O velho equilíbrio racha, imperceptível,
Como vidro cansado de sustentar o mesmo peso
O corpo se insurge em latejos
O instinto recusa o pacto do comedimento
Já não se pede controle, mas um tipo
Mais incomum de astúcia
Há desejos que não mais escutam
Às antigas desculpas
O que antes preenchia
Agora apenas se aproxima
Resta ternura, ainda há a sessão da tarde
Mas a ilusão se despede muda
Como quem apaga a luz sem alarde
Mesmo em meio aos rompimentos
Algo em você não demole
Existe um novo centro
Por enquanto, sem nome, porém forte
Até onde ir sem aniquilamento?
Até onde ceder sem desaparecimento?
Nem toda libertação vocifera
Algumas amadurecem quietas
O afeto perde o disfarce de evasão
E aprende a ser apuração
E a mente, encurralada pela própria verdade,
Olha de frente o que sempre ficava na periferia
Já não há mais possibilidade
De dormir dentro da própria vida
Quando a energia desperta,
A alma nega o silêncio imposto há eras
Não é arrebatamento
É densidade,
É responsabilidade,
É fechamento
Você já viveu isso noutra vivência
E ter o conhecimento
Disso é não precisar da reincidência
Nada aqui castiga
Tudo conclui um dia
Crescer também é um gesto de cuidado
Não negar o terremoto
Alegria real, sem pose para fotos,
Ou aplauso emprestado?
O passado já não é o dono
No máximo, dá conselhos
Não é abandono
É uma espécie de adeus cavalheiresco
Não amar menos
Amar com requinte pleno
O destino falou baixo
Em dois mil e vinte e quatro
Quem deu ouvidos
Não errou o próprio caminho
Há algo sentido tão fundo
Que não volta a caber no repúdio
Por fora, quase nada mudou
Por dentro, rearranjou-se tudo
Nem todo final precisa de espetáculo
Para ser irrevogável
O que se perde ao continuar cedendo direito?
Quantos vínculos invisíveis já são desfeitos?
Não é moral, é energético
Enquanto algo tem seu término
Outra ordem nasce
Um caminho de autonomia se desenha, discreto,
Contudo, é inevitável, eu sei que sabe
Você não deve mais nada
Você já não cabe
Na imagem que projetava
A dor agora tem delineamento
Deixa de ser frêmito
E se torna entendimento
Dói, mas abre
A ferida já não quer teoria,
Quer virar sabedoria em carne
Nem todo prazer compensa o preço
Nem toda permanência é apego
Essa vida ainda é sua
Ou apenas repeteco?
Agora, a existência pede postura,
Chega de lero-lero
Nada floresce por completo, por ora,
E o que finda aqui descarta regresso
Quando o poder às suas mãos retorna
Acordos antigos perdem serventia
Não é queda, é a remoção das fantasias
Sobre quem você pensava ser
O futuro não está translúcido
Mas o passado já não serve de refúgio
Antes de mudar de vida,
A vida muda, tranquila, dentro de você.
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