sábado, 14 de janeiro de 2023

Coisas do pretérito

 



Parecem coisas do pretérito

Anos oitenta, novena e zero

Planos plenos na gaveta

Decretos pétreos que revogo

O sentimento é ideal


Vendo mais mortos

Do que os vivos nas fotos

Destroços, ciscos, poeira

E o comecinho do mofo

A ideia é sentimental 


Não é só mais no mar que percebo

O quão sou pequeno 

Uma temporada inteira

De tempestade nos olhos

Tempero do tempo temporal 




sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Apesar da mesma ausência

 


Há frutos do mar

E frutas do pomar

Há uma diferença

Entre a nostalgia


E a saudade

Apesar da mesma ausência 

Eu sinto falta do ar,

Do tempo, dos dias, da idade 


Em que não sabia de nada

Eu me lembro do lugar

Onde tudo era à tarde 

Onde já foi meu lar, minha tenda


E vejo como está agora

É como se eu estivesse fora

De lá, à margem da estrada 

Noutra cidade, noutra existência


Não pode ser capaz pela espora

Em busca da paz de espírito

E a dança dos eucaliptos

É sopro da safra apenas.






sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Novidades colorizadas

 


Um lento

Esquecimento

O que invento e cismo

São traumas, lamentos e memórias


Um alento

De qualquer momento

Na torre ou no abismo 

É onde a alma escorre e mora


Novidades colorizadas

O perfeccionismo

É uma imperfeição, no íntimo

A verdade está na cara


São diversos

Poemas com plumas

Planando em versos

De pouca mensagem ou nenhuma


São relatórios discretos

São reportagens do baile 

De casa, do escritório, da rua

Há quem saiba, há quem fale


Parado relógio

Fantástico de precisão curta

Quase sempre ilógico

É poesia, quem diria?


Muito certo uma ou duas

Vezes por dia

Um minuto dura

Perto de um intuito, passa logo.







terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Tem tanta coisa

 



Tem tanta coisa

Para me distrair

Para me deixar tonta

E atenta a cabeça


São distrações boas

Da peçonha ao elixir 

Já chegou a conta

Tá sobre a mesa


Os sonhos ecoam

Numa praia daqui

Em prol daquela onda

Que só me proteja


Do sol de verão a sombra 

Na sobra do porvir 

Questão de escolha

Bolha da consciência


O pudor contra

O poder de destruir

Toda uma pessoa

Na destreza da peça


Pendente para a força 

Pender para o sim

Por mais que doa

Por mais que desça


Irradiado pela sonda

Recordei-me de mim

E do que me ressoa

Ao redor e na réstia


Tem tanta coisa

Pra me fazer feliz

Que as mágoas foram 

Da cela à festa.










terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Ventos e naus

 



Batem ventos e naus

Em pontes puídas

Trinta e sete graus

Nas piscinas poluídas


Bailam olhos e chaves

Em portas partidas

Zarpam nuvens e naves

Dos portos perdidos


Tropeçam nos ares

Tortas partidas

Represam os mares

Perdões repetidos


Na dúvida, o charme

Padrões despidos

Velhas charadas

Na leveza do caos


Leis caladas

Choros pedidos

Ouros, espadas

Copas e paus


Petardos e cartas

Um estalo, um alarme

Para saber que tem alma

Para sentir na carne.





quinta-feira, 17 de novembro de 2022

A gente pensa que finge

 




Entre o que se erige

E o que se erode

São sustentáculos

São tentáculos

Quando o tempo cinge

Um instante, um corte

No ego são ecos

De séculos

Cegos por esfinges

Asseclas de Herodes

São ridículos

São um risco 

Quando a vida exige

Uma saída, um norte 

São colapsos

Lapsos de um rapto

A gente pensa que finge

Ser inteligente e forte

São pináculos

São pitacos

Viva Santa Edwiges 

Viva São Jorge

Viva São João

Viva São Sebastião

Um dia se decide

Entre o vídeo e a morte

Live e escuridão

Postagem e coração.









terça-feira, 8 de novembro de 2022

A respeito do efeito do caos

 



Abrindo uns parentes

Fechando ásperas

Cabem umas vítimas

Desafio

Deus a fio

Joguetes

Foguetes

Na hora de colocar

Um ponto, afinal

Aonde vai

O pêndulo

Quando se distrai

O pensamento?

O tempo passa voando 

E não é mais quando 

Sabia de cor

A canção seguinte

Do disco favorito

Ou um pedaço de poesia pura

Para a prova de Literatura 

De fato admito

Que o entretenimento

É uma boa proteção

Uma das melhores marquises 

Contra as tempestades morais

Amparado pelo rock do Barão

Vermelho como os versos violentos 

De Vinícius de Moraes

Eu sigo sobrevivendo

No padrão, na contramão

Atores e atrizes

Nas coxias ou no proscênio 

Vamos nas diretrizes

De anos mais felizes

E sensacionais 

Com menos crises

Existenciais 

A hora da emissão

Da nota fiscal

Ou do próprio poema

A respeito do efeito do caos

Nas pessoas que pensam

A despeito e pelo coração

É uma convenção

É uma polêmica.