Compilação randomicamente ordenada dos versos meus ou de Tchellonious ou de Tchello Melo ou de Marciano Macieira ou de algum lugar.
sexta-feira, 27 de março de 2026
Jorge de Figueiredo Melo
domingo, 22 de março de 2026
Um sonho oracular
Um sonho oracular
Um desejo particular
Poesia, qualquer dança
Algum par que me leve
Uma surpresa familiar
Quem sou eu se me descrevem?
Uma magia, uma lembrança
Quem imagino ser um dia serve
Emoções não são leves
São portais de mudança
Eu não evoluo sozinho
Mas através de vínculos
A minha dor vira cura
Quando me comunico
Uma precisão, uma loucura
Que precisa de adaptação
Que sobrevivam as emoções
Queda do pedestal,
Quebra de ilusões
Alinhamento com o destino real
Quem sou eu quando me olho?
Quem eu suponho ser basta?
Entre as lavas me desloco
Para onde não estava
Engano o relógio
Invento palavras
E também este negócio
Venho como se estivesse lá
É disso que eu gosto
Meu lar, qualquer lugar
Descolo entre as lavas
Um sonho oracular.
quinta-feira, 19 de março de 2026
Vinhetas
Eu vejo propagandas
como quem anda de volta,
passos rumo a outra rota
em ruas de fita solta —
vinhetas de velhas bandas
soprando ecos na memória.
Um vídeo-game de fases raras,
vidas que já foram embora,
níveis que a infância guardava
numa tela que o tempo devora.
E a ignorância, tão clara,
hoje se exibe — e se adora.
Mas a vida ainda entoa
um refrão manso e profundo,
sobretudo após o mergulho
no escuro íntimo do mundo;
nas águas turvas e boas
onde me afundo em refúgio.
E então, num gesto interior,
acendo um antigo interruptor —
luz breve, mas necessária,
rasgando a sombra precária
no silêncio da caverna.
Ali, com mãos mais eternas,
escrevo com letras dispersas
da sopa ardente de amor;
palavras líquidas, imersas,
cozidas no mesmo calor.
E ao sair, com o peito aceso,
entre o que fui e o que sou,
vejo, num sopro suspenso,
comerciais de antigamente —
como se o tempo, indefeso,
ainda cantasse na gente.
quinta-feira, 12 de março de 2026
Você é
Você é o que ingere
Você é uma senha
Está sob a sua pele
Na sua película
Você reflete o que come
Você é o que repele
Não é apenas um nome
Que nos significa
Você é uma senda
O vício só é sadio
No início, tá tranquilo
Tá favorável o meu ovo
A bebida é a soma
Do admirável mundo novo
É a debandada no sumiço
Você é o que toma
Você é o que olha
Quando nada se vê
Você é o que canta
Velhos sucessos da MPB
Você é quem manda
Pra dentro e pra fora
Você é quem conta a história
Você é o que emana
Você é quem abre
Quando as portas se fecham
Você é quem sabe
Sobre choques e queixas
A bebida é uma peçonha
A pessoa não é um copo
Mas um corpo que sonha
Você é o escape, seu escopo.
domingo, 1 de março de 2026
Barômetro da alma
Cansaço da procura,
febre de dopamina barata;
no pulso, a cura sussurra
ação — não mais bravata.
Não se pode rolar o dedo no céu
como quem desliza a vida
num carrossel de pixels,
numa tela acesa e fingida.
Quando vivi na gruta escura,
julguei perda o silêncio e o tempo;
mas era a raiz da luta,
lavra funda no pensamento.
Um barômetro íntimo anuncia
o que não se dá a toda hora:
não é o prejuízo, nem o juízo final —
é só a chuva antes da aurora.
Os frágeis biscoitos de água e sal,
úmidos de ar e memória,
quebram-se mais que outrora;
o barômetro insiste: vigia a história.
Há dias fáceis — quase leves —,
em que o vento avisa e acolhe;
noutros, cala-se o breve
e a vida apenas nasce e colhe
Está no ar, à vista,
na pista quente da praça,
na página ainda não escrita
que o tempo amassa e enlaça.
Já fui garoto inquieto,
caçador de brilho imediato,
correndo atrás do afeto
da dopamina no buraco
Hoje minha alma tem couro,
cicatriz que não se retrata;
palavra é lâmina e ouro,
silêncio é chão que me ata.
E quando a cidade se aquieta,
entre passos e fumaça,
a poesia — secreta —
adormece e respira na praça.