domingo, 9 de fevereiro de 2025

Puro cinema

Nasci num dia de luar 

Meu nome significa 

Que devo lutar 

Minha alma fica

Onde está o meu lugar 


O passado não será 

Eternamente recente

Exceto para quem se ressente 

São as cicatrizes 

Tatuagens tristes 


Galera do canal

Meu aparelho 

Mudou de frequência 

Melhorou o sinal 

Ponto de inflexão 


Pretérito cada vez mais velho

Puro cinema

Cientifica fricção 

Por que não pensara 

Nisso antes? 


Tinha que quebrar a cara

E cair da estante

Para girar o seletor

Milagre, mágica 

A imagem do que sou 


Não capta mais estática

É uma luz gigante

É a alma plena 

Para raiar o sol tem que se pôr

Para religar, rola antes a pane 


É um gesto de amor

Uma decisão prática

Papo de consciência

Bênção cósmica, graça 

Do puro cinema 


Penso que a senha 

De acesso ao desagrado 

É abrir, sem pena, a boca toda

Possesso e aguçado,

Dispenso a peçonha 


Que fabrica a alegria

Desprovida de bons humores 

Levanto menos pobre de dia

Acordo sem tremores 

Nem tantas tristezas 


Levando mais forte, quem diria?

De acordo com os interiores 

Itens do meu sistema

Renasço numa noite solar

Debaixo de um céu roxo ou nublado 


Não me deixa o puro cinema

Petreamente ao meu lado

Tio, avô, pai sutil, sentinela do lar inteiro 

Marcello leva o gentil significado

De um jovem guerreiro. 



terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Sonho 11

O sonho número onze

Vem sabe-se lá de onde

Para realizar o que peço

O undécimo sonho

O número do dia em que vim 


É o sopro da sorte para mim

Não será mais sorrateiro

O décimo-primeiro sonho

Nada me esconde

Do sonho, do sim e do som 


Do sorriso bom

A bordo do bonde

Sob o céu, sob medida

A vida bendita me edita

Na fita, tomada onze 


É uma espiritual disciplina 

Adestrar a cabeça

A paz não habita tão longe

Era habituado há dez terças

A pensar ao contrário 


Do sonho onze

Até traduzir o nome

Para me trazer aonde

Nunca deveria ter deixado 

Mas, melhor pensando, 


Se não fosse assim

Perceberia quando?

Ainda bem que ouvi

Aquela voz baixinha:

"Sonhe, sonde e enfrente" 


É uma espiritual disciplina 

Tornar a mente obediente

Eu já fui, estou de volta

E entrei na casa contente 

Sem bater na porta.



quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

O desejo do espelho

 

Do lixo, do lírico 

Ao inequívoco equívoco

Há momentos em que nem o espelho

Deseja me ver belo ou feio

E sei me desenhar por dentro 


Não há nada neutro 

Há essências feito eu e você 

Evidências do fato e do fake

Em sã consciência só sei que

Está tudo fantasticamente bem 


Sou sim, sou singularmente alguém 

Nas primeiras horas da manhã 

Sempre é um novíssimo dia

Se há o passado e o presente, virá o amanhã 

Depois das trevas da travessia


Do mar de esperas e de caldos

Meu ser se eleva e não termina

Num lugar longe ou alto

Havia um náufrago e uma cisma

De que o espelho não me queria 


Havia uma onda e um tempo

Em que não entendia direito 

O espelho já me rechaçou  

Mas hoje vejo quem sou

A coragem vem do coração 


Havia um espelho em cacos

Em que me via aos pedaços 

Há imagens em que o espelho 

Mira as vontades e os desejos

Efeitos da mentalização 


Havia uma temporada 

Em que a tempestade me abrigava

Agora eu não desprezo

O reflexo do espelho 

Nem a minha reflexão 


Do livro, do líquido

Ao onírico capítulo

Há instantes em que o espelho

Não expõe o bastante

Propondo o uso do sonho, da visão.





quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Prazer e felicidade

Trevas daninhas

Alvoradas à tarde

Antes do que jamais

Prazer não significa 

Felicidade, rapaz 


Felicito a minha vida 

Pela epifania

Pelo despertar do chão

Que por si só

É um tipo de perdão 


Por tanta alegria

Avessa ao sol

A versão pior 

Já jaz lá fora, querida,

O furacão devora 


Âncora do interior

Deleite não quer dizer

Prosperidade ou o nome que for 

É transitório o prazer 

Nos velhos reencontros 


Mesmos desencontros 

Um bônus de terror

Nas fúrias dos monstros 

Ferocidade e torpor

Parecia um sonho 


Mas era só ilusão

Na luz em equilíbrio, amor,

Caíram a ficha, o confronto 

Os livros e a razão

Em suma, o mundo todo 


Prazer não é sinônimo 

De felicidade ou paixão 

Porém parecia um sonho

O coração sai do porão

Sopra a poeira e o abandono. 


Luzes noturnas

Estrelas tardias

Antes do que nunca

Prazer não significa 

Felicidade nem culpa.


quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Vamos sair da normose

Os temas e as metas 

Não podem ser apenas metais

São da polpa as colheitas

Em vez da pompa e do papel 

Moedas mentais 


Tilintam do céu 

Viver é um sacro ofício 

Generosidade 

Não é desperdício 

Eu entendi que é hora 


De ficar fora

Da normose 

Apelidada de normalidade 

Atualmente me apavora

A ideia de tomar uma dose 


Do mar de peçonha, de algo

Que me deixa fraco

Mole e grogue

Eu piamente supunha 

Que era alívio ou remédio 


O sutil veneno 

Mas fui testemunha

Das perdas de crédito

Até então não estava vendo

Corria completamente cego 


Viajava e me perdia

Nos atalhos da vida

A Via Láctea

Não é a única galáxia 

Os objetivos não são só mentais 


Não mora no exterior a paz

Há várias Niteróis

Vamos sair da normose 

Vamos cuidar de nós

Radares, cumes, vales e drones 


Sobrevoando nos arredores 

Nuvens, anjos, urubus e pontes

Sobre o travesseiro, na travessa

Com o novo estilo de cabelo

Dentro do corpo, dentro da cabeça 


Vamos nos cuidar direito

Com coragem e carinho 

Eu viro um exército 

Comigo não estou sozinho

Voava plenamente cego 


Agora me visto de audácia e afeto

O sonho pertence à preguiça 

E o pensamento, ao trabalho

A religião dispensa joelhos e missas

As aves mostram o quão somos baixos.



sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Tempero mental


Tempero mental 

Não há necessidade 

De pimenta ou sal

O saber é o sabor da idade 

Agridocemente individual 


No interior da cavidade 

Humor temperamental

Só gargalha quem sabe 

Não se finge felicidade 

Tão-somente para as fotos 


O futuro, com saudades,

Saúda os terremotos

Funda minhas cidades 

Afunda os maus modos

E finda meus disfarces 


Boiando como corpos

Em marcha, sem charme 

Soldados mortos

Ninguém se define pela metade

Tampouco por rótulos 


Perdi a quantidade 

De vazios, de vezes

Em que cometi estupidezes

No cair da tarde quente 

Quando a gente vira ente 


Eu me perdi na velocidade 

Das vozes, das vezes 

Em que menti aos deuses

Tomado por qualquer vontade 

Em que me demiti por meses 


Trocando fés por fezes

Supondo ser a outra margem  

Num dia inédito desses 

Sem coragem, eu não existiria 

Sem as minhas repetições


Sem as recordações 

Eu não reconheceria

A ordem das canções

Sou habitado por uma nostalgia 

Desprovida de compreensão 


É um sintoma de haver um além

O desejo de ser desta era

Já me torna ultrapassado, aquém 

A adversidade recupera

As virtudes que a prosperidade deixa sem.


O presente é o paladar atual 

O passado é um pão bolorento 

O futuro é utopicamente factual

A saudade é um apartamento 

Na verdade, é uma casa com quintal.



 

domingo, 8 de dezembro de 2024

O sonho de um profeta

O carnaval invade

As ruas da cidade

Notoriamente em alvoroço

Por uma profunda mensagem

Massas regressam aos lares 


Uma garota indígena

Apresenta para a sua tribo

Seu namorado da faculdade

De seu ninho desenvolvido

Um trio de pássaros 


Recentemente envaidecidos

Olham com brio

Caçadores atirando

Em patos selvagens

Caminham por um pântano 


As ilusões suaves

Estão libertas

Uma tempestade elétrica

Enche os céus de luz

O sonho de um profeta 


Aves domésticas

Envenenadas revoam

Em tentativas atônitas

Jovens patinhos se divertem

Lepidamente numa lagoa 


Uma mulher agitadora

Apaixonadamente apela

Para a multidão

Numa quermesse

Está reunida uma aglomeração 


De bom coração

A cabeça de um jovem

É transformada

Na de um pensador ancião

Uma radiante fada 


Dança na cerração

De uma cachoeira

Com troféus de guerra

Pendurados no cinturão

Um nativo cavalga 


De modo altivo

Os enfeites trazem para casa

Um espírito natalino

Duas jovens impressionadas

Fazem experimentos 


Com uma prancheta Ouija

Árvores vestidas de geada

Feito renda contra um firmamento

De inverno, oh, de inverno

Uma mulher está desapontada 


Enquanto um homem

Deixa seu aposento

Num parque, num dia invernal

Uma menina alimenta cisnes

Uma porta-bandeira se distingue 


Numa batalha corporal

Um parque público colossal

Oferece visitas sublimes

E inspiradoras

Num abraço estreito 


Uma serpente enrosca

Uma mulher e um homem

Convidados leem

Na biblioteca

De um casa luxuosa 


Numa sala repleta

De diversos livros

Um velho rabino

Feliz se senta

O sonho de um profeta 


Um divulgador de prestígio

Comanda seu concílio

Numa gigantesca tenda

Na calada da noite

A janta aguarda 


Pelo dono da fazenda

Um homem se expressa

Ao mesmo tempo

Em dois domínios

Com a riqueza da sua oferta 


Alguém está explodindo

O sonho de um profeta

Vive neste momento

Uma face impressa

Em imensas rochas 


Uma joalheria repleta

Das joias mais maravilhosas

Novamente desperta

Para a aventura

Uma mulher madura se admira 


Uma árvore de Natal

Carregada de prendas

E de velas convictas

Um cão de guarda está de olho

Enquanto um minerador de ouro 


Dorme perto da sua mina

Uma pomba alva sobrevoa

Em linha reta

Turbulentas águas

A caminho de casa 


Uma pomba alva

De forma rápida

Vira uma águia

E a águia se metamorfoseia 

Numa pomba alva 


Um coro voluntário de igreja

Faz de um ensaio

Um evento social

Uma bandeira a meio-mastro

Defronte a um edifício público descomunal


Encontro de gente 

Antes do alvorecer

Para um ritual de Páscoa

Em recinto aberto

O sonho de um vidente 


Lidera um ritual de poder

Um hierofante coberto

De maneira árdua

Sob topos cheios de neve

Quem adora o fogo está meditando 


De sua crisálida emerge

Uma borboleta

Primeiro a asa direita

Um divulgador de prestígio

Comanda seu concílio 


Numa gigantesca tenda

Após mudanças drásticas

Um clérigo reabilitado

Retorna à prática

O sonho de um visionário.