sexta-feira, 1 de maio de 2026

Rádio em revolução



Eu me manifesto

Nem preciso falar alto

Que tive acesso

Aos lados, aos laudos

Agora sei como se nomeiam


As dolorosas estações 

Alheias, as aves

Passeiam por entre os espigões 

De solidão suave

Minha cabeça é um rádio


Um bolchevique propaga

Sua revolução 

Uma criatura faz

Uma leitura em sua aura lilás 

Crianças brincam no pátio 


Um tumulto num mercado 

Um estudante de química 

Conduz um experimento

Um vento forte limpa

As nuvens do firmamento


Um jogo do que for

Ocorre a qualquer momento

Um bosque de árvores em flor

Crianças jogam futebol 

Um grupo de jovens


Sentados em instrução espiritual

Um grupo de imóveis

Centrados em especulação moral

Crianças se jogam

Um navio se ancora


Em porto seguro 

Um poderoso estadista invoca

O auxílio de oráculos

Para guiar suas escolhas 

Uma pessoa vestida


Em pele de raposa

Um jovem aprende a se expressar 

Em sua língua nativa

Brilhantes vitrais 

Numa grande basílica 


Um entusiasta ativista político em marcha

Um grupo de pessoas se domicilia

Numa ilha habitada por pássaros

Cupidos nadam num lago

Eu me manifesto


E nunca mais me calo

Eu estou impresso

Pelos lados e laudos

Eu me manifesto —

Nem ergo a voz, nem faço alarde


O som me atravessa baixo

Como corrente que arde

Tive acesso aos lados, aos laudos,

Aos nomes que doem nas estações

Sei agora como se chamam


Essas íntimas dissoluções

Aves riscam o céu de chumbo

Entre espigões de concreto,

E há um despertar tão profundo 

Que chega a ser uma canção de sucesso 


Minha cabeça é um rádio aceso,

Um mundo em sobreposição:

Um bolchevique anuncia em chamas

Sua eterna revolução

Uma criatura lê a aura do drama


Crianças brincam num quintal,

Um mercado em tumulto vibra,

Um caos vivo, essencial

Um estudante de química 

Ensaia o invisível em reação


Enquanto um vento varre a névoa

Do vasto céu em expansão

Tudo acontece — jogos, metas —

A qualquer fôlego, a qualquer momento;

Bosques florescem em silêncio


Meninos chutam o vento

Jovens se reúnem, atentos,

Em busca de um sonho espiritual;

Outros erguem muros sonolentos

De um cimento que no fundo é cal


Crianças se lançam ao riso,

Um navio encontra o seu lugar

Em porto seguro, estabelecido,

Como um coração a repousar

Um estadista, grave, consulta


Oráculos na escuridão

Tentando ler no sutil 

Um rumo para a decisão

Um ente veste o vazio

Em pele de raposa e mistério


Um jovem aprende sua língua

Como quem funda um império

Vitrais brilham numa igreja,

Luz fragmentada em oração

Um ativista passeia 


Pela rua em combustão

Há uma ilha viva de pássaros,

Gente que aprende a coexistir;

E cupidos nadam num lago,

Como se amor fosse um elixir


Eu me manifesto —

E agora não me calo mais:

Estou impresso nos lados da moeda

Nos laudos, nos sinais

Brilhantes vitrais da capela. 





 

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