Rios de tinta
Correm pelas páginas,
Pelas veias distintas,
Vertem-se em lágrimas
Para que se sinta
No tato e na tática
A palavra nunca estática
Que veleja entre cinzas
Margens e paredes
Nos rios de tinta
Vejo caveiras com sede
Em vez de pinguins
O veneno nas veias
Já não vence o que há em mim
Meu coração detento
Bombeia e não carimba licença
O tempo ligeiramente lento
Bambeia da lua nova à lua cheia
Sem querer eu me lembro
Entre partidos e seitas
Do que, sem lembrar, eu quero
Merecidos mistérios
Caveiras fico vendo
Quando as coisas se nomeiam
A escolha do veneno
Escorrendo como tinta fresca
Atravessa o coração detento
O chão, o gesto e o tanque
Rios de tintas, de janeiro a dezembro,
Aflitas no que me tange
Escolho o veneno
Que percorre meu sangue,
Corta o coração detento,
O porão, o mangue,
Rios de tinta, ritos de coragem
Ferem, pintam, reinventam
Escrevem na minha carne
O que as letras não enfrentam
Aceleram por dentro, ofegantes,
Dilaceram o silêncio da margem
E, no que me tange,
Fazem de mim bumerangue
Os rios de tinta nunca apenas passam
Pelos seus navegantes
Na terra, na tez e no texto se grafam.
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