terça-feira, 28 de abril de 2026

O que o tempo diria?

 

Maldita consciência, 

Flâmula acesa,

Bendita ignorância, 

Véu que evidencia 


Leveza séria, tão densa 

Que o peito dilacera

Levito na dança da chama

Cera da vela da vida 


Papéis de bala, 

Rastros de infância

Manchas no fundo da mala

Das roupas do dia


Nos bolsos puídos, 

Memórias na lâmina 

Sussurram sigilos 

O que o tempo diria?


Maldade ignota, 

Sombras em festa

Bondade é afronta 

Lembranças do enigma 


O passado se conta em anedotas 

Escorre pelas frestas,

Por mais que se esconda

A mosca sobrevoa maligna


Papéis de bobo

Astros da infâmia

Girando no globo 

Da morte da notícia


Diante de olhos atentos

Memórias na lâmpada

Futuros testamentos

O que o tempo diria?









quinta-feira, 16 de abril de 2026

Agora sei que cresço



Não confio

Cem por cento

No que penso

Parece conflito

Há um suspiro


Antes do modelo

Um sentir primeiro

Parece suplício 

Dispenso o peso

Do controle excessivo


Essas rédeas curtas

Que apertam o infinito

Confio, sim,

Na intuição que sussurra

Num ancião idioma


Que gesticula por mim

Em prol da dissolução 

Da autocobrança que lesiona

Em prol da dissolução

Da rigidez que petrifica


Em prol da dissolução

Do medo da culpa

Feridas se ativam

Não como punição 

Mas como cura


Em prol da dissolução

Dispenso os dois mil quilos

Do domínio impossível

Essas pedras invejosas

Que vedam o céu da tarde


E a escolha se mostra:

Verdade selvagem

Ou segurança conhecida

E o número da poltrona da nave?

Sigo a rebeldia da sina


Recuso heranças de acessos

Frutos de responsabilidades 

Que nunca foram minhas

Assisto à morte do ego velho

Morte silente, morte precisa


Enquanto a mente de outro século

É desfeita na poeira dos meses e dias

Há uma saída do torpor:

Lenta, viva, inevitável

E, entre escombros férteis, estou


No clarão do breu

No começo ou no meio

Da construção de um novo eu

Agora sei que cresço

Quando solto o controle


Agora sei que cresço

Quando abraço o que não sei hoje

Agora sei que cresço

Quando ajo com coragem

E deixo minha verdade


Respirar no universo

Ao compartilhar, deixo

De ser por completo 

Quem precisava ser 

Amado para enfim me converter


Em quem sempre fui destinado a ser

Para dissolver o medo do erro

Não confio cem por cento

Nos meus pensamentos

Mas na voz em silêncio. 



 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Memórias analógicas

 


Colonizador interestelar

Atravessa o vácuo devagar,

Vai à Lua coletar maravilhas,

Sóis artificiais

E minérios que brilham


Como segredos digitais

Há gestos mínimos na Terra:

Vedar o açucareiro,

Proteger a doçura do mundo,

Não dar língua ao formigueiro


Porque até o pequeno descuido

Desperta enxames no escuro

As memórias analógicas

Não se perdem no ar,

Mudam de forma, se alojam


Aprendem a se disfarçar

Como ilusões de óptica 

Como peixes no fundo do mar

Pensei que esquecera

A centelha que sobrevive


Mas, ao escrevê-la,

Vi que não é só superfície 

O sentido, uma labareda

Lambendo a vela,

Revelando o filme


Minha presença nesta dimensão

Não grita: é um sinal,

Um anúncio em construção,

Um eco ainda inicial

Estou aqui para dizer algo


No mais íntimo afago

Aprender é um ritmo interno:

Agir com consciência,

Sem impulso histérico

Em busca de urgência.


É saber o passo além da prece

Entre avanço e permanência

O pensamento floresce

Quando alguém o escuta,

E a voz - quando acolhida -


Vira ferramenta absoluta

Dela nasce sustento,

Dela a vida se recruta

Retorno ao passado em espiral

Devaneios e perguntas 


Num diálogo essencial

A cura vem antiga

Num sopro ancestral

E então crio as cantigas 

Não por fuga


Mas por pertencimento

A criatividade me abriga,

Faz do caos um movimento,

E do sentir, um lugar

Onde enfim me reconheço


As memórias moram no lar

Como nuvens num aguaceiro 

Numa manhã solar

Não sou mais o mesmo 

Antes da palavra, sinais.





quarta-feira, 1 de abril de 2026

Pelos Nevoeiros

 

Torra o suado dinheirinho 

Num litro de gim

Mas dispensa um livro

Que nem é de latim

A farmácia nunca fecha


Remédio se transforma em veneno 

Drogaria não mofa de eterna

Até vinte nove de novembro

De dois mil e vinte e quatro

Eu estava mal, triste e bem longe


Acordava cansado

E adormecia insone 

Esquecia que o sentido

Estava escondido me lendo

No fundo sabia onde


Perambulava o bom senso

Nas barbas do horizonte

Gastando o salário pequeno 

Com noitadas sem fim

Nenhum níquel 


Pelo livro escrito por mim

A dor se transmuta em cura

E a intuição, em jardim 

Para que se cubra

De flores sem floreios


Não adquire uma obra

Que nem é de latim

Se o idioma for vodka 

Seca todo o dindim

A biblioteca não fica aberta


O dia inteiro

Porém a gente tropeça 

Pelos nevoeiros 

Das lojas e pelejas

De coisas ilógicas, supérfluas.