com uma força 

E uma fome de paz e amor

Aniquilamento do meu papel pequeno

E dos seus conselhos tolos


Foram apelos, bilhetes, momentos

Furo pedra por leite, os tempos são outros

Largo os dias cinzentos 

Sei como a vida é milagrosa e livre

Abraço do novíssimo tempo

Nos passos de quem goza e vive


A juventude vem e vai como vento

O bom senso evita o socorro

Os jornaleiros sem mais conhecimento 

Dos nomes dos logradouros

Não é mamão com açúcar 

Ter a noção do que se passa cá dentro 

 

Passado na sala escura e úmida

Outrora, os segundos eram mais lentos

Ao longo da desconexão jovem

Talvez sejam néctares vindouros

De mil novecentos e setenta e nove

Feliz ânimo novo, os tempos são outros.


 














quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Meus sentimentos são grandes demais para caberem onde me sinto seguro

 


Quanto mais sei de mim, ando

E fico menos suscetível 

À movimentação do bando

Preciso criar mais sentido


Do que mero conteúdo

Na erosão, mágoa e bad trip

Do nada, apreende-se tudo

Do transistor ao nanochip


Da intuição à inteligência

O vaso quebrou, paciência...

Devolvi a terra à planta

Lavei a varanda de lavanda 

 

À medida que me conheço

Fico cada vez mais teso 

Às futilidades da normose

Só é possível a metamorfose


Se me sentir inteiro

Eu sou aquilo que valorizo 

Eu sou aquilo que protejo

Com princípios, o amor é aprendido


O afeto tem necessidade 

Do merecimento da existência

Da memória à saudade 

Minhas comoções são imensas


Meus sentimentos são grandes demais

Para caberem onde me sinto seguro

As emoções se autorregulam

Minha dor nasce ao tentar me afirmar


Mas também é assim que eu curo

Minhas sensações são colossais

Quando alguma coisa dói, cresce; 

Quando alguma coisa cresce, dói


Da mentalização à prece

Da crista da onda ao cais de Niterói 

Minhas emoções são gigantescas

Pensar é uma forma de evitar


A perdição das estribeiras 

Interno oceano, outro lar

Mesma cisterna entre as beiras

Do rio manso e do revolto mar


A mente como amiga, 

Não mais como fuga 

Eu posso até postergar 

Porém não há saída


Emoções se autorregulam

Sonhos só operam

Quando dispostos 

Crises carregam


À sensatez dos novos portos

E não à ruptura externa

Nada acontece sem ser nomeado

Pensado ou interpretado


O amor se ensina com princípios 

Meus sentimentos são profundos

Do desatino ao tino

Do refúgio ao futuro 


Pensar é uma forma de levitar

Estreita margem, mesma cisterna 

Pela maturidade no meio do mar

Contra a ansiedade eterna 


A mente como sequaz, 

Não mais como subterfúgio 

Meus sentimentos são grandes demais

Para caberem onde me sinto seguro


Quanto menos me ignoro

Eu me torno mais forte

Meu silêncio é sonoro

Só é factível a metamorfose 


Caso me sinta protegido 

Meus sentimentos são imensos

O que penso, sinto

E o que sinto, penso


Eu decido com a razão 

Mesmo quando acho

Que é com o coração

Se algo não tem significado 

 

Não vai adiante, não adianta

Só há mudança com segurança 

Consigo até adiar o encontro marcado 

Contudo não escapo.
















sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Petricor

 



Franco passado

Contentamento melancólico

O costume está pasmo

Nos olhos a cor do caos


Por detrás dos óculos

Escuros e os degraus 

Galgo da escada rolante

De uma antiga galeria


Do centro da cidade grande 

Querida, como renascer 

Sem a garantia de deixar morrer?

Quem é que me garante?


Frango assado

Tela de cachorro

O praxe está passado

Se morri, nasço de novo


As ilusões estão enterradas

São alimentos para o solo

O cheiro da terra molhada

É um bilhete com que me desloco


O odor e a dor que eu bisbilhotava 

Dominavam junto com o oxigênio

Sem morte, camarada, 

Não há renascimento


O petricor me transporta

Para uma camada de outro milênio

O pretérito não volta

E me sinto mais perto do destino


O petricor abre as portas 

Com o perfume em forma de sentido

O passado não se altera

O que está feito não se desfaz


O momento é o leito da atmosfera 

O futuro não se mostra jamais

Meu amor, eu moro no petricor

Atrás dos óculos coloridos de sol


Nos meus olhos, nos dias de calor

O olor que lembra as presenças

E os milagres de pessoas 

Calorosas nas tardes lentas


Adoro a essência terrena 

Os ancestrais dependiam da chuva

Para a própria sobrevivência

Das profundezas do mar, beleza pura


O petricor em mim pousa

No ar gritantemente sorridente 

A fragrância voa, voa, voa

Com as coisas boas de sempre


Com os sonhos da velha infância

Um bom aroma da terra

Úmida povoa as lembranças 

Sou atualmente daquela época


Mesmo espaço, outra instância

Eu fico pensando, lembrando 

Viajando com o que vi

Achando hoje tudo estranho


O presente pode ser um souvenir

Passado franco, vento de ausência 

Avanço, todavia não fujo de mim

O vulto que a vontade inventa


As cinzas empilhadas num canto 

Agora revoam, não estão mais aqui

Sacando maravilhas do fundo do oceano

Sem falecimento, não há renascença


Sou do tempo em que o silêncio

Tinha perfume, luz e licença 

Subo a montanha cá dentro 

Meus pés possuem asas


Através de uma particular dança 

Ensaiadamente improvisada

Enquanto o petricor me alcança

Como renascer sem que morra nada?