terça-feira, 19 de maio de 2026

Eixo quieto


Névoa no caminho,  

coração guia em silêncio —  

tudo nasce em paz. 



segunda-feira, 18 de maio de 2026

Manuscritos do caos

 


Se os pensamentos não viram manuscritos

As memórias perdem os próprios ritos

E se esquecem da história de Jesus Cristo

Dos perigos das apostas do imprevisto

Dos apóstolos perdidos no bazar


Dos jogos de azar queimando no bar

Dos focos de arte, ofício e artifício

Virou bóia o que um dia foi míssil

Não é brincadeira do copo

Eu retorno mas já estive morto


Sem me entornar no assoalho

Atravesso o palco sem atalhos 

Estou de volta — mas não como antes

O teatro mudou meu semblante

Agora atuo de outra maneira


Mais coração, menos ribanceira

Sou altruísta sem virar otário

Sobrevivo ao mundo arbitrário

Preciso transmitir ondas largas

Transtornar o silêncio com palavras


Preciso transmutar o pensamento

Antes que o vento leve o momento

Passar pra tinta azul ou vermelha

Preta, versejo para que me veja

Porque a cor da caneta é minúcia


Quando a alma escreve lúcida

Quando eu consigo tocar ideias

Como nuvens suspensas e etéreas

Flutuando num céu impune

Onde o verbo cria e reúne


Onde o caos mental desacelera

Quando a escrita acaba com a espera

Se eu não manuscrever na hora

Meus pensamentos de agora

As memórias se perdem no fundo do mar


Antes mesmo de pensar em pescar

Escrever com a mão é tão poético

Quase um ritual magnético

As lembranças se recortam devagar

Deixam o pandemônio quieto


Reconheço a praticidade vulgar 

Das notas digitais do dia

Do bloco aceso no celular

Pronto pra salvar epifanias

Mas recordações não seriam lembranças


Sem o peso humano das mudanças

A disciplina espiritual doma o fogo 

Cérebro é pulmão, quer fôlego

A caneta é pincel e câmera

É baqueta que conduz a atmosfera


É batuta que rege o escarcéu

Organizando o ruído cruel

É instrumento, ponte e conduta

Pra ouvir o que o mundo não escuta

Metamorfose da ausência em sinal


E dar melodia ao caos mental

Se os pensamentos não virem os manuscritos

As memórias emudecerão os próprios gritos 

Vão se esquecer da história, de Jesus Cristo,

Dos amigos das respostas do espírito. 





domingo, 17 de maio de 2026

O que não quebra revela

 



Estou em paz, estou em mim

Ancorado com as pernas

Perto do porto do sim

É tempo de observar

Palavras, quando certas,


Conseguem alterar

A jaula tem janela

As grades se desfazem no ar

Recupero meu poder  

Sem destruir ninguém  


Rompo — e soube entender

Reinvento quem sou: eu sou quem?

Subo, sem perder o solo

Sem me esquecer da cuca

Às vezes perco o pôr-do-sol


Minha imperfeição cura

E descubro quem sou  

Quando não posso voltar

Nada, nada, nada é calmo

A vida é como o mar


Tudo é necessário

O que não quebra revela

A verdade invade feito rádio

E amar errado apaga a vela

A sensibilidade guia


Sem ela, nada é seguro

O ego obsequia  

O falso cai feito muro

Como sol no fim do dia

Tombo e me reestruturo


Para raiar até nas manhãs frias

Sentir com verdade salva

Evitar a dor pesa mais

O não dito fica na jaula

Estou em mim, estou em paz


O desejo muda o caminho

O infinito é breve

Paro de ser meu inimigo  

O automático já não serve

O destino antigo acaba


E não é casualidade:

Quando é página virada  

É porque não era mais verdade

Estou em paz, estou bem assim

Amarrado com as ideias


No mar derramado de mim

Batendo braços e pernas

Certo do porto do sim

No corpo, na caravela

Estou em paz, estou aqui.


sábado, 16 de maio de 2026

2024 (Ou Quando O Silêncio Já Não Cabe)

 



O velho equilíbrio racha, imperceptível,  

Como vidro cansado de sustentar o mesmo peso

O corpo se insurge em latejos

O instinto recusa o pacto do comedimento

Já não se pede controle, mas um tipo

Mais incomum de astúcia


Há desejos que não mais escutam  

Às antigas desculpas

O que antes preenchia  

Agora apenas se aproxima

Resta ternura, ainda há a sessão da tarde  

Mas a ilusão se despede muda


Como quem apaga a luz sem alarde

Mesmo em meio aos rompimentos  

Algo em você não demole  

Existe um novo centro

Por enquanto, sem nome, porém forte

Até onde ir sem aniquilamento?  


Até onde ceder sem desaparecimento?

Nem toda libertação vocifera

Algumas amadurecem quietas

O afeto perde o disfarce de evasão

E aprende a ser apuração

E a mente, encurralada pela própria verdade,  


Olha de frente o que sempre ficava na periferia

Já não há mais possibilidade  

De dormir dentro da própria vida

Quando a energia desperta,  

A alma nega o silêncio imposto há eras

Não é arrebatamento


É densidade,  

É responsabilidade,  

É fechamento

Você já viveu isso noutra vivência  

E ter o conhecimento  

Disso é não precisar da reincidência


Nada aqui castiga

Tudo conclui um dia

Crescer também é um gesto de cuidado

Não negar o terremoto

Alegria real, sem pose para fotos,  

Ou aplauso emprestado?


O passado já não é o dono

No máximo, dá conselhos

Não é abandono  

É uma espécie de adeus cavalheiresco

Não amar menos

Amar com requinte pleno


O destino falou baixo

Em dois mil e vinte e quatro  

Quem deu ouvidos

Não errou o próprio caminho

Há algo sentido tão fundo  

Que não volta a caber no repúdio


Por fora, quase nada mudou

Por dentro, rearranjou-se tudo

Nem todo final precisa de espetáculo  

Para ser irrevogável

O que se perde ao continuar cedendo direito?  

Quantos vínculos invisíveis já são desfeitos?


Não é moral, é energético

Enquanto algo tem seu término  

Outra ordem nasce

Um caminho de autonomia se desenha, discreto, 

Contudo, é inevitável, eu sei que sabe

Você não deve mais nada


Você já não cabe  

Na imagem que projetava

A dor agora tem delineamento

Deixa de ser frêmito  

E se torna entendimento

Dói, mas abre


A ferida já não quer teoria,

Quer virar sabedoria em carne

Nem todo prazer compensa o preço

Nem toda permanência é apego

Essa vida ainda é sua  

Ou apenas repeteco?


Agora, a existência pede postura,  

Chega de lero-lero

Nada floresce por completo, por ora,  

E o que finda aqui descarta regresso

Quando o poder às suas mãos retorna

Acordos antigos perdem serventia


Não é queda, é a remoção das fantasias

Sobre quem você pensava ser

O futuro não está translúcido  

Mas o passado já não serve de refúgio

Antes de mudar de vida,  

A vida muda, tranquila, dentro de você.



quinta-feira, 14 de maio de 2026

Teimosa porta

 

Nem toda verdade 

Precisa nascer na fúria

Mas nenhuma pode mais ficar muda

Há verdades que pedem silêncio

Uma lacuna dentro do peito


Antes do desfile na rua

Num Sete de Setembro

Antes de renascer

A alma se desgruda

De quem fingia ser


Nenhuma certeza fica muda

E então a pergunta: 

Você quer ovação na coluna

Ou a verdade nua?

Não cabem as duas coisas


A porta aparece sempre

Entrar ou não é escolha ainda 

Mas o destino insta

O desejo já não pesa: 

Vira força criativa


Dizer o necessário, sem aplauso, 

É coragem que não grita 

Mas muda tudo

O desconforto não falha: 

Empurra futuros


A sombra fala

A tonalidade é sua

Expressar a verdade 

Ou provar que não erra nunca?

A diferença muda o trajeto


Você não se rasga

Ao olhar para dentro de si

Você se costura

A vergonha enfraquece

A dor ganha nome


Quando há verdade, 

A vida responde

E pede que abandone o controle.

Pessoas mostram e seguem

Com o tempo, a verdade emudece


Ela basta

Isso não é retrocesso 

É casulo

Antes de agir no mundo

Aceite-se sem máscara


E então, a porta deixa de ser escolha:

Você já é quem perpassa.


sexta-feira, 8 de maio de 2026

O futuro é analógico

 


I
Engenheiro do haikai,
a identidade não se extravia —
nem parte.
Só muda de pele, de película
como cobra que atravessa o vale da noite
sem perder o brilho da escama.

II
Religião humana:
voltaram as cores,
vibrantes e mansas,
aos meus sonhos indolores
de uma paz sem cicatriz,
de um repouso para mim.

III
Paranoias do processo.
O veneno parece ameno,
fino como fio de navalha,
firme e festeiro —
bebe-se sorrindo a taça
como um brinde
à própria vertigem.

IV
A tela finge ser espelho.
O muro, o relógio,
as máquinas domésticas do medo
falarão em alto e bom som
farão vermelho,
profetizando em neon
que o futuro é analógico.

V
Que haja a saída
à beira das abóbadas do céu.
Viagem feroz da existência,
asas rasgando a atmosfera
como quem acha sua poltrona
sem passagem de volta.
Autorizado o embarque.

VI
Fricção interna:
agir
ou fugir da caserna.
O medo da instabilidade
ergue seus dentes elétricos.
A tela —
peçonha moderna —
hipnotiza todas as idades.

VII
O futuro é analógico.
Aniquilam-se as saudades
com dedos magnéticos,
executando em silêncio histérico
o plano diabólico
de substituir memórias
por superfícies luminosas.

VIII
Cadáveres do cemitério
de sabonetes Phebo
ainda exalam perfume e lembranças.
Cheiro histórico,
limpo e melancólico,
como nuvens de sonhos intactos
e coloridos numa gaveta de infância.

IX
O elo é velho
feito sobrenome:
Moreira Melo.
Tchello, telúrico, Marcello —
nomes que carregam barro,
sangue, versos e origem.
Únicos
como toda herança invisível.

X
E eu me recordo
como se fosse amanhã:
eu e minha irmã,
no quarto do Fonseca,
antes de existir a internet
como uma religião inteira.
Mil novecentos e oitenta e sete.
A televisão respirava baixo.
Assistíamos à novela das oito
"O Outro",
com Francisco Cuoco
duplicando destinos na tela,
ao passo que o mundo, lá fora,
ainda era tátil,
paulatino
e profundamente afável.

sábado, 2 de maio de 2026

Luta armada com farda de artista



Cada dia nasce noutro tom,

Um acorde novo pede escuta.

Sou curiosidade, cor de som

E a cura me conduz como batuta

Não é a agulha que me regula

 

É um pulso mais profundo

Uma bússola que aponta à bula

Do remédio do real mundo

A data de nascimento

Certificada no relógio quebrado

 

Junho, setembro ou novembro

Qualquer hora é aniversário

Sobretudo quando lembro

Que sou meu pior adversário

Não procuro mais caminho

 

Nem troco de fase

Eu me torno o próprio destino,

E me componho do topo à base

A verdade não tem conveniência

A realidade é viva — e quer vicejar

 

Viver não é só sobrevivência

É ter coragem de samurai

Sem provas nem vendas

Sem desejo vexado 

A intuição é autêntica

 

É um cavalo indomável

A técnica já é memória 

No corpo que aprendeu;

A vida pede fé agora

No salto para o apogeu

 

Não é mudança de recinto —

É um ciclo que se encerra:

Carma antigo de domínio

Como dominó cai por terra

Visto uma pele com mais poros


Instinto como direção;

Troco muros de protocolos

Por coerência no coração

O ego solta as rédeas

Já não dirige meu curso

 

É a alma quem me redige

Vereda não mais procuro

Quando a ilusão desmorona

Uma palavra se revela:

Ainda crua, é daquele idioma

 

Que vira ponte, lua, estrela

O desgaste não é queda

É sinal de conclusão

Toda forma cadavérica

Cede espaço à expansão

 

A antiga imagem se extingue

Já não veste o que eu sou;

E o que hoje não fica livre

Amanhã pesa e cobra pelo show

Não abandono a técnica

 

Ela aprende a servir

O ego larga as rédeas

Pesco o que rasga aqui

A virada é um zumbido:

Admito que nada rejo 

 

O saber que abre caminho

É o inaudito desejo

Não é fuga nem inércia,

Nem mudez por temor

É agir com a alma alerta

 

Puro néctar do que sou

O passado me observa

Como raiz sob o chão

Minha estrutura se eleva

Na bravura da expansão

 

E o destino, em sua escuta,

Responde ao mais sutil gesto

O sol anda ciente da noite curta

A alma me escreve o trajeto 

Quando sou quem me atravessa

 

Vida sintoniza utopia 

Ação cura ferida velha

Alienação não cicatriza 

O chamado é movimento

Com ternura e precisão

 

Sem calar o que sou por dentro

Nem trair meu coração

A sombra ganha contorno

Deixa de ser jaula

Com grades de ouro


No ritmo, visto a minha cara

Na luta armada da poesia

Sem ferir, sem desistir —

Com a farda de artista,

Pescando o que nada aqui.


 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Rádio em revolução



Eu me manifesto

Nem preciso falar alto

Que tive acesso

Aos lados, aos laudos

Agora sei como se nomeiam


As dolorosas estações 

Alheias, as aves

Passeiam por entre os espigões 

De solidão suave

Minha cabeça é um rádio


Um bolchevique propaga

Sua revolução 

Uma criatura faz

Uma leitura em sua aura lilás 

Crianças brincam no pátio 


Um tumulto num mercado 

Um estudante de química 

Conduz um experimento

Um vento forte limpa

As nuvens do firmamento


Um jogo do que for

Ocorre a qualquer momento

Um bosque de árvores em flor

Crianças jogam futebol 

Um grupo de jovens


Sentados em instrução espiritual

Um grupo de imóveis

Centrados em especulação moral

Crianças se jogam

Um navio se ancora


Em porto seguro 

Um poderoso estadista invoca

O auxílio de oráculos

Para guiar suas escolhas 

Uma pessoa vestida


Em pele de raposa

Um jovem aprende a se expressar 

Em sua língua nativa

Brilhantes vitrais 

Numa grande basílica 


Um entusiasta ativista político em marcha

Um grupo de pessoas se domicilia

Numa ilha habitada por pássaros

Cupidos nadam num lago

Eu me manifesto


E nunca mais me calo

Eu estou impresso

Pelos lados e laudos

Eu me manifesto —

Nem ergo a voz, nem faço alarde


O som me atravessa baixo

Como corrente que arde

Tive acesso aos lados, aos laudos,

Aos nomes que doem nas estações

Sei agora como se chamam


Essas íntimas dissoluções

Aves riscam o céu de chumbo

Entre espigões de concreto,

E há um despertar tão profundo 

Que chega a ser uma canção de sucesso 


Minha cabeça é um rádio aceso,

Um mundo em sobreposição:

Um bolchevique anuncia em chamas

Sua eterna revolução

Uma criatura lê a aura do drama


Crianças brincam num quintal,

Um mercado em tumulto vibra,

Um caos vivo, essencial

Um estudante de química 

Ensaia o invisível em reação


Enquanto um vento varre a névoa

Do vasto céu em expansão

Tudo acontece — jogos, metas —

A qualquer fôlego, a qualquer momento;

Bosques florescem em silêncio


Meninos chutam o vento

Jovens se reúnem, atentos,

Em busca de um sonho espiritual;

Outros erguem muros sonolentos

De um cimento que no fundo é cal


Crianças se lançam ao riso,

Um navio encontra o seu lugar

Em porto seguro, estabelecido,

Como um coração a repousar

Um estadista, grave, consulta


Oráculos na escuridão

Tentando ler no sutil 

Um rumo para a decisão

Um ente veste o vazio

Em pele de raposa e mistério


Um jovem aprende sua língua

Como quem funda um império

Vitrais brilham numa igreja,

Luz fragmentada em oração

Um ativista passeia 


Pela rua em combustão

Há uma ilha viva de pássaros,

Gente que aprende a coexistir;

E cupidos nadam num lago,

Como se amor fosse um elixir


Eu me manifesto —

E agora não me calo mais:

Estou impresso nos lados da moeda

Nos laudos, nos sinais

Brilhantes vitrais da capela. 





 

terça-feira, 28 de abril de 2026

O que o tempo diria?

 

Maldita consciência, 

Flâmula acesa,

Bendita ignorância, 

Véu que evidencia 


Leveza séria, tão densa 

Que o peito dilacera

Levito na dança da chama

Cera da vela da vida 


Papéis de bala, 

Rastros de infância

Manchas no fundo da mala

Das roupas do dia


Nos bolsos puídos, 

Memórias na lâmina 

Sussurram sigilos 

O que o tempo diria?


Maldade ignota, 

Sombras em festa

Bondade é afronta 

Lembranças do enigma 


O passado se conta em anedotas 

Escorre pelas frestas,

Por mais que se esconda

A mosca sobrevoa maligna


Papéis de bobo

Astros da infâmia

Girando no globo 

Da morte da notícia


Diante de olhos atentos

Memórias na lâmpada

Futuros testamentos

O que o tempo diria?









quinta-feira, 16 de abril de 2026

Agora sei que cresço



Não confio

Cem por cento

No que penso

Parece conflito

Há um suspiro


Antes do modelo

Um sentir primeiro

Parece suplício 

Dispenso o peso

Do controle excessivo


Essas rédeas curtas

Que apertam o infinito

Confio, sim,

Na intuição que sussurra

Num ancião idioma


Que gesticula por mim

Em prol da dissolução 

Da autocobrança que lesiona

Em prol da dissolução

Da rigidez que petrifica


Em prol da dissolução

Do medo da culpa

Feridas se ativam

Não como punição 

Mas como cura


Em prol da dissolução

Dispenso os dois mil quilos

Do domínio impossível

Essas pedras invejosas

Que vedam o céu da tarde


E a escolha se mostra:

Verdade selvagem

Ou segurança conhecida

E o número da poltrona da nave?

Sigo a rebeldia da sina


Recuso heranças de acessos

Frutos de responsabilidades 

Que nunca foram minhas

Assisto à morte do ego velho

Morte silente, morte precisa


Enquanto a mente de outro século

É desfeita na poeira dos meses e dias

Há uma saída do torpor:

Lenta, viva, inevitável

E, entre escombros férteis, estou


No clarão do breu

No começo ou no meio

Da construção de um novo eu

Agora sei que cresço

Quando solto o controle


Agora sei que cresço

Quando abraço o que não sei hoje

Agora sei que cresço

Quando ajo com coragem

E deixo minha verdade


Respirar no universo

Ao compartilhar, deixo

De ser por completo 

Quem precisava ser 

Amado para enfim me converter


Em quem sempre fui destinado a ser

Para dissolver o medo do erro

Não confio cem por cento

Nos meus pensamentos

Mas na voz em silêncio. 



 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Memórias analógicas

 


Colonizador interestelar

Atravessa o vácuo devagar,

Vai à Lua coletar maravilhas,

Sóis artificiais

E minérios que brilham


Como segredos digitais

Há gestos mínimos na Terra:

Vedar o açucareiro,

Proteger a doçura do mundo,

Não dar língua ao formigueiro


Porque até o pequeno descuido

Desperta enxames no escuro

As memórias analógicas

Não se perdem no ar,

Mudam de forma, se alojam


Aprendem a se disfarçar

Como ilusões de óptica 

Como peixes no fundo do mar

Pensei que esquecera

A centelha que sobrevive


Mas, ao escrevê-la,

Vi que não é só superfície 

O sentido, uma labareda

Lambendo a vela,

Revelando o filme


Minha presença nesta dimensão

Não grita: é um sinal,

Um anúncio em construção,

Um eco ainda inicial

Estou aqui para dizer algo


No mais íntimo afago

Aprender é um ritmo interno:

Agir com consciência,

Sem impulso histérico

Em busca de urgência.


É saber o passo além da prece

Entre avanço e permanência

O pensamento floresce

Quando alguém o escuta,

E a voz - quando acolhida -


Vira ferramenta absoluta

Dela nasce sustento,

Dela a vida se recruta

Retorno ao passado em espiral

Devaneios e perguntas 


Num diálogo essencial

A cura vem antiga

Num sopro ancestral

E então crio as cantigas 

Não por fuga


Mas por pertencimento

A criatividade me abriga,

Faz do caos um movimento,

E do sentir, um lugar

Onde enfim me reconheço


As memórias moram no lar

Como nuvens num aguaceiro 

Numa manhã solar

Não sou mais o mesmo 

Antes da palavra, sinais.





quarta-feira, 1 de abril de 2026

Pelos Nevoeiros

 

Torra o suado dinheirinho 

Num litro de gim

Mas dispensa um livro

Que nem é de latim

A farmácia nunca fecha


Remédio se transforma em veneno 

Drogaria não mofa de eterna

Até vinte nove de novembro

De dois mil e vinte e quatro

Eu estava mal, triste e bem longe


Acordava cansado

E adormecia insone 

Esquecia que o sentido

Estava escondido me lendo

No fundo sabia onde


Perambulava o bom senso

Nas barbas do horizonte

Gastando o salário pequeno 

Com noitadas sem fim

Nenhum níquel 


Pelo livro escrito por mim

A dor se transmuta em cura

E a intuição, em jardim 

Para que se cubra

De flores sem floreios


Não adquire uma obra

Que nem é de latim

Se o idioma for vodka 

Seca todo o dindim

A biblioteca não fica aberta


O dia inteiro

Porém a gente tropeça 

Pelos nevoeiros 

Das lojas e pelejas

De coisas ilógicas, supérfluas. 













sexta-feira, 27 de março de 2026

Jorge de Figueiredo Melo


Cruz-maltino 
Mas na verdade
Adora automobilismo,
Verde, velocidade 
E Led Zeppelin

Questão de pele
Questão de sangue
Questão de dons
Tudo isso abrange
Muitas questões

Nascido no bairro do Pita,
Filho da pernambucana Elita
E do paraibano Ivo
Faz pipoca e batata frita
Para Pedroca e Miguelito

Quando eu era criança 
E morava na casa dos meus avós
No Barreto, de manhã bem cedo,
Ele fazia pra mim vitamina de banana
Com geleia de mocotó

Jorge de Figueiredo Melo
Personalidade forte
Pai de Patrícia e Marcello
Gargalha feito guitarra de rock 
Do signo de Áries

Quebra-galho e arquiteto dos lares
Ouve o repertório de Big Boy
De um tempo que nunca se foi
Que pulsa num estalo, na trajetória
De São Gonçalo a Conservatória. 

domingo, 22 de março de 2026

Um sonho oracular

 


Um sonho oracular
Um desejo particular
Poesia, qualquer dança
Algum par que me leve

Uma surpresa familiar
Quem sou eu se me descrevem?
Uma magia, uma lembrança
Quem imagino ser um dia serve

Emoções não são leves
São portais de mudança
Eu não evoluo sozinho
Mas através de vínculos

A minha dor vira cura
Quando me comunico
Uma precisão, uma loucura
Que precisa de adaptação

Que sobrevivam as emoções
Queda do pedestal,
Quebra de ilusões
Alinhamento com o destino real

Quem sou eu quando me olho?
Quem eu suponho ser basta?
Entre as lavas me desloco
Para onde não estava

Engano o relógio
Invento palavras
E também este negócio
Venho como se estivesse lá

É disso que eu gosto
Meu lar, qualquer lugar
Descolo entre as lavas
Um sonho oracular.






quinta-feira, 19 de março de 2026

Vinhetas

 

Eu vejo propagandas

como quem anda de volta,

passos rumo a outra rota 

em ruas de fita solta —

vinhetas de velhas bandas

soprando ecos na memória.


Um vídeo-game de fases raras,

vidas que já foram embora,

níveis que a infância guardava

numa tela que o tempo devora.

E a ignorância, tão clara,

hoje se exibe — e se adora.


Mas a vida ainda entoa

um refrão manso e profundo,

sobretudo após o mergulho

no escuro íntimo do mundo;

nas águas turvas e boas

onde me afundo em refúgio.


E então, num gesto interior,

acendo um antigo interruptor —

luz breve, mas necessária,

rasgando a sombra precária

no silêncio da caverna.


Ali, com mãos mais eternas,

escrevo com letras dispersas

da sopa ardente de amor;

palavras líquidas, imersas,

cozidas no mesmo calor.


E ao sair, com o peito aceso,

entre o que fui e o que sou,

vejo, num sopro suspenso,

comerciais de antigamente —

como se o tempo, indefeso,

ainda cantasse na gente.




quinta-feira, 12 de março de 2026

Você é

 

Você é o que ingere

Você é uma senha

Está sob a sua pele

Na sua película


Você reflete o que come

Você é o que repele

Não é apenas um nome

Que nos significa


Você é uma senda

O vício só é sadio

No início, tá tranquilo 

Tá favorável o meu ovo


A bebida é a soma

Do admirável mundo novo

É a debandada no sumiço

Você é o que toma


Você é o que olha

Quando nada se vê 

Você é o que canta

Velhos sucessos da MPB 


Você é quem manda

Pra dentro e pra fora

Você é quem conta a história

Você é o que emana


Você é quem abre

Quando as portas se fecham

Você é quem sabe

Sobre choques e queixas


A bebida é uma peçonha 

A pessoa não é um copo

Mas um corpo que sonha

Você é o escape, seu escopo.






domingo, 1 de março de 2026

Barômetro da alma

 


Cansaço da procura,
febre de dopamina barata;
no pulso, a cura sussurra
ação — não mais bravata.

Não se pode rolar o dedo no céu
como quem desliza a vida
num carrossel de pixels,
numa tela acesa e fingida.

Quando vivi na gruta escura,
julguei perda o silêncio e o tempo;
mas era a raiz da luta,
lavra funda no pensamento.

Um barômetro íntimo anuncia
o que não se dá a toda hora:
não é o prejuízo, nem o juízo final —
é só a chuva antes da aurora.

Os frágeis biscoitos de água e sal,
úmidos de ar e memória,
quebram-se mais que outrora;
o barômetro insiste: vigia a história.

Há dias fáceis — quase leves —,
em que o vento avisa e acolhe;
noutros, cala-se o breve
e a vida apenas nasce e colhe

Está no ar, à vista,
na pista quente da praça,
na página ainda não escrita
que o tempo amassa e enlaça.

Já fui garoto inquieto,
caçador de brilho imediato,
correndo atrás do afeto
da dopamina no buraco

Hoje minha alma tem couro,
cicatriz que não se retrata;
palavra é lâmina e ouro,
silêncio é chão que me ata.

E quando a cidade se aquieta,
entre passos e fumaça,
a poesia — secreta —
adormece e respira na praça.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Entre o X, o Ípsilon e o Zê

 

Preso entre as três dimensões flácidas 

Na geometria rasa da filosofia superficial,

Mergulho — sem máscara —

Nas profundezas da ignorância

Na fronteira, sou o próximo fiscal


Luzes vermelhas

De viaturas e ambulâncias

Costuram a noite aparentemente perene

E iluminam de sirene

Tudo além da minha varanda


Dali intuo: em breve,

O pensamento esverdeja 

Brotam musgos na memória,

Folhas no que passou pela cabeça,

Raízes no que ardeu na pele


Talvez um dia, do nada,

Para a surpresa que se demora,

A dor encadernada

Vire best-seller ou um filme

Convite não é algo que se intime


Negar o eclipse

É fechar a porta entreaberta 

É preferir as coisas difíceis 

Às mãos dadas da manhã em festa

Que, discreta, já aconteceu


As catedrais eternas,

- são apenas torres no céu -

Casernas e cavernas

Desmancham-se podres no ar:

Papel, papelão, isopor


Cenografia peculiar

E eu, que me declaro poeta,

Sei: o corpo é instituição e intelecto 

O sentido só faz sentido no amor

Com a alma na coordenação do gesto


Não entrei no elevador

Desci as escadas,

Entendi num sonho o trajeto 

Pronto para onde for

Levo comigo a casa


Dobrada no peito

Nos ombros ou na fachada

Estará aqui ao meu lado

No elevador eu não entrei 

Permeavelmente confinado


Entre o X, o Ípsilon e o Zê,

Meu nome — meu chassi —

Estrutura do invisível 

Sólido no que sinto,

Esvanecente no que sou e serei


Levo a casa comigo

Entre a dimensão tripla

E o que ainda não sei

Faço da tribo coração 

Um convite não se intima.










quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Quer que ainda pergunte?

 

A criatividade nasce

quando o silêncio respira

e se dobra em perguntas macias —

dúcteis como fios de ouro

puxados do escuro.


Respondo aos poucos,

como quem tateia um rosto na neblina.


Mas diga:

quer que ainda pergunte?


Se não é verdade,

é tão bem contado

que veste o corpo da fábula

com a gravata do fato.


Não sei se cheguei tarde

ou se o instante era exato —

sei que as montanhas, um dia,

aprenderam a ser túneis

para que o medo passasse curvado.


Motos zunem feito moscas elétricas

entre carros monocromáticos,

um enxame de pressa e metal.


Palestras ocas, paletas foscas,

vozes mastigando o banal

no espetáculo engarrafado da tarde.


E enquanto o trânsito range,

pensamentos evaporam —

viram nuvens à deriva

num céu que ninguém reparte.


A queda do Ocidente

(era só manter os olhos abertos) —

mas estavam cerrados por dentro.


O cuidado do ente,

calado e doente,

posa na fachada do teatro

como cartaz antigo

prometendo um sonho

que cheira a perfume caro

e desaparece no intervalo.


A queda do dente,

presa entre a ironia e o cinismo,

entre o ramerrão e o cinema —

rimos para não ranger.


Quer que ainda me acostume

ao gosto metálico do mundo,

à piada repetida

como se fosse roteiro inédito?


Sigo sobrevoando o abismo

com asas feitas de risco.


Estendo a mão às estrelas

não para possuí-las,

mas para apagar o egoísmo

que insiste em brilhar sozinho.


Os olhos se abrem — janelas —

e deixam de ser espelhos:

passam a ser ferramentas,

úteis como pontes sobre o escuro.


Atualizo, a cada quinzena,

a senha de acesso ao espanto,

redefino os emblemas,

decifro o vão delicado

entre êxito e sucesso —

um vive de aplauso,

o outro, de sentido.


E no balcão do cotidiano

alguém pergunta, sorrindo:

— Vai comer agora

ou quer que embrulhe o infinito?


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Shopping Center do Inferno (Vale do Silício)

 


Olhar um ponto fixo

Sustém o corpo em pé:

Assim no fundo da treva

Como no fundo do fel


O diabo, arquiteto aplicado,

Ergueu prédios de vidro e delírio

— assinou contratos, startups,

No Vale do Silício.


É preciso ser mais esperto

Que o próprio espelho digital,

Mais sagaz que o algoritmo

Da inteligência artificial.


Perto de um paraíso urgente,

Sangue com selo celestial,

Nossa árvore genealógica

É história editada, seletiva, oral.


No silêncio secreto dos genes,

Herdamos afinidades e aversões:

Rechaço, rebeldia,

Uma calma escolhida a dedo,

Serenidade em prestações.


Assim no fundo da terra

Como no fundo do céu,

O diabo misturou os séculos,

Confundiu credos, vendeu o véu.


Inteligência artificial,

Novo Oráculo de Delfos.

Preguiça cerebral em alta,

Pensar virou esforço tosco.


O diabo mora ali faz tempo,

No Vale reluzente e liso

Ninguém mais decora datas,

Ninguém liga por improviso.


Perderam-se números, nomes,

Aniversários, memórias e a paz.

No Vale dorme a raposa —

Covarde, cínica, capaz.


Atenção em estilhaços,

Informação rala, mesquinha.

Pensar virou terceirizado:

Estupidez humana em linha.


É preciso ser mais humano

E menos virtual, afinal,

Mais inteligente que o conforto

Da inteligência artificial.


As redes reprogramam

Corações, hábitos, razões.

Bem-vindos à máquina do caos,

Curtam, compartilhem, amém.


Uma borboleta cruzou meu olhar

No engarrafamento banal.

Talvez gostasse do meu perfume,

Do meu gosto de nuvem,

Peixe aéreo, sal.


No liquidificador do tempo:

Poeira, tapume e verso.

Liquefiz xepas de feira,

Poemas velhos, o universo


É estranho relê-los agora,

Após tantos invernos,

Entre filtros, feeds,

E diversos algoritmos.


A maturidade — santo remédio —

Não cura, mas dá distância.

Ensina que nem todo inferno

Arde: alguns oferecem Wi-Fi e vitrines,

Num shopping do Vale do Silício.


Olhar um triângulo por dentro

Equilibra tanto quanto um livro

O inferno mais controverso

Tem praça de alimentação

E estacionamento exclusivo.



quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Caverna e casa



A normose vem maquiada

Inflada de normalidade

É a caverna pós-moderna


Antiquíssima novidade

Você não precisa de merda

Nenhuma para existir entre


A personagem de família

E o explorador de espuma

Radical na superfície


O pensamento estampa a camisa

O ajuste só aparece depois

Quando o excesso escorre


E revela o corte exato


Que a casa vire laboratório

De experiências santas e ousadas

Enquanto a mente ensaia seu repertório


Se morre um projeto

Se cai o teto da pousada

A mente calcula os escombros


Absorve a perda

Redesenha a rota dos sonhos

Sem guerrear contra o tempo


Usa a persistência

Como andaime

Para erguer estruturas futuras


Mas aprenda:

A mente veloz demais

Pode atropelar a intuição


A comunicação — dom antigo —

Dá voz ao que é sutil

Sem transformá-lo em ruído


Para não confundir silêncio

Com improdutividade

Nem rigor com verdade


Confesso: fui ingênuo

Quando nadava na tragédia densa

No oceano do veneno


E achava uma boa ideia

Buscar chaves mágicas

Em fechaduras erradas


A chave dos enigmas

Sempre esteve no bolso

No claviculário do osso


Axiomas e atitudes 

Sintomas bem adaptados

Tratados como virtude


Há quem tema sair da caverna

E repita a mesma novela

Funcional, cansada, correta


A saída da esquete caquética

Doeu nos olhos

Todavia limpou a lente


Não sou mais planta atônita

Há luz — e ela não conforta

A caverna é cenário


Faz-de-conta

Com mobília gótica

E poeira bem distribuída


Nada ali brilha

Mesmo quando a vida insiste

Do lado de fora


Da personagem de família

Ao explorador de espuma

Radical na superfície


Há quem prefira o velho filme

Quem vive no automático

Não espera espelhos


Nem cultiva pensamento crítico

O exemplo se oferece 

Nunca se impõe


A caverna arma seu circo

Luzes falsas, cruzes,

Risos em looping


Nem com cupom

A plateia aceita sair

Jura amar o espetáculo


Até que a casa vira santuário

E não aquela caverna de neon

Entre Las Vegas e São Paulo.















quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

As Pirâmides de Gizé

 

O novo não se guarda

Apenas no dia posterior

Cada um aguarda até de madrugada 

A sua dose diária de amor


Para viver hoje

O novo não mora só 

Na aurora mesmo sem a luz do sol

O novo veio pois já se trouxe


Pelo anseio doce

Aparentemente pusilânime

Na firmeza silente da fé

Tudo se move na sua hora


Embora pareça tarde

As Pirâmides de Gizé

São o marco zero da humanidade

Que virou um sério banzé


Cara, você não quer mais pertencer:

Quer fazer sentido

Camarada, ser você agora é 

O seu caminho


Mesmo que frustre mofadas expectativas

Não precisa mais polir o lustre

Tem que confiar na intuição amiga

Não é um tempo de agradar o clube


Mas de ajustar a sua trajetória

Ou você se posiciona na zona da nuvem 

Ou lhe empurram para fora 

Da região da alucinação


Sem rigidez na estrutura

Disciplina sem autoanulação

Responsabilidade sem culpa

Você não quer mais caber na foto


Perante o desejo do êxito 

Não vai aparecer o novo

Somente quando abrir os olhos

Com zelo onde estiver


A peça nos seus trâmites 

Embora soe um papel ilusório 

Consoante a constelação de Órion

As Pirâmides de Gizé


Marco zero da humanidade

Na construção, trabalhadores livres

Eis o único milagre 

Do mundo ancião que sobrevive


As quatro faces laterais,

Da Grande Pirâmide de Gizé 

Estão conforme os pontos cardeais

Conectando Rá, o deus do sol, aos faraós


Blocos de até dez toneladas 

Deslocados por trenós

Sobre areia molhada 

Para facilitar o deslizamento


Usando artesãos, polés 

E engenheiros no erguimento

Das Pirâmides de Gizé

Velha Maravilha ainda de pé


O novo não irrompe

Apenas no dia seguinte 

Que logo será ontem

A dose diária de requinte.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Notícias do interior

 



Nem sempre está certo 

Um fundo assertivo 

O futuro é um furto 

Um fluxo furtivo 

Inconscientemente penso


Nem sempre estou perto 

Na linha de frente, pêndulo 

O inconstante é pétreo 

Notícias do interior 

Do instante que não veio


Da noite anterior 

Do dia primeiro 

A saída da zona da culpa 

Para o lugar da responsabilidade 

Não funciona logo como atravessar a rua


É para se adaptar a uma nova cidade

O atraso exato da descoberta

Do padrão inato e repetitivo  

Cuja necessidade da quebra  

Deriva de tempos deveras idos


Contudo, tudo faz parte 

Do jogo esculpido de vida

Da culpa à realidade 

Foi uma bela saída 

Notícias dos bastidores


Que duram há milênios 

Bastam as dores dos leitores 

Eles ainda estão lendo

Notinhas decoradas dos interiores 

Apesar do dia que virá


Da noite que não está nos arredores 

No entanto vai pintar 

Nem sempre está perto 

O perfeito perfil perdido 

O sexto sentido é sutil feito susto


Um absurdo pululante e seletivo

Um alucinante crepúsculo 

De berros em cores, novas internas

Internacionais arrebóis de assuntos 

Na lentidão certa da voz da descoberta. 














sábado, 10 de janeiro de 2026

Os tempos são outros



Abandono do pensamento 

De como a vida deveria ser cinema

Abraço do novo tempo

Tentando se jogar na consciência

Os jornaleiros não têm mais conhecimento

Dos nomes dos logradouros

 

Há quem ignore o número do seu aparelho

Inegavelmente, os tempos são outros

Livramento do túmulo do passado 

Palavras de raiva e arrependimento 

Como pedras no sapato

Descalço na terra, no cimento

 

Não é mamão com açúcar 

Embora saiba andar há tempos 

Tropeço e tombo em algumas ruas

Tomara que fique o ensinamento 

A vontade nua e a realidade crua

Vociferam rara relevância

 

Revelam-se várias ruas

Que se rebelaram pela distância

A boa educação só parece

Uma espécie de submissão

Os ecos do novo século estão aos pés 

Não são netos da imaginação


O desperdício foi um cego investimento

E a perda, um tipo de tesouro

Os jornaleiros perderam o conhecimento 

Dos nomes dos logradouros

Renúncia do habitual tormento 

Na cuca, o ritual na velocidade em dobro


Com tempo eu gosto e contemplo

Agora entendo, são jogos loucos 

Tanto na selva quanto na jaula

Névoas da missão em emissão 

Colegas da nova era chegaram

Não são nuvens nem legos da ilusão


Não sou novinho em folha 

Tampouco nasci no dia anterior 

Renasci anteontem com uma força 

E uma fome de paz e amor

Aniquilamento do meu papel pequeno

E dos seus conselhos tolos


Foram apelos, bilhetes, momentos

Furo pedra por leite, os tempos são outros

Largo os dias cinzentos 

Sei como a vida é milagrosa e livre

Abraço do novíssimo tempo

Nos passos de quem goza e vive


A juventude vem e vai como vento

O bom senso evita o socorro

Os jornaleiros sem mais conhecimento 

Dos nomes dos logradouros

Não é mamão com açúcar 

Ter a noção do que se passa cá dentro 

 

Passado na sala escura e úmida

Outrora, os segundos eram mais lentos

Ao longo da desconexão jovem

Talvez sejam néctares vindouros

De mil novecentos e setenta e nove

Feliz ânimo novo, os tempos são outros.


 














quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Meus sentimentos são grandes demais para caberem onde me sinto seguro

 


Quanto mais sei de mim, ando

E fico menos suscetível 

À movimentação do bando

Preciso criar mais sentido


Do que mero conteúdo

Na erosão, mágoa e bad trip

Do nada, apreende-se tudo

Do transistor ao nanochip


Da intuição à inteligência

O vaso quebrou, paciência...

Devolvi a terra à planta

Lavei a varanda de lavanda 

 

À medida que me conheço

Fico cada vez mais teso 

Às futilidades da normose

Só é possível a metamorfose


Se me sentir inteiro

Eu sou aquilo que valorizo 

Eu sou aquilo que protejo

Com princípios, o amor é aprendido


O afeto tem necessidade 

Do merecimento da existência

Da memória à saudade 

Minhas comoções são imensas


Meus sentimentos são grandes demais

Para caberem onde me sinto seguro

As emoções se autorregulam

Minha dor nasce ao tentar me afirmar


Mas também é assim que eu curo

Minhas sensações são colossais

Quando alguma coisa dói, cresce; 

Quando alguma coisa cresce, dói


Da mentalização à prece

Da crista da onda ao cais de Niterói 

Minhas emoções são gigantescas

Pensar é uma forma de evitar


A perdição das estribeiras 

Interno oceano, outro lar

Mesma cisterna entre as beiras

Do rio manso e do revolto mar


A mente como amiga, 

Não mais como fuga 

Eu posso até postergar 

Porém não há saída


Emoções se autorregulam

Sonhos só operam

Quando dispostos 

Crises carregam


À sensatez dos novos portos

E não à ruptura externa

Nada acontece sem ser nomeado

Pensado ou interpretado


O amor se ensina com princípios 

Meus sentimentos são profundos

Do desatino ao tino

Do refúgio ao futuro 


Pensar é uma forma de levitar

Estreita margem, mesma cisterna 

Pela maturidade no meio do mar

Contra a ansiedade eterna 


A mente como sequaz, 

Não mais como subterfúgio 

Meus sentimentos são grandes demais

Para caberem onde me sinto seguro


Quanto menos me ignoro

Eu me torno mais forte

Meu silêncio é sonoro

Só é factível a metamorfose 


Caso me sinta protegido 

Meus sentimentos são imensos

O que penso, sinto

E o que sinto, penso


Eu decido com a razão 

Mesmo quando acho

Que é com o coração

Se algo não tem significado 

 

Não vai adiante, não adianta

Só há mudança com segurança 

Consigo até adiar o encontro marcado 

Contudo não escapo.