quinta-feira, 11 de junho de 2026

Tinta da alma




Oh, eu já fui tão idiota,

Mas a lucidez me socorre e volta

A rima que serve pra toda palavra

É divina e se escreve com a tinta da alma

O ferro se oxida como erro e pavor


Mas a poesia resiste ao rigor

Gostando ou não, no papel eu me leio,

E o tempo desata o nó do receio

Pois é, já fui tonto e perdi o compasso

Esqueci o meu nome e o tamanho do espaço.


Ainda bem que o meu sonho não falha

Sou feito de vento e pintado em palavras

Oh, já fui tão perdido todos os dias do mês 

Tão distraído da própria direção

Ainda bem que há lucidez


Benzendo o caminho de volta ao coração

Já fui refém das minhas avestruzes,

Dos labirintos da tradução 

Mas a vida acende suas luzes

Quando a alma pede dicção


A rima que abraça

Qualquer palavra que vier

É perene e sagrada

Como a lente que nasce da fé

Ela não pede permissão 


Nem escolhe hora ou lugar

É divina quando se grafa

Com a tinta da alma que pintar 

Quase tudo se oxida:

O ferro, o erro, o medo


O tempo corrói as garantias

Desfaz ilusões em segredo

Mas nunca se gasta a poesia,

Não se envelhece o que é verdadeiro

Gostando ou não, eu a leio


E nela me reconheço, c'est moi

Pois é, já fui tão tonto,

Tão distante de me lembrar

Havia um universo pronto

Esperando como nuvens no ar


Ainda bem que o meu sonho

Não se perde nem se esvai

Permanece nos escombros

Na disciplina de um samurai 

E se hoje encontro sentido


Onde antes só via escuridão,

É porque meu sonho está vivo

Pintado em palavras, dentro da canção

Oh, eu já fui idiota demais 

Porém a lucidez veio e não me solta mais.