sábado, 27 de junho de 2026

Rios de tinta




Rios de tinta

Correm pelas páginas,

Pelas veias distintas,

Vertem-se em lágrimas

Para que se sinta


No tato e na tática

A palavra nunca estática

Que veleja entre cinzas

Margens e paredes

Nos rios de tinta


Vejo caveiras com sede

Em vez de pinguins

O veneno nas veias

Já não vence o que há em mim

Meu coração detento


Bombeia e não carimba licença 

O tempo ligeiramente lento

Bambeia da lua nova à lua cheia

Sem querer eu me lembro

Entre partidos e seitas


Do que, sem lembrar, eu quero

Merecidos mistérios

Caveiras fico vendo

Quando as coisas se nomeiam

A escolha do veneno


Escorrendo como tinta fresca 

Atravessa o coração detento

O chão, o gesto e o tanque

Rios de tintas, de janeiro a dezembro,

Aflitas no que me tange


Escolho o veneno

Que percorre meu sangue,

Corta o coração detento,

O porão, o mangue,

Rios de tinta, ritos de coragem 


Ferem, pintam, reinventam

Escrevem na minha carne

O que as letras não enfrentam

Aceleram por dentro, ofegantes,

Dilaceram o silêncio da margem


E, no que me tange,

Fazem de mim bumerangue 

Os rios de tinta nunca apenas passam

Pelos seus navegantes

Na terra, na tez e no texto se grafam.




 

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