domingo, 1 de março de 2026

Barômetro da alma

 


Cansaço da procura,
febre de dopamina barata;
no pulso, a cura sussurra
ação — não mais bravata.

Não se pode rolar o dedo no céu
como quem desliza a vida
num carrossel de pixels,
numa tela acesa e fingida.

Quando vivi na gruta escura,
julguei perda o silêncio e o tempo;
mas era a raiz da luta,
lavra funda no pensamento.

Um barômetro íntimo anuncia
o que não se dá a toda hora:
não é o prejuízo, nem o juízo final —
é só a chuva antes da aurora.

Os frágeis biscoitos de água e sal,
úmidos de ar e memória,
quebram-se mais que outrora;
o barômetro insiste: vigia a história.

Há dias fáceis — quase leves —,
em que o vento avisa e acolhe;
noutros, cala-se o breve
e a vida apenas nasce e colhe

Está no ar, à vista,
na pista quente da praça,
na página ainda não escrita
que o tempo amassa e enlaça.

Já fui garoto inquieto,
caçador de brilho imediato,
correndo atrás do afeto
da dopamina no buraco

Hoje minha alma tem couro,
cicatriz que não se retrata;
palavra é lâmina e ouro,
silêncio é chão que me ata.

E quando a cidade se aquieta,
entre passos e fumaça,
a poesia — secreta —
adormece e respira na praça.

Nenhum comentário: