Olhar um ponto fixo
Sustém o corpo em pé:
Assim no fundo da treva
Como no fundo do fel
O diabo, arquiteto aplicado,
Ergueu prédios de vidro e delírio
— assinou contratos, startups,
No Vale do Silício.
É preciso ser mais esperto
Que o próprio espelho digital,
Mais sagaz que o algoritmo
Da inteligência artificial.
Perto de um paraíso urgente,
Sangue com selo celestial,
Nossa árvore genealógica
É história editada, seletiva, oral.
No silêncio secreto dos genes,
Herdamos afinidades e aversões:
Rechaço, rebeldia,
Uma calma escolhida a dedo,
Serenidade em prestações.
Assim no fundo da terra
Como no fundo do céu,
O diabo misturou os séculos,
Confundiu credos, vendeu o véu.
Inteligência artificial,
Novo Oráculo de Delfos.
Preguiça cerebral em alta,
Pensar virou esforço tosco.
O diabo mora ali faz tempo,
No Vale reluzente e liso
Ninguém mais decora datas,
Ninguém liga por improviso.
Perderam-se números, nomes,
Aniversários, memórias e a paz.
No Vale dorme a raposa —
Covarde, cínica, capaz.
Atenção em estilhaços,
Informação rala, mesquinha.
Pensar virou terceirizado:
Estupidez humana em linha.
É preciso ser mais humano
E menos virtual, afinal,
Mais inteligente que o conforto
Da inteligência artificial.
As redes reprogramam
Corações, hábitos, razões.
Bem-vindos à máquina do caos,
Curtam, compartilhem, amém.
Uma borboleta cruzou meu olhar
No engarrafamento banal.
Talvez gostasse do meu perfume,
Do meu gosto de nuvem,
Peixe aéreo, sal.
No liquidificador do tempo:
Poeira, tapume e verso.
Liquefiz xepas de feira,
Poemas velhos, o universo
É estranho relê-los agora,
Após tantos invernos,
Entre filtros, feeds,
E diversos algoritmos.
A maturidade — santo remédio —
Não cura, mas dá distância.
Ensina que nem todo inferno
Arde: alguns oferecem Wi-Fi e vitrines,
Num shopping do Vale do Silício.
Olhar um triângulo por dentro
Equilibra tanto quanto um livro
O inferno mais controverso
Tem praça de alimentação
E estacionamento exclusivo.