quarta-feira, 18 de julho de 2018

Pinturas e recados

A borra acharia
A nata
Se houvesse xícara
A todas as camadas
Da cafeteria
Da borracharia
À beira da estrada
Talvez não dê
Em nada
A minha utopia
Tão démodé
Que vira vanguarda
A depender da editoria
E sobretudo do que se lê
No meio da correria
Durante o atual holocausto
Brasas profundamente rasas
Realizam o rescaldo
Parece que foi evacuada a área
Mas sobram pinturas e recados
Nas paredes queimadas da casa
Nas marcas de pneu no asfalto
Nas gargantas silenciadas
Por quem fala mais alto.

domingo, 15 de julho de 2018

Águas vivas

Águas vivas suspensas
No ar sem asas
No palco do teatro
Espetáculo calmo e abufelado
Quando se pensa
Em quase nada
Passando pela fumaça densa
Da madrugada
Beijando a manhã
Vivendo cada
Dia como se não houvesse amanhã
Navegando em águas
Tão tranquilas
Quanto agitadas
A caravela segue sua trilha.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Comemos, dóceis

Comemos,
Dóceis,
Venenos
Como se fossem
Alimentos
Não é de hoje
Que somos pessoas
Obedientes
Engolindo sapos e peçonhas
Escovando os dentes
Pagando salgado
Por quem teleguia
Através dos noticiários
O prato do dia
Cujo tempero
É feito de pânico,
Ficção e desespero:
Porra, somos orgânicos!

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Quem cala declara

Quem cala
A verdade
Declara que é louca
Quem capa
A realidade
Alega que é pouca
Quem encara
A taciturnidade
Sabe que é rouca
Quem acama
Com a divindade
Segreda que é mouca
Quem acata
Com a crueldade
Está marcando touca
Quem acaba
Com a felicidade
Só fala de boca.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Esqueletos afinados

Enquanto a televisão
Tenta ensinar como se canta
Pelas teclas,
A lápis,
Na garganta
Ou à caneta
Relato a aniquilação
Do oceano
Das plantas,
Do ser humano
E dos demais animais
Do planeta.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Quem é vivo sempre perece

Quem é vivo
Sempre perece
Quem é morto
Apenas parece
Que respira
Quem não é vívido
Não aparece
No ar o tempo todo
Quem não é insosso
Com as mãos em prece
Sai da zona de conforto
Em caso oposto, pira.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Das almas nucleares

Eu não entro em acordo
Só no sonho
Das almas nucleares
Enquanto os corpos
Carregam confissão e confusão
Aos lugares
Eu espero o calor todo
Da fissão e da fusão
Dos núcleos atônitos
Não fico neutro à energia
Contra a letargia.