A normose vem maquiada
Inflada de normalidade
É a caverna pós-moderna
Antiquíssima novidade
Você não precisa de merda
Nenhuma para existir entre
A personagem de família
E o explorador de espuma
Radical na superfície
O pensamento estampa a camisa
O ajuste só aparece depois
Quando o excesso escorre
E revela o corte exato
Que a casa vire laboratório
De experiências santas e ousadas
Enquanto a mente ensaia seu repertório
Se morre um projeto
Se cai o teto da pousada
A mente calcula os escombros
Absorve a perda
Redesenha a rota dos sonhos
Sem guerrear contra o tempo
Usa a persistência
Como andaime
Para erguer estruturas futuras
Mas aprenda:
A mente veloz demais
Pode atropelar a intuição
A comunicação — dom antigo —
Dá voz ao que é sutil
Sem transformá-lo em ruído
Para não confundir silêncio
Com improdutividade
Nem rigor com verdade
Confesso: fui ingênuo
Quando nadava na tragédia densa
No oceano do veneno
E achava uma boa ideia
Buscar chaves mágicas
Em fechaduras erradas
A chave dos enigmas
Sempre esteve no bolso
No claviculário do osso
Axiomas e atitudes
Sintomas bem adaptados
Tratados como virtude
Há quem tema sair da caverna
E repita a mesma novela
Funcional, cansada, correta
A saída da esquete caquética
Doeu nos olhos
Todavia limpou a lente
Não sou mais planta atônita
Há luz — e ela não conforta
A caverna é cenário
Faz-de-conta
Com mobília gótica
E poeira bem distribuída
Nada ali brilha
Mesmo quando a vida insiste
Do lado de fora
Da personagem de família
Ao explorador de espuma
Radical na superfície
Há quem prefira o velho filme
Quem vive no automático
Não espera espelhos
Nem cultiva pensamento crítico
O exemplo se oferece
Nunca se impõe
A caverna arma seu circo
Luzes falsas, cruzes,
Risos em looping
Nem com cupom
A plateia aceita sair
Jura amar o espetáculo
Até que a casa vira santuário
E não aquela caverna de neon
Entre Las Vegas e São Paulo.