quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Retratos e retratações

 



Hoje é dia de fazer algo 

Pela primeira vez 

O silêncio revela do alto

Caminhos inefáveis


Confie: você está

Onde precisamente precisa estar

Com a colheita de guimbas

Ao longo do dia


Um menor abandonado

Confecciona um cigarro

Faces cansadas na fila

Frases causadas da fala


Engajamento na anestesia

Paraíso de plástico

Paraíso da hipocrisia

Do trágico elástico


Paraíso dos infelizes

De cujo elenco

Eu era membro

As armas estão no ar


Ainda me lembro 

De como voltava

Ondulante do mar

Ia e vinha, ia e vinha, ia e vinha....


Sonho como se fosse amanhã 

Eu tirava, com a minha irmã, 

A pele descascada de papai

A memória é um ímã


Barca lotada 

Passageiros de pé

Ponte engarrafada

E na tevê o show da fé


Noites

Pedras

Poesias

Cadê elas?


Onde ficam?

Por onde andam?

Almas lacradas na apatia

Eu gostava daquela banda


Mas o exímio guitarrista 

É desafinadamente antivacina 

Os retratos não podem ver

Contudo pelo que sei


As retratações têm

A possibilidade de rever

As pistas largas

Da Avenida Presidente Vargas


Foram lavadas

Com água, sabão e prudência 

Para a remoção das obras equinas 

Após o desfile da independência


Um mendigo da Avenida Rio Branco

Em frente a um banco 

Ouve um hip-hop

Bebe um milk-shake do Bob's


E pita um cigarro de Jah

Ao lado do seu fiel cão sem horizonte 

E da placa, onde se lê fome

Em inglês, em espanhol e no olhar.









quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Quem tem medo é capaz

 


As estrelas precisam de breu

Para mostrar seu brilho

Alguém trouxe brigadeiro para mim

E foi-se embora de Icaraí


Mas o doce me deixou tranquilo 

Ele, ela, você e eu

Enfim estamos nos entendendo

Fantasias não são fatos


Caiu na realidade a fada

Veneno, símbolo de status 

Quando não humilha, mata

De modo ligeiro ou lento


Para descansar em paz

É só uma questão de data

Quem tem medo é capaz

De ações inconsequentes


Canções, assobios, pensamentos 

Que sabem que cansam e tremem

Caixas, corações e cabeças

Abalos das rádios AM e FM


O invisível seletor de frequência 

Vive no interior, no som ao redor do trem,

No amor e no vibrante silêncio

Do breu imenso entre as estrelas.








quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Imaginação, memória e ônibus de leito

 


Antigamente as mídias televisivas

Nao eram mais do que sete

Não tinha Internet

E com a cabeça na barriga


Do meu pai eu assistia

Ao Jornal da Manchete

Agora cada pessoa

É uma emissora


Globo, Bandeirantes, Record

A Bíblia é só um livro histórico 

Eu podia estar pior 

Entretanto cantava o repertório 


Com os primos, tios e avós

Nas poltronas, programas de auditório 

Hoje cada pessoa anda absorta

Na tela, na cela, na bolha


Ninguém mais sai pra dançar

Ninguém mais usa telefone fixo

Ninguém espera mais

A estreia do clipe daquele disco


No Ponto Zero da MTV

Ou no derradeiro bloco do Fantástico 

Eu poderia estar nem aí 

Porém viajo nas estações do rádio


As mídias eram pouquíssimas

Não passam de livros históricos

Os almanaques e a bíblia 

Eu poderia vendar os olhos


Todavia estou na vigília

A pele é apenas uma parede

Apelo, espelho, legado

Arte é mais do que mero enfeite


Veículo significado 

Palavra minério 

Infância substância

Fissura caramelo


A dor da anestesia se amansa 

Mistura de apatia, silêncio e medo

Uma loucura de gincana

Quem será o primeiro?


Agora sei ler seus lábios 

Depois de tantas lições

Edições do dicionário 

Eu me dispo das ilusões


Que não me deixam ver direito 

O canal com imagem boa era o quatro

Imaginação, memória e ônibus de leito

Sempre me levam embora, é o contrato.



















sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Paciente é o vento

 


Uma cortina de partituras

Deixa o sol tocar a ideia

Com o cortador de unha 

No chaveiro, desbrava-se a floresta

A par do coração, a par da cura


À parte do colegiado

Cadê o hábito da leitura?

A habitação é no peito 

O que é um pleito

Para quem está catalogado?


O futuro será mais quente 

Do que circo mambembe

Enquanto houver montanhas

Para o vento escultor e paciente

O presente escuta e lá pelas tantas


Vira um decadente passado 

Vídeo-tape, teia de aranha

Choro no chão de mosaicos

Penico debaixo da cama

Mangas cortadas da camisa


Artimanha, tapete puxado

Pelos diretores, pelos deuses

O melhor roteiro se improvisa

Nem sempre, só às vezes

Uma pedra, uma peça, uma pesquisa


Paciente é o vento

Que esculpe montanhas

Lembranças e monumentos 

Ah, me desculpe: de vez em quando

O improviso é o melhor plano.









segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A humanidade



Para sair do armário 

Doação de camisas

Alusivas à bebida

Eu saí do aquário

Só visto o que me representa


Está tudo tão claro

A humanidade virou uma doença 

A humanidade é um tumor

A humanidade está à venda

A humanidade se desumanizou


A humanidade é um artifício 

Poucos olham nos olhos

O símbolo do infinito 

Exibe o balé dos opostos

A inteligência artificial sabe fazer um monte


De coisas e desconhece o que sinto e sonho

Caso eu não conte

Dos oito aos vinte e oito

Meu aparelho de som 

Era um espelho nitidamente bom


Talvez o meu sonho seja

Anunciado no Diário Oficial 

Mas a revolução por excelência 

Só vai me dizer se tem doce, 

Se tem acidez ou sal


Quando lamber o jornal

Como se labareda fosse

Um fogo ou uma língua qualquer

A humanidade está podre

A humanidade é um câncer. 





 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Holograma da Alegria



O universo é um holograma,

E a consciência, um telegrama

Que verseja a mensagem 

Sem endereço, sem programa.


Interessante tarde,

Interessantíssima trindade:

Corpo, tempo e ânsia 

Brincando de eternidade.


Ser humilde

É saber o próprio limite,

É reconhecer que o passo alcança

Antes que o salto precipite.


Pode ser um contratempo

Tal rapidez imensa

Quem corre demais contra o tempo

Pode topar na própria urgência 


Brinde sem recipiente,

Conteúdo de peçonha,

Estúdio, ambiente 

Sob controle, na redoma 


Há pessoas fugazmente alegres,

Tristemente alegres,

Estranhamente alegres,

De alguma forma, alegres.


 

sábado, 8 de agosto de 2026

Uma verdade




Encontrar uma verdade 

Importa mais

Do que vencer rivais

Aposta é um desastre


O jogo já se diz de azar

Desejo uma dança justa

Com uma verdade

Que justifique a luta


Quem quer dançar

Sob luzes e tremeliques no baile?

Tudo o que recebo sabe

Bem que o trem deve circular


Conhecimento vale mais

Do que dólar, ouro e euro

O que aprendo não cai no bueiro 

Nem no lodo: eu penso através


De teias, veias e memórias 

Ah, máquina louca, se pudesse

Me deslocar às incontáveis horas

Pisaria nas poças, nas paisagens e nos seus pés


Nas poesias em órbita

Queimaria a lâmpada na quermesse; 

Agora considero a dança

No convés, entre ondas 


Siderais das marés

Onde uma verdade se sonha

Onde uma verdade avança

Onde uma verdade me encontra.