sábado, 16 de maio de 2026

2024 (Ou Quando O Silêncio Já Não Cabe)

 



O velho equilíbrio racha, imperceptível,  

Como vidro cansado de sustentar o mesmo peso

O corpo se insurge em latejos

O instinto recusa o pacto do comedimento

Já não se pede controle, mas um tipo

Mais incomum de astúcia


Há desejos que não mais escutam  

Às antigas desculpas

O que antes preenchia  

Agora apenas se aproxima

Resta ternura, ainda há a sessão da tarde  

Mas a ilusão se despede muda


Como quem apaga a luz sem alarde

Mesmo em meio aos rompimentos  

Algo em você não demole  

Existe um novo centro

Por enquanto, sem nome, porém forte

Até onde ir sem aniquilamento?  


Até onde ceder sem desaparecimento?

Nem toda libertação vocifera

Algumas amadurecem quietas

O afeto perde o disfarce de evasão

E aprende a ser apuração

E a mente, encurralada pela própria verdade,  


Olha de frente o que sempre ficava na periferia

Já não há mais possibilidade  

De dormir dentro da própria vida

Quando a energia desperta,  

A alma nega o silêncio imposto há eras

Não é arrebatamento


É densidade,  

É responsabilidade,  

É fechamento

Você já viveu isso noutra vivência  

E ter o conhecimento  

Disso é não precisar da reincidência


Nada aqui castiga

Tudo conclui um dia

Crescer também é um gesto de cuidado

Não negar o terremoto

Alegria real, sem pose para fotos,  

Ou aplauso emprestado?


O passado já não é o dono

No máximo, dá conselhos

Não é abandono  

É uma espécie de adeus cavalheiresco

Não amar menos

Amar com requinte pleno


O destino falou baixo

Em dois mil e vinte e quatro  

Quem deu ouvidos

Não errou o próprio caminho

Há algo sentido tão fundo  

Que não volta a caber no repúdio


Por fora, quase nada mudou

Por dentro, rearranjou-se tudo

Nem todo final precisa de espetáculo  

Para ser irrevogável

O que se perde ao continuar cedendo direito?  

Quantos vínculos invisíveis já são desfeitos?


Não é moral, é energético

Enquanto algo tem seu término  

Outra ordem nasce

Um caminho de autonomia se desenha, discreto, 

Contudo, é inevitável, eu sei que sabe

Você não deve mais nada


Você já não cabe  

Na imagem que projetava

A dor agora tem delineamento

Deixa de ser frêmito  

E se torna entendimento

Dói, mas abre


A ferida já não quer teoria,

Quer virar sabedoria em carne

Nem todo prazer compensa o preço

Nem toda permanência é apego

Essa vida ainda é sua  

Ou apenas repeteco?


Agora, a existência pede postura,  

Chega de lero-lero

Nada floresce por completo, por ora,  

E o que finda aqui descarta regresso

Quando o poder às suas mãos retorna

Acordos antigos perdem serventia


Não é queda, é a remoção das fantasias

Sobre quem você pensava ser

O futuro não está translúcido  

Mas o passado já não serve de refúgio

Antes de mudar de vida,  

A vida muda, tranquila, dentro de você.



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