sexta-feira, 31 de julho de 2026

Metáfora ambulante




Não adianta tentar 

Mudar as pessoas

Nem mudar de lugar

Se você não remove

De si um grão nem uma gota


Assim, não há metamorfose 

Eu não sou mais

Aquele jovem, antigo avatar

Não sou menos

Do que eu mesmo


Sou mais do que tenho 

Já deixei de representar

Aquela personagem 

Permaneceu tempo demais no ar

Repetindo bordões e tempestades


Não tenho fórmula nem receita

Não sou norma nem exemplo

Não me altero só porque é sexta

Mudo por ser o momento

Cada aniversário é singular 


Nunca mais incendiário da minha casa

Não sou o mesmo rapaz 

Apesar de restar alguma brasa

Ao respirar, vem a paz

A rodopiar no vento e me abraça...


Cadê as cláusulas com as garantias

Do fim da minha saúde

Simultaneamente à minha partida?

Prefiro ser esta metáfora ambulante 

Basta que eu mude


Que não seja como antes 

Para iniciar a mudança

Quiçá a vida siga insalubre 

Há quem lembre que é só uma saída

Para qualquer alegria momentânea


Voltar a manuscrever 

É bem analógico e salutar

Eu não quero ser

Cupim do meu lar

Sei o que passei e penso


Eu conheço muito bem 

O que pulsa aqui dentro

Sei melhor do que ninguém

As cores do pensamento

Vagões do velho trem


Enfeites da oferenda sagrada 

Em vez de rigores da obrigação 

A remoção das vendas da madrugada

Revela as coisas como são:

Peixe com limão, escrever à mão 


Banana com mel

Já deixei de atuar

Debaixo de um papel

O que fui eu não sou mais

O que for é poema meu.






 

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