I
Engenheiro do haikai,
a identidade não se extravia —
nem parte
Só muda de pele, de película
como cobra que atravessa o vale da noite
sem perder o brilho da escama.
II
Religião humana:
voltaram as cores,
vibrantes e mansas,
aos meus sonhos indolores
de uma paz sem cicatriz,
de um repouso para mim.
III
Paranoias do processo.
O veneno parece ameno,
fino como fio de navalha,
firme e festeiro —
bebe-se sorrindo a taça
como um brinde
à própria vertigem.
IV
A tela finge ser espelho.
O muro, o relógio,
as máquinas domésticas do medo
falarão em alto e bom som
farão vermelho,
profetizando em neon
que o futuro é analógico.
V
Que haja a saída
à beira das abóbadas do céu.
Viagem feroz da existência,
asas rasgando a atmosfera
como quem acha sua poltrona
sem passagem de volta
Autorizado o embarque.
VI
Fricção interna:
agir
ou fugir da caserna.
O medo da instabilidade
ergue seus dentes elétricos.
A tela —
peçonha moderna —
hipnotiza todas as idades.
VII
O futuro é analógico.
Aniquilam-se as saudades
com dedos magnéticos,
executando em silêncio histérico
o plano diabólico
de substituir memórias
por superfícies luminosas.
VIII
Cadáveres do cemitério
de sabonetes Phebo
ainda exalam perfume e lembranças
Cheiro histórico,
limpo e melancólico,
como nuvens de sonhos intactos
E coloridos numa gaveta de infância.
IX
O elo é velho
feito sobrenome:
Moreira Melo.
Tchello, telúrico, Marcello —
nomes que carregam barro,
sangue, versos e origem.
Únicos
como toda herança invisível.
X
E eu me recordo
Como se fosse amanhã:
eu e minha irmã,
no quarto do Fonseca,
antes de existir a internet
como uma religião inteira.
Mil novecentos e oitenta e sete.
A televisão respirava baixo.
Assistíamos à novela das oito
"O Outro",
com Francisco Cuoco
duplicando destinos na tela,
ao passo que o mundo, lá fora,
ainda era tátil,
paulatino
e profundamente afável.
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