segunda-feira, 9 de setembro de 2024

República de Marlboro

 

Na República de Marlboro

O repertório musical

Não pode ser duradouro

Reflete o gosto monocultural 

E amargo dos agrossenhores 


A dança é densa

E assino pelo dia em que chegarão 

Como cinema, Lady Leveza

E o seu batalhão 

De atabalhoados apoiadores


Na República de Marlboro

Tudo é antinatural 

Exceto o que notei há pouco 

Ao me ver na tela residual

Após cerrar os olhos


Na beira, no centro do fogo

Labaredas bailam

Nas alamedas, dentro do foco 

Nada se ofusca nem se embaça

Fora da República de Marlboro 


A festa é voraz e pesada

Logo mais pintarão

Entre fumaças, a alvorada

E o seu coro em profusão 

De curiosas cores


No exílio da República de Marlboro

Onde já teria sido a terra

Da República de Marlboro

Saltarão dos resíduos da tela

Um suspiro e os meus delírios todos.



quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Exploração espuma

 


A natureza morta

Das fruteiras

A geometria torta

Das fronteiras

Abrindo a volta


Abraço da porta

Colheita da janela

Olhando o que resta

Após o breu das moscas

Nas feiras, nas festas


Sou eu entre as coisas

Das bandeiras nas férias 

Da simbologia cônscia

Pressão nas frestas 

Frenéticas colônias 


Nada é faz-de-conta 

Tampouco eu fui

O que serei não é da sua conta

Cego desapego de baús

Segurando as pontas 


Alma bela e fera

Da minha saga, não a dos gurus

Alguma água fresca 

Penumbra, meia-luz

E a melhor sombra


A realidade é faz-de-conta 

Fui o que compus

Ao que serei já não sou contra

Prego, ego, pus, cruz

Não ressuscita quem não sonha


Retórica interesseira 

Dos pastores impostores 

Operação alvissareira 

Dos senhores das dores

Da engenharia, da arte


Da ironia, da empresa, da loucura 

Da engenhoca presa 

Minhocas inconfessáveis

Saudades, pesos e bolores 

Acertos, erros e memórias fáceis


Bom senso, amores

Exploração espuma

Explosão do que for

Explicação nenhuma

Qualquer esplendor. 



segunda-feira, 26 de agosto de 2024

De opiniões e de outras crenças

 

A existência mora na falta

De opiniões e de outras crenças

Com todas as ideias sou poeta

A função perpétua de Bhaskara


Para resolução de problemas

Atenção! Evitemos apertos de nãos

Mantendo distância da indelicadeza

Com mais tensão, não seremos sãos


Bloqueio quem bosteja

Na minha linha do tempo

Mas na esquina cumprimento

Leve and let die


A capacidade pouco vale 

Desprovida de oportunidade

Pego carona neste bonde

A gratuidade se esconde no ar


É o preço a se pagar

Por mais que se alongue 

Está cada vez menos longe

A gratidão ao que há


Avança pela vizinhança 

A jovial vastidão antiga

Afinal tudo será lembrança

Aqui, neste fotograma, serei apenas


Palavras, algumas frias, 

Outras estranhas

Sobre haver alguém em cena 

Ter concepções é estar na ilha


Da sua própria incumbência

Quanto mais convicção, menos captação 

Poetisas e poetas,

Não sejamos patetas.



terça-feira, 13 de agosto de 2024

Há tantas fotos

 

Ha tantas fotos 

Que parecem banais

Perderam a solenidade 

De tempos atrás

São imagens demais 


Fica a dica

A dica vai

Fazer com que a vida siga

Eternidade fugaz

O coração indica 


Um dia a mais 

Um tempo menos 

Inocente se faz

Tempero do veneno

É gente demais 


Na lista da revolução 

Há tantos nomes 

A paciência, a pressão 

O sonho, uma espécie de fome

O futuro me espera no salão 


Resistência, força 

Legenda, farsa

As palavras voam

Vozes, fantasmas

Fatos enevoam


Há tantas fotos 

Novos ontens 

São outros focos 

Sem nuvens, horizontes 

Orientam como ossos.



quinta-feira, 25 de julho de 2024

Paz vulcânica


 Coração contente

Da cura, de coerência

Carinho é um gesto

Caro, de coragem

Nestes dias estratégicos


Relaxamento na urgência

O chão tem um jeito coerente

No debandar da carruagem

Os amigos que tive

Ainda vivem nos tempos idos


São amargos e tristes

Aqueles embargos antigos

Pulsando com a calma

Cáustica de um vulcão

Meus olhos mudaram


Pegou a visão?

Oh, paz vulcânica!

Contenha as lavas

Para que as palavras

Não queimem as crianças


Saudades atrasadas

Das águas mansas

Da ilha da infância

Varanda da antessala

Primeiríssima instância


Quantos quilogramas

Pesa a ignorância?

Caso não saiba

Coloque a cabeça na balança

No balanço da barca


Mais impacto do solo

Do que tchau e solidão

Pelo olfato do colo

Em vez de fatal colisão

Vivo num pacato vulcão. 



quarta-feira, 24 de julho de 2024

Ao ouvir os vinis

 

Ao ouvir os vinis
De tia Mairy
Ao ler os versos
De Construção

No verso do disco
De Chico Buarque
Eu resolvi de supetão
Escrever o que sinto

Fazendo arte
Num tempo longínquo
Enquanto adolescia
Descobri o que é poesia

Nas férias de noventa e dois
Em Venda das Pedras, Itaboraí
Ontem minha tia Mairy foi
Descansar em paz por aí

Três dias depois
Do desencarne
Do seu irmão
Do meu tio Toninho

Ambos sobrinhos
Do meu avô Jayme
Filhos do tio-avô Valério
Somos todos espíritos

Por aqui de passagem
A vida não finda no cemitério
E se finca além da carne
Na certeza do mistério.




terça-feira, 9 de julho de 2024

Uso exclusivo



Uso exclusivo 

Para combate a incêndio

Não é satisfatório nem preciso 

Um relatório dos sentimentos

Basta senti-los 


A sabedoria não serve

Quando chega no estúdio 

Tinta guache, bola de chumbo 

Bolha de sabão e alicerces 

Do obsoleto ao absoluto 


Eu estava morrendo 

Hoje em dia resisto

Aos jornais horrendos

Aos jornais mais vistos

Aos jornais higiênicos 


Na minha cabeça 

Diversas janelas abertas

Nem sempre se aproveita 

O presente, a oferta

No ar fica à espreita 


O pretérito é um filme fosco

Onde atuei pifiamente 

No meu melhor esforço 

Na tela da mente

A estrela, o mar e o poço 


Eu estava correndo 

Hoje em dia levito

Aos normais nojentos 

Aos normais esquisitos

Aos normais em silêncio.