Névoa no caminho,
coração guia em silêncio —
tudo nasce em paz.
Compilação randomicamente ordenada dos versos meus ou de Tchellonious ou de Tchello Melo ou de Marciano Macieira ou de algum lugar.
Se os pensamentos não viram manuscritos
As memórias perdem os próprios ritos
E se esquecem da história de Jesus Cristo
Dos perigos das apostas do imprevisto
Dos apóstolos perdidos no bazar
Dos jogos de azar queimando no bar
Dos focos de arte, ofício e artifício
Virou bóia o que um dia foi míssil
Não é brincadeira do copo
Eu retorno mas já estive morto
Sem me entornar no assoalho
Atravesso o palco sem atalhos
Estou de volta — mas não como antes
O teatro mudou meu semblante
Agora atuo de outra maneira
Mais coração, menos ribanceira
Sou altruísta sem virar otário
Sobrevivo ao mundo arbitrário
Preciso transmitir ondas largas
Transtornar o silêncio com palavras
Preciso transmutar o pensamento
Antes que o vento leve o momento
Passar pra tinta azul ou vermelha
Preta, versejo para que me veja
Porque a cor da caneta é minúcia
Quando a alma escreve lúcida
Quando eu consigo tocar ideias
Como nuvens suspensas e etéreas
Flutuando num céu impune
Onde o verbo cria e reúne
Onde o caos mental desacelera
Quando a escrita acaba com a espera
Se eu não manuscrever na hora
Meus pensamentos de agora
As memórias se perdem no fundo do mar
Antes mesmo de pensar em pescar
Escrever com a mão é tão poético
Quase um ritual magnético
As lembranças se recortam devagar
Deixam o pandemônio quieto
Reconheço a praticidade vulgar
Das notas digitais do dia
Do bloco aceso no celular
Pronto pra salvar epifanias
Mas recordações não seriam lembranças
Sem o peso humano das mudanças
A disciplina espiritual doma o fogo
Cérebro é pulmão, quer fôlego
A caneta é pincel e câmera
É baqueta que conduz a atmosfera
É batuta que rege o escarcéu
Organizando o ruído cruel
É instrumento, ponte e conduta
Pra ouvir o que o mundo não escuta
Metamorfose da ausência em sinal
E dar melodia ao caos mental
Se os pensamentos não virem os manuscritos
As memórias emudecerão os próprios gritos
Vão se esquecer da história, de Jesus Cristo,
Dos amigos das respostas do espírito.
Estou em paz, estou em mim
Ancorado com as pernas
Perto do porto do sim
É tempo de observar
Palavras, quando certas,
Conseguem alterar
A jaula tem janela
As grades se desfazem no ar
Recupero meu poder
Sem destruir ninguém
Rompo — e soube entender
Reinvento quem sou: eu sou quem?
Subo, sem perder o solo
Sem me esquecer da cuca
Às vezes perco o pôr-do-sol
Minha imperfeição cura
E descubro quem sou
Quando não posso voltar
Nada, nada, nada é calmo
A vida é como o mar
Tudo é necessário
O que não quebra revela
A verdade invade feito rádio
E amar errado apaga a vela
A sensibilidade guia
Sem ela, nada é seguro
O ego obsequia
O falso cai feito muro
Como sol no fim do dia
Tombo e me reestruturo
Para raiar até nas manhãs frias
Sentir com verdade salva
Evitar a dor pesa mais
O não dito fica na jaula
Estou em mim, estou em paz
O desejo muda o caminho
O infinito é breve
Paro de ser meu inimigo
O automático já não serve
O destino antigo acaba
E não é casualidade:
Quando é página virada
É porque não era mais verdade
Estou em paz, estou bem assim
Amarrado com as ideias
No mar derramado de mim
Batendo braços e pernas
Certo do porto do sim
No corpo, na caravela
Estou em paz, estou aqui.
O velho equilíbrio racha, imperceptível,
Como vidro cansado de sustentar o mesmo peso
O corpo se insurge em latejos
O instinto recusa o pacto do comedimento
Já não se pede controle, mas um tipo
Mais incomum de astúcia
Há desejos que não mais escutam
Às antigas desculpas
O que antes preenchia
Agora apenas se aproxima
Resta ternura, ainda há a sessão da tarde
Mas a ilusão se despede muda
Como quem apaga a luz sem alarde
Mesmo em meio aos rompimentos
Algo em você não demole
Existe um novo centro
Por enquanto, sem nome, porém forte
Até onde ir sem aniquilamento?
Até onde ceder sem desaparecimento?
Nem toda libertação vocifera
Algumas amadurecem quietas
O afeto perde o disfarce de evasão
E aprende a ser apuração
E a mente, encurralada pela própria verdade,
Olha de frente o que sempre ficava na periferia
Já não há mais possibilidade
De dormir dentro da própria vida
Quando a energia desperta,
A alma nega o silêncio imposto há eras
Não é arrebatamento
É densidade,
É responsabilidade,
É fechamento
Você já viveu isso noutra vivência
E ter o conhecimento
Disso é não precisar da reincidência
Nada aqui castiga
Tudo conclui um dia
Crescer também é um gesto de cuidado
Não negar o terremoto
Alegria real, sem pose para fotos,
Ou aplauso emprestado?
O passado já não é o dono
No máximo, dá conselhos
Não é abandono
É uma espécie de adeus cavalheiresco
Não amar menos
Amar com requinte pleno
O destino falou baixo
Em dois mil e vinte e quatro
Quem deu ouvidos
Não errou o próprio caminho
Há algo sentido tão fundo
Que não volta a caber no repúdio
Por fora, quase nada mudou
Por dentro, rearranjou-se tudo
Nem todo final precisa de espetáculo
Para ser irrevogável
O que se perde ao continuar cedendo direito?
Quantos vínculos invisíveis já são desfeitos?
Não é moral, é energético
Enquanto algo tem seu término
Outra ordem nasce
Um caminho de autonomia se desenha, discreto,
Contudo, é inevitável, eu sei que sabe
Você não deve mais nada
Você já não cabe
Na imagem que projetava
A dor agora tem delineamento
Deixa de ser frêmito
E se torna entendimento
Dói, mas abre
A ferida já não quer teoria,
Quer virar sabedoria em carne
Nem todo prazer compensa o preço
Nem toda permanência é apego
Essa vida ainda é sua
Ou apenas repeteco?
Agora, a existência pede postura,
Chega de lero-lero
Nada floresce por completo, por ora,
E o que finda aqui descarta regresso
Quando o poder às suas mãos retorna
Acordos antigos perdem serventia
Não é queda, é a remoção das fantasias
Sobre quem você pensava ser
O futuro não está translúcido
Mas o passado já não serve de refúgio
Antes de mudar de vida,
A vida muda, tranquila, dentro de você.
Nem toda verdade
Precisa nascer na fúria
Mas nenhuma pode mais ficar muda
Há verdades que pedem silêncio
Uma lacuna dentro do peito
Antes do desfile na rua
Num Sete de Setembro
Antes de renascer
A alma se desgruda
De quem fingia ser
Nenhuma certeza fica muda
E então a pergunta:
Você quer ovação na coluna
Ou a verdade nua?
Não cabem as duas coisas
A porta aparece sempre
Entrar ou não é escolha ainda
Mas o destino insta
O desejo já não pesa:
Vira força criativa
Dizer o necessário, sem aplauso,
É coragem que não grita
Mas muda tudo
O desconforto não falha:
Empurra futuros
A sombra fala
A tonalidade é sua
Expressar a verdade
Ou provar que não erra nunca?
A diferença muda o trajeto
Você não se rasga
Ao olhar para dentro de si
Você se costura
A vergonha enfraquece
A dor ganha nome
Quando há verdade,
A vida responde
E pede que abandone o controle.
Pessoas mostram e seguem
Com o tempo, a verdade emudece
Ela basta
Isso não é retrocesso
É casulo
Antes de agir no mundo
Aceite-se sem máscara
E então, a porta deixa de ser escolha:
Você já é quem perpassa.
I
Engenheiro do haikai,
a identidade não se extravia —
nem parte.
Só muda de pele, de película
como cobra que atravessa o vale da noite
sem perder o brilho da escama.
II
Religião humana:
voltaram as cores,
vibrantes e mansas,
aos meus sonhos indolores
de uma paz sem cicatriz,
de um repouso para mim.
III
Paranoias do processo.
O veneno parece ameno,
fino como fio de navalha,
firme e festeiro —
bebe-se sorrindo a taça
como um brinde
à própria vertigem.
IV
A tela finge ser espelho.
O muro, o relógio,
as máquinas domésticas do medo
falarão em alto e bom som
farão vermelho,
profetizando em neon
que o futuro é analógico.
V
Que haja a saída
à beira das abóbadas do céu.
Viagem feroz da existência,
asas rasgando a atmosfera
como quem acha sua poltrona
sem passagem de volta.
Autorizado o embarque.
VI
Fricção interna:
agir
ou fugir da caserna.
O medo da instabilidade
ergue seus dentes elétricos.
A tela —
peçonha moderna —
hipnotiza todas as idades.
VII
O futuro é analógico.
Aniquilam-se as saudades
com dedos magnéticos,
executando em silêncio histérico
o plano diabólico
de substituir memórias
por superfícies luminosas.
VIII
Cadáveres do cemitério
de sabonetes Phebo
ainda exalam perfume e lembranças.
Cheiro histórico,
limpo e melancólico,
como nuvens de sonhos intactos
e coloridos numa gaveta de infância.
IX
O elo é velho
feito sobrenome:
Moreira Melo.
Tchello, telúrico, Marcello —
nomes que carregam barro,
sangue, versos e origem.
Únicos
como toda herança invisível.
X
E eu me recordo
como se fosse amanhã:
eu e minha irmã,
no quarto do Fonseca,
antes de existir a internet
como uma religião inteira.
Mil novecentos e oitenta e sete.
A televisão respirava baixo.
Assistíamos à novela das oito
"O Outro",
com Francisco Cuoco
duplicando destinos na tela,
ao passo que o mundo, lá fora,
ainda era tátil,
paulatino
e profundamente afável.
Cada dia nasce noutro tom,
Um acorde novo pede escuta.
Sou curiosidade, cor de som
E a cura me conduz como batuta
Não é a agulha que me regula
É um pulso mais profundo
Uma bússola que aponta à bula
Do remédio do real mundo
A data de nascimento
Certificada no relógio quebrado
Junho, setembro ou novembro
Qualquer hora é aniversário
Sobretudo quando lembro
Que sou meu pior adversário
Não procuro mais caminho
Nem troco de fase
Eu me torno o próprio destino,
E me componho do topo à base
A verdade não tem conveniência
A realidade é viva — e quer vicejar
Viver não é só sobrevivência
É ter coragem de samurai
Sem provas nem vendas
Sem desejo vexado
A intuição é autêntica
É um cavalo indomável
A técnica já é memória
No corpo que aprendeu;
A vida pede fé agora
No salto para o apogeu
Não é mudança de recinto —
É um ciclo que se encerra:
Carma antigo de domínio
Como dominó cai por terra
Visto uma pele com mais poros
Instinto como direção;
Troco muros de protocolos
Por coerência no coração
O ego solta as rédeas
Já não dirige meu curso
É a alma quem me redige
Vereda não mais procuro
Quando a ilusão desmorona
Uma palavra se revela:
Ainda crua, é daquele idioma
Que vira ponte, lua, estrela
O desgaste não é queda
É sinal de conclusão
Toda forma cadavérica
Cede espaço à expansão
A antiga imagem se extingue
Já não veste o que eu sou;
E o que hoje não fica livre
Amanhã pesa e cobra pelo show
Não abandono a técnica
Ela aprende a servir
O ego larga as rédeas
Pesco o que rasga aqui
A virada é um zumbido:
Admito que nada rejo
O saber que abre caminho
É o inaudito desejo
Não é fuga nem inércia,
Nem mudez por temor
É agir com a alma alerta
Puro néctar do que sou
O passado me observa
Como raiz sob o chão
Minha estrutura se eleva
Na bravura da expansão
E o destino, em sua escuta,
Responde ao mais sutil gesto
O sol anda ciente da noite curta
A alma me escreve o trajeto
Quando sou quem me atravessa
Vida sintoniza utopia
Ação cura ferida velha
Alienação não cicatriza
O chamado é movimento
Com ternura e precisão
Sem calar o que sou por dentro
Nem trair meu coração
A sombra ganha contorno
Deixa de ser jaula
Com grades de ouro
No ritmo, visto a minha cara
Na luta armada da poesia
Sem ferir, sem desistir —
Com a farda de artista,
Pescando o que nada aqui.
Eu me manifesto
Nem preciso falar alto
Que tive acesso
Aos lados, aos laudos
Agora sei como se nomeiam
As dolorosas estações
Alheias, as aves
Passeiam por entre os espigões
De solidão suave
Minha cabeça é um rádio
Um bolchevique propaga
Sua revolução
Uma criatura faz
Uma leitura em sua aura lilás
Crianças brincam no pátio
Um tumulto num mercado
Um estudante de química
Conduz um experimento
Um vento forte limpa
As nuvens do firmamento
Um jogo do que for
Ocorre a qualquer momento
Um bosque de árvores em flor
Crianças jogam futebol
Um grupo de jovens
Sentados em instrução espiritual
Um grupo de imóveis
Centrados em especulação moral
Crianças se jogam
Um navio se ancora
Em porto seguro
Um poderoso estadista invoca
O auxílio de oráculos
Para guiar suas escolhas
Uma pessoa vestida
Em pele de raposa
Um jovem aprende a se expressar
Em sua língua nativa
Brilhantes vitrais
Numa grande basílica
Um entusiasta ativista político em marcha
Um grupo de pessoas se domicilia
Numa ilha habitada por pássaros
Cupidos nadam num lago
Eu me manifesto
E nunca mais me calo
Eu estou impresso
Pelos lados e laudos
Eu me manifesto —
Nem ergo a voz, nem faço alarde
O som me atravessa baixo
Como corrente que arde
Tive acesso aos lados, aos laudos,
Aos nomes que doem nas estações
Sei agora como se chamam
Essas íntimas dissoluções
Aves riscam o céu de chumbo
Entre espigões de concreto,
E há um despertar tão profundo
Que chega a ser uma canção de sucesso
Minha cabeça é um rádio aceso,
Um mundo em sobreposição:
Um bolchevique anuncia em chamas
Sua eterna revolução
Uma criatura lê a aura do drama
Crianças brincam num quintal,
Um mercado em tumulto vibra,
Um caos vivo, essencial
Um estudante de química
Ensaia o invisível em reação
Enquanto um vento varre a névoa
Do vasto céu em expansão
Tudo acontece — jogos, metas —
A qualquer fôlego, a qualquer momento;
Bosques florescem em silêncio
Meninos chutam o vento
Jovens se reúnem, atentos,
Em busca de um sonho espiritual;
Outros erguem muros sonolentos
De um cimento que no fundo é cal
Crianças se lançam ao riso,
Um navio encontra o seu lugar
Em porto seguro, estabelecido,
Como um coração a repousar
Um estadista, grave, consulta
Oráculos na escuridão
Tentando ler no sutil
Um rumo para a decisão
Um ente veste o vazio
Em pele de raposa e mistério
Um jovem aprende sua língua
Como quem funda um império
Vitrais brilham numa igreja,
Luz fragmentada em oração
Um ativista passeia
Pela rua em combustão
Há uma ilha viva de pássaros,
Gente que aprende a coexistir;
E cupidos nadam num lago,
Como se amor fosse um elixir
Eu me manifesto —
E agora não me calo mais:
Estou impresso nos lados da moeda
Nos laudos, nos sinais
Brilhantes vitrais da capela.
Maldita consciência,
Flâmula acesa,
Bendita ignorância,
Véu que evidencia
Leveza séria, tão densa
Que o peito dilacera
Levito na dança da chama
Cera da vela da vida
Papéis de bala,
Rastros de infância
Manchas no fundo da mala
Das roupas do dia
Nos bolsos puídos,
Memórias na lâmina
Sussurram sigilos
O que o tempo diria?
Maldade ignota,
Sombras em festa
Bondade é afronta
Lembranças do enigma
O passado se conta em anedotas
Escorre pelas frestas,
Por mais que se esconda
A mosca sobrevoa maligna
Papéis de bobo
Astros da infâmia
Girando no globo
Da morte da notícia
Diante de olhos atentos
Memórias na lâmpada
Futuros testamentos
O que o tempo diria?
Não confio
Cem por cento
No que penso
Parece conflito
Há um suspiro
Antes do modelo
Um sentir primeiro
Parece suplício
Dispenso o peso
Do controle excessivo
Essas rédeas curtas
Que apertam o infinito
Confio, sim,
Na intuição que sussurra
Num ancião idioma
Que gesticula por mim
Em prol da dissolução
Da autocobrança que lesiona
Em prol da dissolução
Da rigidez que petrifica
Em prol da dissolução
Do medo da culpa
Feridas se ativam
Não como punição
Mas como cura
Em prol da dissolução
Dispenso os dois mil quilos
Do domínio impossível
Essas pedras invejosas
Que vedam o céu da tarde
E a escolha se mostra:
Verdade selvagem
Ou segurança conhecida
E o número da poltrona da nave?
Sigo a rebeldia da sina
Recuso heranças de acessos
Frutos de responsabilidades
Que nunca foram minhas
Assisto à morte do ego velho
Morte silente, morte precisa
Enquanto a mente de outro século
É desfeita na poeira dos meses e dias
Há uma saída do torpor:
Lenta, viva, inevitável
E, entre escombros férteis, estou
No clarão do breu
No começo ou no meio
Da construção de um novo eu
Agora sei que cresço
Quando solto o controle
Agora sei que cresço
Quando abraço o que não sei hoje
Agora sei que cresço
Quando ajo com coragem
E deixo minha verdade
Respirar no universo
Ao compartilhar, deixo
De ser por completo
Quem precisava ser
Amado para enfim me converter
Em quem sempre fui destinado a ser
Para dissolver o medo do erro
Não confio cem por cento
Nos meus pensamentos
Mas na voz em silêncio.
Colonizador interestelar
Atravessa o vácuo devagar,
Vai à Lua coletar maravilhas,
Sóis artificiais
E minérios que brilham
Como segredos digitais
Há gestos mínimos na Terra:
Vedar o açucareiro,
Proteger a doçura do mundo,
Não dar língua ao formigueiro
Porque até o pequeno descuido
Desperta enxames no escuro
As memórias analógicas
Não se perdem no ar,
Mudam de forma, se alojam
Aprendem a se disfarçar
Como ilusões de óptica
Como peixes no fundo do mar
Pensei que esquecera
A centelha que sobrevive
Mas, ao escrevê-la,
Vi que não é só superfície
O sentido, uma labareda
Lambendo a vela,
Revelando o filme
Minha presença nesta dimensão
Não grita: é um sinal,
Um anúncio em construção,
Um eco ainda inicial
Estou aqui para dizer algo
No mais íntimo afago
Aprender é um ritmo interno:
Agir com consciência,
Sem impulso histérico
Em busca de urgência.
É saber o passo além da prece
Entre avanço e permanência
O pensamento floresce
Quando alguém o escuta,
E a voz - quando acolhida -
Vira ferramenta absoluta
Dela nasce sustento,
Dela a vida se recruta
Retorno ao passado em espiral
Devaneios e perguntas
Num diálogo essencial
A cura vem antiga
Num sopro ancestral
E então crio as cantigas
Não por fuga
Mas por pertencimento
A criatividade me abriga,
Faz do caos um movimento,
E do sentir, um lugar
Onde enfim me reconheço
As memórias moram no lar
Como nuvens num aguaceiro
Numa manhã solar
Não sou mais o mesmo
Antes da palavra, sinais.
Torra o suado dinheirinho
Num litro de gim
Mas dispensa um livro
Que nem é de latim
A farmácia nunca fecha
Remédio se transforma em veneno
Drogaria não mofa de eterna
Até vinte nove de novembro
De dois mil e vinte e quatro
Eu estava mal, triste e bem longe
Acordava cansado
E adormecia insone
Esquecia que o sentido
Estava escondido me lendo
No fundo sabia onde
Perambulava o bom senso
Nas barbas do horizonte
Gastando o salário pequeno
Com noitadas sem fim
Nenhum níquel
Pelo livro escrito por mim
A dor se transmuta em cura
E a intuição, em jardim
Para que se cubra
De flores sem floreios
Não adquire uma obra
Que nem é de latim
Se o idioma for vodka
Seca todo o dindim
A biblioteca não fica aberta
O dia inteiro
Porém a gente tropeça
Pelos nevoeiros
Das lojas e pelejas
De coisas ilógicas, supérfluas.
Um sonho oracular
Um desejo particular
Poesia, qualquer dança
Algum par que me leve
Uma surpresa familiar
Quem sou eu se me descrevem?
Uma magia, uma lembrança
Quem imagino ser um dia serve
Emoções não são leves
São portais de mudança
Eu não evoluo sozinho
Mas através de vínculos
A minha dor vira cura
Quando me comunico
Uma precisão, uma loucura
Que precisa de adaptação
Que sobrevivam as emoções
Queda do pedestal,
Quebra de ilusões
Alinhamento com o destino real
Quem sou eu quando me olho?
Quem eu suponho ser basta?
Entre as lavas me desloco
Para onde não estava
Engano o relógio
Invento palavras
E também este negócio
Venho como se estivesse lá
É disso que eu gosto
Meu lar, qualquer lugar
Descolo entre as lavas
Um sonho oracular.
Eu vejo propagandas
como quem anda de volta,
passos rumo a outra rota
em ruas de fita solta —
vinhetas de velhas bandas
soprando ecos na memória.
Um vídeo-game de fases raras,
vidas que já foram embora,
níveis que a infância guardava
numa tela que o tempo devora.
E a ignorância, tão clara,
hoje se exibe — e se adora.
Mas a vida ainda entoa
um refrão manso e profundo,
sobretudo após o mergulho
no escuro íntimo do mundo;
nas águas turvas e boas
onde me afundo em refúgio.
E então, num gesto interior,
acendo um antigo interruptor —
luz breve, mas necessária,
rasgando a sombra precária
no silêncio da caverna.
Ali, com mãos mais eternas,
escrevo com letras dispersas
da sopa ardente de amor;
palavras líquidas, imersas,
cozidas no mesmo calor.
E ao sair, com o peito aceso,
entre o que fui e o que sou,
vejo, num sopro suspenso,
comerciais de antigamente —
como se o tempo, indefeso,
ainda cantasse na gente.
Você é o que ingere
Você é uma senha
Está sob a sua pele
Na sua película
Você reflete o que come
Você é o que repele
Não é apenas um nome
Que nos significa
Você é uma senda
O vício só é sadio
No início, tá tranquilo
Tá favorável o meu ovo
A bebida é a soma
Do admirável mundo novo
É a debandada no sumiço
Você é o que toma
Você é o que olha
Quando nada se vê
Você é o que canta
Velhos sucessos da MPB
Você é quem manda
Pra dentro e pra fora
Você é quem conta a história
Você é o que emana
Você é quem abre
Quando as portas se fecham
Você é quem sabe
Sobre choques e queixas
A bebida é uma peçonha
A pessoa não é um copo
Mas um corpo que sonha
Você é o escape, seu escopo.
Cansaço da procura,
febre de dopamina barata;
no pulso, a cura sussurra
ação — não mais bravata.
Não se pode rolar o dedo no céu
como quem desliza a vida
num carrossel de pixels,
numa tela acesa e fingida.
Quando vivi na gruta escura,
julguei perda o silêncio e o tempo;
mas era a raiz da luta,
lavra funda no pensamento.
Um barômetro íntimo anuncia
o que não se dá a toda hora:
não é o prejuízo, nem o juízo final —
é só a chuva antes da aurora.
Os frágeis biscoitos de água e sal,
úmidos de ar e memória,
quebram-se mais que outrora;
o barômetro insiste: vigia a história.
Há dias fáceis — quase leves —,
em que o vento avisa e acolhe;
noutros, cala-se o breve
e a vida apenas nasce e colhe
Está no ar, à vista,
na pista quente da praça,
na página ainda não escrita
que o tempo amassa e enlaça.
Já fui garoto inquieto,
caçador de brilho imediato,
correndo atrás do afeto
da dopamina no buraco
Hoje minha alma tem couro,
cicatriz que não se retrata;
palavra é lâmina e ouro,
silêncio é chão que me ata.
E quando a cidade se aquieta,
entre passos e fumaça,
a poesia — secreta —
adormece e respira na praça.
Preso entre as três dimensões flácidas
Na geometria rasa da filosofia superficial,
Mergulho — sem máscara —
Nas profundezas da ignorância
Na fronteira, sou o próximo fiscal
Luzes vermelhas
De viaturas e ambulâncias
Costuram a noite aparentemente perene
E iluminam de sirene
Tudo além da minha varanda
Dali intuo: em breve,
O pensamento esverdeja
Brotam musgos na memória,
Folhas no que passou pela cabeça,
Raízes no que ardeu na pele
Talvez um dia, do nada,
Para a surpresa que se demora,
A dor encadernada
Vire best-seller ou um filme
Convite não é algo que se intime
Negar o eclipse
É fechar a porta entreaberta
É preferir as coisas difíceis
Às mãos dadas da manhã em festa
Que, discreta, já aconteceu
As catedrais eternas,
- são apenas torres no céu -
Casernas e cavernas
Desmancham-se podres no ar:
Papel, papelão, isopor
Cenografia peculiar
E eu, que me declaro poeta,
Sei: o corpo é instituição e intelecto
O sentido só faz sentido no amor
Com a alma na coordenação do gesto
Não entrei no elevador
Desci as escadas,
Entendi num sonho o trajeto
Pronto para onde for
Levo comigo a casa
Dobrada no peito
Nos ombros ou na fachada
Estará aqui ao meu lado
No elevador eu não entrei
Permeavelmente confinado
Entre o X, o Ípsilon e o Zê,
Meu nome — meu chassi —
Estrutura do invisível
Sólido no que sinto,
Esvanecente no que sou e serei
Levo a casa comigo
Entre a dimensão tripla
E o que ainda não sei
Faço da tribo coração
Um convite não se intima.
A criatividade nasce
quando o silêncio respira
e se dobra em perguntas macias —
dúcteis como fios de ouro
puxados do escuro.
Respondo aos poucos,
como quem tateia um rosto na neblina.
Mas diga:
quer que ainda pergunte?
Se não é verdade,
é tão bem contado
que veste o corpo da fábula
com a gravata do fato.
Não sei se cheguei tarde
ou se o instante era exato —
sei que as montanhas, um dia,
aprenderam a ser túneis
para que o medo passasse curvado.
Motos zunem feito moscas elétricas
entre carros monocromáticos,
um enxame de pressa e metal.
Palestras ocas, paletas foscas,
vozes mastigando o banal
no espetáculo engarrafado da tarde.
E enquanto o trânsito range,
pensamentos evaporam —
viram nuvens à deriva
num céu que ninguém reparte.
A queda do Ocidente
(era só manter os olhos abertos) —
mas estavam cerrados por dentro.
O cuidado do ente,
calado e doente,
posa na fachada do teatro
como cartaz antigo
prometendo um sonho
que cheira a perfume caro
e desaparece no intervalo.
A queda do dente,
presa entre a ironia e o cinismo,
entre o ramerrão e o cinema —
rimos para não ranger.
Quer que ainda me acostume
ao gosto metálico do mundo,
à piada repetida
como se fosse roteiro inédito?
Sigo sobrevoando o abismo
com asas feitas de risco.
Estendo a mão às estrelas
não para possuí-las,
mas para apagar o egoísmo
que insiste em brilhar sozinho.
Os olhos se abrem — janelas —
e deixam de ser espelhos:
passam a ser ferramentas,
úteis como pontes sobre o escuro.
Atualizo, a cada quinzena,
a senha de acesso ao espanto,
redefino os emblemas,
decifro o vão delicado
entre êxito e sucesso —
um vive de aplauso,
o outro, de sentido.
E no balcão do cotidiano
alguém pergunta, sorrindo:
— Vai comer agora
ou quer que embrulhe o infinito?
Olhar um ponto fixo
Sustém o corpo em pé:
Assim no fundo da treva
Como no fundo do fel
O diabo, arquiteto aplicado,
Ergueu prédios de vidro e delírio
— assinou contratos, startups,
No Vale do Silício.
É preciso ser mais esperto
Que o próprio espelho digital,
Mais sagaz que o algoritmo
Da inteligência artificial.
Perto de um paraíso urgente,
Sangue com selo celestial,
Nossa árvore genealógica
É história editada, seletiva, oral.
No silêncio secreto dos genes,
Herdamos afinidades e aversões:
Rechaço, rebeldia,
Uma calma escolhida a dedo,
Serenidade em prestações.
Assim no fundo da terra
Como no fundo do céu,
O diabo misturou os séculos,
Confundiu credos, vendeu o véu.
Inteligência artificial,
Novo Oráculo de Delfos.
Preguiça cerebral em alta,
Pensar virou esforço tosco.
O diabo mora ali faz tempo,
No Vale reluzente e liso
Ninguém mais decora datas,
Ninguém liga por improviso.
Perderam-se números, nomes,
Aniversários, memórias e a paz.
No Vale dorme a raposa —
Covarde, cínica, capaz.
Atenção em estilhaços,
Informação rala, mesquinha.
Pensar virou terceirizado:
Estupidez humana em linha.
É preciso ser mais humano
E menos virtual, afinal,
Mais inteligente que o conforto
Da inteligência artificial.
As redes reprogramam
Corações, hábitos, razões.
Bem-vindos à máquina do caos,
Curtam, compartilhem, amém.
Uma borboleta cruzou meu olhar
No engarrafamento banal.
Talvez gostasse do meu perfume,
Do meu gosto de nuvem,
Peixe aéreo, sal.
No liquidificador do tempo:
Poeira, tapume e verso.
Liquefiz xepas de feira,
Poemas velhos, o universo
É estranho relê-los agora,
Após tantos invernos,
Entre filtros, feeds,
E diversos algoritmos.
A maturidade — santo remédio —
Não cura, mas dá distância.
Ensina que nem todo inferno
Arde: alguns oferecem Wi-Fi e vitrines,
Num shopping do Vale do Silício.
Olhar um triângulo por dentro
Equilibra tanto quanto um livro
O inferno mais controverso
Tem praça de alimentação
E estacionamento exclusivo.
A normose vem maquiada
Inflada de normalidade
É a caverna pós-moderna
Antiquíssima novidade
Você não precisa de merda
Nenhuma para existir entre
A personagem de família
E o explorador de espuma
Radical na superfície
O pensamento estampa a camisa
O ajuste só aparece depois
Quando o excesso escorre
E revela o corte exato
Que a casa vire laboratório
De experiências santas e ousadas
Enquanto a mente ensaia seu repertório
Se morre um projeto
Se cai o teto da pousada
A mente calcula os escombros
Absorve a perda
Redesenha a rota dos sonhos
Sem guerrear contra o tempo
Usa a persistência
Como andaime
Para erguer estruturas futuras
Mas aprenda:
A mente veloz demais
Pode atropelar a intuição
A comunicação — dom antigo —
Dá voz ao que é sutil
Sem transformá-lo em ruído
Para não confundir silêncio
Com improdutividade
Nem rigor com verdade
Confesso: fui ingênuo
Quando nadava na tragédia densa
No oceano do veneno
E achava uma boa ideia
Buscar chaves mágicas
Em fechaduras erradas
A chave dos enigmas
Sempre esteve no bolso
No claviculário do osso
Axiomas e atitudes
Sintomas bem adaptados
Tratados como virtude
Há quem tema sair da caverna
E repita a mesma novela
Funcional, cansada, correta
A saída da esquete caquética
Doeu nos olhos
Todavia limpou a lente
Não sou mais planta atônita
Há luz — e ela não conforta
A caverna é cenário
Faz-de-conta
Com mobília gótica
E poeira bem distribuída
Nada ali brilha
Mesmo quando a vida insiste
Do lado de fora
Da personagem de família
Ao explorador de espuma
Radical na superfície
Há quem prefira o velho filme
Quem vive no automático
Não espera espelhos
Nem cultiva pensamento crítico
O exemplo se oferece
Nunca se impõe
A caverna arma seu circo
Luzes falsas, cruzes,
Risos em looping
Nem com cupom
A plateia aceita sair
Jura amar o espetáculo
Até que a casa vira santuário
E não aquela caverna de neon
Entre Las Vegas e São Paulo.
O novo não se guarda
Apenas no dia posterior
Cada um aguarda até de madrugada
A sua dose diária de amor
Para viver hoje
O novo não mora só
Na aurora mesmo sem a luz do sol
O novo veio pois já se trouxe
Pelo anseio doce
Aparentemente pusilânime
Na firmeza silente da fé
Tudo se move na sua hora
Embora pareça tarde
As Pirâmides de Gizé
São o marco zero da humanidade
Que virou um sério banzé
Cara, você não quer mais pertencer:
Quer fazer sentido
Camarada, ser você agora é
O seu caminho
Mesmo que frustre mofadas expectativas
Não precisa mais polir o lustre
Tem que confiar na intuição amiga
Não é um tempo de agradar o clube
Mas de ajustar a sua trajetória
Ou você se posiciona na zona da nuvem
Ou lhe empurram para fora
Da região da alucinação
Sem rigidez na estrutura
Disciplina sem autoanulação
Responsabilidade sem culpa
Você não quer mais caber na foto
Perante o desejo do êxito
Não vai aparecer o novo
Somente quando abrir os olhos
Com zelo onde estiver
A peça nos seus trâmites
Embora soe um papel ilusório
Consoante a constelação de Órion
As Pirâmides de Gizé
Marco zero da humanidade
Na construção, trabalhadores livres
Eis o único milagre
Do mundo ancião que sobrevive
As quatro faces laterais,
Da Grande Pirâmide de Gizé
Estão conforme os pontos cardeais
Conectando Rá, o deus do sol, aos faraós
Blocos de até dez toneladas
Deslocados por trenós
Sobre areia molhada
Para facilitar o deslizamento
Usando artesãos, polés
E engenheiros no erguimento
Das Pirâmides de Gizé
Velha Maravilha ainda de pé
O novo não irrompe
Apenas no dia seguinte
Que logo será ontem
A dose diária de requinte.
Nem sempre está certo
Um fundo assertivo
O futuro é um furto
Um fluxo furtivo
Inconscientemente penso
Nem sempre estou perto
Na linha de frente, pêndulo
O inconstante é pétreo
Notícias do interior
Do instante que não veio
Da noite anterior
Do dia primeiro
A saída da zona da culpa
Para o lugar da responsabilidade
Não funciona logo como atravessar a rua
É para se adaptar a uma nova cidade
O atraso exato da descoberta
Do padrão inato e repetitivo
Cuja necessidade da quebra
Deriva de tempos deveras idos
Contudo, tudo faz parte
Do jogo esculpido de vida
Da culpa à realidade
Foi uma bela saída
Notícias dos bastidores
Que duram há milênios
Bastam as dores dos leitores
Eles ainda estão lendo
Notinhas decoradas dos interiores
Apesar do dia que virá
Da noite que não está nos arredores
No entanto vai pintar
Nem sempre está perto
O perfeito perfil perdido
O sexto sentido é sutil feito susto
Um absurdo pululante e seletivo
Um alucinante crepúsculo
De berros em cores, novas internas
Internacionais arrebóis de assuntos
Na lentidão certa da voz da descoberta.
Abandono do pensamento
De como a vida deveria ser cinema
Abraço do novo tempo
Tentando se jogar na consciência
Os jornaleiros não têm mais conhecimento
Dos nomes dos logradouros
Há quem ignore o número do seu aparelho
Inegavelmente, os tempos são outros
Livramento do túmulo do passado
Palavras de raiva e arrependimento
Como pedras no sapato
Descalço na terra, no cimento
Não é mamão com açúcar
Embora saiba andar há tempos
Tropeço e tombo em algumas ruas
Tomara que fique o ensinamento
A vontade nua e a realidade crua
Vociferam rara relevância
Revelam-se várias ruas
Que se rebelaram pela distância
A boa educação só parece
Uma espécie de submissão
Os ecos do novo século estão aos pés
Não são netos da imaginação
O desperdício foi um cego investimento
E a perda, um tipo de tesouro
Os jornaleiros perderam o conhecimento
Dos nomes dos logradouros
Renúncia do habitual tormento
Na cuca, o ritual na velocidade em dobro
Com tempo eu gosto e contemplo
Agora entendo, são jogos loucos
Tanto na selva quanto na jaula
Névoas da missão em emissão
Colegas da nova era chegaram
Não são nuvens nem legos da ilusão
Não sou novinho em folha
Tampouco nasci no dia anterior
Renasci anteontem com uma força
E uma fome de paz e amor
Aniquilamento do meu papel pequeno
E dos seus conselhos tolos
Foram apelos, bilhetes, momentos
Furo pedra por leite, os tempos são outros
Largo os dias cinzentos
Sei como a vida é milagrosa e livre
Abraço do novíssimo tempo
Nos passos de quem goza e vive
A juventude vem e vai como vento
O bom senso evita o socorro
Os jornaleiros sem mais conhecimento
Dos nomes dos logradouros
Não é mamão com açúcar
Ter a noção do que se passa cá dentro
Passado na sala escura e úmida
Outrora, os segundos eram mais lentos
Ao longo da desconexão jovem
Talvez sejam néctares vindouros
De mil novecentos e setenta e nove
Feliz ânimo novo, os tempos são outros.
Quanto mais sei de mim, ando
E fico menos suscetível
À movimentação do bando
Preciso criar mais sentido
Do que mero conteúdo
Na erosão, mágoa e bad trip
Do nada, apreende-se tudo
Do transistor ao nanochip
Da intuição à inteligência
O vaso quebrou, paciência...
Devolvi a terra à planta
Lavei a varanda de lavanda
À medida que me conheço
Fico cada vez mais teso
Às futilidades da normose
Só é possível a metamorfose
Se me sentir inteiro
Eu sou aquilo que valorizo
Eu sou aquilo que protejo
Com princípios, o amor é aprendido
O afeto tem necessidade
Do merecimento da existência
Da memória à saudade
Minhas comoções são imensas
Meus sentimentos são grandes demais
Para caberem onde me sinto seguro
As emoções se autorregulam
Minha dor nasce ao tentar me afirmar
Mas também é assim que eu curo
Minhas sensações são colossais
Quando alguma coisa dói, cresce;
Quando alguma coisa cresce, dói
Da mentalização à prece
Da crista da onda ao cais de Niterói
Minhas emoções são gigantescas
Pensar é uma forma de evitar
A perdição das estribeiras
Interno oceano, outro lar
Mesma cisterna entre as beiras
Do rio manso e do revolto mar
A mente como amiga,
Não mais como fuga
Eu posso até postergar
Porém não há saída
Emoções se autorregulam
Sonhos só operam
Quando dispostos
Crises carregam
À sensatez dos novos portos
E não à ruptura externa
Nada acontece sem ser nomeado
Pensado ou interpretado
O amor se ensina com princípios
Meus sentimentos são profundos
Do desatino ao tino
Do refúgio ao futuro
Pensar é uma forma de levitar
Estreita margem, mesma cisterna
Pela maturidade no meio do mar
Contra a ansiedade eterna
A mente como sequaz,
Não mais como subterfúgio
Meus sentimentos são grandes demais
Para caberem onde me sinto seguro
Quanto menos me ignoro
Eu me torno mais forte
Meu silêncio é sonoro
Só é factível a metamorfose
Caso me sinta protegido
Meus sentimentos são imensos
O que penso, sinto
E o que sinto, penso
Eu decido com a razão
Mesmo quando acho
Que é com o coração
Se algo não tem significado
Não vai adiante, não adianta
Só há mudança com segurança
Consigo até adiar o encontro marcado
Contudo não escapo.