quinta-feira, 9 de julho de 2026

O sino da sorte



A intuição é a bússola
Em mares nunca singrados
A perdição é uma busca
E o perdão, um crédito caro
Para quem se debruça

Em ondas, frequências e abraços
Fica o sino da sorte
Presente de tia Nelsina,
Irmã de vovó Joanna
E mãe de Leninha

Tia Nelsina ia com mamãe ainda criança
Ao auditório da Rádio Nacional
Na Praça Mauá
Mil novecentos e cinquenta nove
Artistas sensacionais

O sino da sorte
Toca os seus sinais
Dá os seus toques
Aos ouvintes ancestrais
Plateia interna

Aplausos, assobios
Lágrimas simpáticas e sinceras
Na cabeceira da sala o sino
Badala e ressoa
Rádio que ouço desde menino

Orações, hinos, canções, bichos e pessoas
Além da voz baixa que passa
Com quase volume nenhum
Sim, eu acho que Dona Jane passeava
Com tia Nelsina por volta de sessenta e um.





















 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Cada pergunta

 

Cada pergunta 

Até a idiota

Não é um entrave 

Mas uma porta que se abre


Eu me recordo 

De onde vim

Com a tripulação a bordo

Do navio ancorado em mim


Cada dúvida 

Até a estúpida 

Não é um empecilho 

Mas uma escada


Cujo sentido

Ou esconderijo

É o ponto de encontro

De partida e de chegada


Eu me lembro

De onde cresci 

Quando era pequeno 

E os imóveis, enormes.








quarta-feira, 1 de julho de 2026

Aos dias loucos da infância

 



Eu te agradeço

Pelo medo, pelo pix

Por ter tido cedo o clique

Para sair da matrix 

Mesmo que fique


Eu tenho que parar 

De marcar com os olhos 

E criar logo um portfólio 

Eu rogo por aquele colo 

Que só rola quando volto


Aos dias loucos da infância 

Quando a loucura não era estranha 

E sabia dançar samba

Eu agradeço àquela criança

Velha dança da mudança. 



sábado, 27 de junho de 2026

Rios de tinta




Rios de tinta

Correm pelas páginas,

Pelas veias distintas,

Vertem-se em lágrimas

Para que se sinta


No tato e na tática

A palavra nunca estática

Que veleja entre cinzas

Margens e paredes

Nos rios de tinta


Vejo caveiras com sede

Em vez de pinguins

O veneno nas veias

Já não vence o que há em mim

Meu coração detento


Bombeia e não carimba licença 

O tempo ligeiramente lento

Bambeia da lua nova à lua cheia

Sem querer eu me lembro

Entre partidos e seitas


Do que, sem lembrar, eu quero

Merecidos mistérios

Caveiras fico vendo

Quando as coisas se nomeiam

A escolha do veneno


Escorrendo como tinta fresca 

Atravessa o coração detento

O chão, o gesto e o tanque

Rios de tintas, de janeiro a dezembro,

Aflitas no que me tange


Escolho o veneno

Que percorre meu sangue,

Corta o coração detento,

O porão, o mangue,

Rios de tinta, ritos de coragem 


Ferem, pintam, reinventam

Escrevem na minha carne

O que as letras não enfrentam

Aceleram por dentro, ofegantes,

Dilaceram o silêncio da margem


E, no que me tange,

Fazem de mim bumerangue 

Os rios de tinta nunca apenas passam

Pelos seus navegantes

Na terra, na tez e no texto se grafam.




 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Ecos do tempo estático

 





Quantos vendavais

São vendáveis?

Onde estão as chaves

Por um futuro de paz?

Não é o tempo que corre


É a gente que se move

Muito além dos pratos úmidos,

Dos copos no escorredor,

Há um suspiro e um susto

Ao lado de mim, no interior


O tempo está parado,

Feito fantasma no armário,

Habitando as frestas da cozinha 

O avesso do calendário

Não é o tempo que caminha


É o sonho que se avizinha

Como quem surge na neblina

E acende uma luz na praxe

Quantas tempestades

Precisam ser vencidas?


Para a rendição da distância

Na idade das saudades

Não é o tempo que anda,

São as plantas na varanda,

Estendendo folhas à lufada


Aprendendo a dança plácida

O tempo permanece inerte 

Entre o amanhã e as lembranças

No mesmo instante servem

A ausência e as esperanças


Como pedras no aquário,

Imersas num mundo sem pressa,

Onde tudo repousa diáfano

Enquanto a vida atravessa

Como árvores e pássaros.



quinta-feira, 11 de junho de 2026

Tinta da alma




Oh, eu já fui tão idiota,

Mas a lucidez me socorre e volta

A rima que serve pra toda palavra

É divina e se escreve com a tinta da alma

O ferro se oxida como erro e pavor


Mas a poesia resiste ao rigor

Gostando ou não, no papel eu me leio,

E o tempo desata o nó do receio

Pois é, já fui tonto e perdi o compasso

Esqueci o meu nome e o tamanho do espaço.


Ainda bem que o meu sonho não falha

Sou feito de vento e pintado em palavras

Oh, já fui tão perdido todos os dias do mês 

Tão distraído da própria direção

Ainda bem que há lucidez


Benzendo o caminho de volta ao coração

Já fui refém das minhas avestruzes,

Dos labirintos da tradução 

Mas a vida acende suas luzes

Quando a alma pede dicção


A rima que abraça

Qualquer palavra que vier

É perene e sagrada

Como a lente que nasce da fé

Ela não pede permissão 


Nem escolhe hora ou lugar

É divina quando se grafa

Com a tinta da alma que pintar 

Quase tudo se oxida:

O ferro, o erro, o medo


O tempo corrói as garantias

Desfaz ilusões em segredo

Mas nunca se gasta a poesia,

Não se envelhece o que é verdadeiro

Gostando ou não, eu a leio


E nela me reconheço, c'est moi

Pois é, já fui tão tonto,

Tão distante de me lembrar

Havia um universo pronto

Esperando como nuvens no ar


Ainda bem que o meu sonho

Não se perde nem se esvai

Permanece nos escombros

Na disciplina de um samurai 

E se hoje encontro sentido


Onde antes só via escuridão,

É porque meu sonho está vivo

Pintado em palavras, dentro da canção

Oh, eu já fui idiota demais 

Porém a lucidez veio e não me solta mais.




 

sábado, 30 de maio de 2026

Teatro Múltiplo do Ser

 



Multiplicidade mental  
Teatro da identidade  
Um interior confidencial
Construído como obra de arte
Um grupo de crianças improvisa a existência

Elas brincam de ser, elas se movimentam
Trocam de essência  
E inventam mundos sem saber que inventam
Pessoa não é um eu fixo  
Pessoa é um laboratório de consciências

Aqui nasce o impossível:  
Os heterônimos não são disfarces  
São organismos vivos  
Respiram dentro da linguagem
Vidro soprado moldado em emoção

Pessoa sente, mas nunca sem composição
Tudo nele passa pela estética transmutação
Por isso dentro do peito há teatro
Por isso há o dever máximo:  
Escrever para existir de fato

Uma galinha aquece seus pintinhos  
No silêncio do instinto
Assim ele gesta seus indivíduos
Não inventa personagens
Ele os cria como quem gera destinos

Um círculo em torno do tabuleiro  
Vozes, ideias,
Ecos, pedras
À beira-mar resistindo ao tempo
Em Pessoa, a expressão é grandiosa

Mas o controle usa seu filtro
Contra o oceano, uma rocha
Por fora, fechado, misterioso, inacessível
Por dentro, um abismo sensível  
Quase abusivo

Ele navega no estilo  
Num barco de fundo transparente  
Vendo o que há sob a água do inconsciente
Não escreve somente
Subverte, desfaz, reproduz

A própria noção de identidade
É secreta sua espiritualidade:
Iniciática, solitária luz
Um criador de si mesmo
Envolto em peles impalpáveis

Para suportar o mundo inteiro
Pessoa não tem identidade
Pessoa é um sistema
Um campo psíquico habitado
Uma experiência extrema

Um metafísico teatro
Sua vida nunca foi ser alguém
Foi tentar ser todos
E surgem os heterônimos
Quase autônomos

Como planetas com órbita própria
Alberto Caeiro é simples apenas
Em semblante, em aparência
Nega as coisas incorpóreas
Porque dentro dele já moram

É o anti-Pessoa Alberto Caeiro
Da linguagem é o grau zero
Alberto Caeiro é
O antes do entendimento
O ser que é sem saber que é

Álvaro de Campos é excesso  
Surto, vertigem, turbulência
Implode o desmembramento
Em sensações e vivências
Álvaro de Campos não pensa

Álvaro de Campos vibra
Em palavras, grita
Como descarga nervosa
Álvaro de Campos é a decadência
Elétrica da veemência

Ricardo Reis é medida, contenção, forma
Ricardo Reis é o guardião da ordem
Se Campos explode  
Reis acalma
Ricardo Reis transforma o caos em equilíbrio

Uma arquitetura da alma
Fernando Pessoa: nunca inteiriço nem concluído
Fernando Pessoa repara
E não se proclama
Fernando Pessoa é o espectador do próprio drama

Fernando Pessoa não cria heterônimos por estética
Mas por necessidade enérgica
Um só eu, uma só estirpe  
Não sustentaria sua psique
Caeiro é percepção sem ego

Campos, ego em disparo
Reis, superego clássico  
Pessoa, consciência que enxerga
No fim, Pessoa não é identidade
Nunca foi ser alguém a sua vida

Pessoa é o lugar onde todas as personalidades
Tentam existir e nenhuma fica
Envolto em peles impalpáveis
Ele converte as vísceras
Escondidas em obras de arte.