Oh, eu já fui tão idiota,
Mas a lucidez me socorre e volta
A rima que serve pra toda palavra
É divina e se escreve com a tinta da alma
O ferro se oxida como erro e pavor
Mas a poesia resiste ao rigor
Gostando ou não, no papel eu me leio,
E o tempo desata o nó do receio
Pois é, já fui tonto e perdi o compasso
Esqueci o meu nome e o tamanho do espaço.
Ainda bem que o meu sonho não falha
Sou feito de vento e pintado em palavras
Oh, já fui tão perdido todos os dias do mês
Tão distraído da própria direção
Ainda bem que há lucidez
Benzendo o caminho de volta ao coração
Já fui refém das minhas avestruzes,
Dos labirintos da tradução
Mas a vida acende suas luzes
Quando a alma pede dicção
A rima que abraça
Qualquer palavra que vier
É perene e sagrada
Como a lente que nasce da fé
Ela não pede permissão
Nem escolhe hora ou lugar
É divina quando se grafa
Com a tinta da alma que pintar
Quase tudo se oxida:
O ferro, o erro, o medo
O tempo corrói as garantias
Desfaz ilusões em segredo
Mas nunca se gasta a poesia,
Não se envelhece o que é verdadeiro
Gostando ou não, eu a leio
E nela me reconheço, c'est moi
Pois é, já fui tão tonto,
Tão distante de me lembrar
Havia um universo pronto
Esperando como nuvens no ar
Ainda bem que o meu sonho
Não se perde nem se esvai
Permanece nos escombros
Na disciplina de um samurai
E se hoje encontro sentido
Onde antes só via escuridão,
É porque meu sonho está vivo
Pintado em palavras, dentro da canção
Oh, eu já fui idiota demais
Porém a lucidez veio e não me solta mais.