segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Onda lenta

Surfando na onda lenta

Na onda alfa da consciência 

Arfando, chego à praia

Depois da tormenta

De volta pra casa 


Da época sonolenta

O sonho sabe que se atrasa

A força tem a ciência 

De que tudo tem seu tempo

Haja brisa e brasa 


Fogo lento me lendo

O sonho me abraça 

E me ampara no leito

Para além da carcaça 

No sopro do vento 


A meta é a caça 

O mote mora no peito 

A morte não é desgraça 

Mas um renascimento 

Um tipo de graça 


Uma fruta suculenta 

Futuro que perpassa

Na crista da onda lenta

Na pista, na estrada 

Desde o fim dos anos setenta 


De volta pra calma

A memória me cumprimenta 

Ela mora na antessala 

E dorme na cama poeirenta

Olhando na minha cara 


Vejo que, de violenta,

A realidade já basta

A não-violência 

Deve ser uma prática 

Que não pode apenas 


Ser treinada na aula

Ou lida num poema

A paz é uma onda alta

É uma sonda, é uma senha

Capaz de resgatar a alma.



terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Um banho


Brando, bravo e salutar
Banho de mar
Para matar o estranho
Que queria me domar
E bagunçar meus planos

Um banho doce de sais
Dos orixás e anjos
Para saltar do bando
Xará, eu não tenho mais
Dezesseis anos

Antes de me matar
Eu matei o estranho
Que parecia me tomar
E me tirar do meu canto
Ah, santo espanto de paz

Um banho redentor
Dos afogados e submersos
Uma boia de luz interior
Um afago do universo
Uma onda de amor e nada mais

Tanto faz se boa ou má
A realidade é a colheita
Visitei nu o depósito
Soterrado de poeira
E resgatei no baú o propósito

Ao longo do recolhimento
Levei-o pra água de mim, do mar
Lavei a cara para o arranjo da foto
E louvei a alma, anjo do pomar
Um banho salutar e bento.







domingo, 9 de fevereiro de 2025

Puro cinema

Nasci num dia de luar 

Meu nome significa 

Que devo lutar 

Minha alma fica

Onde está o meu lugar 


O passado não será 

Eternamente recente

Exceto para quem se ressente 

São as cicatrizes 

Tatuagens tristes 


Galera do canal

Meu aparelho 

Mudou de frequência 

Melhorou o sinal 

Ponto de inflexão 


Pretérito cada vez mais velho

Puro cinema

Cientifica fricção 

Por que não pensara 

Nisso antes? 


Tinha que quebrar a cara

E cair da estante

Para girar o seletor

Milagre, mágica 

A imagem do que sou 


Não capta mais estática

É uma luz gigante

É a alma plena 

Para raiar o sol tem que se pôr

Para religar, rola antes a pane 


É um gesto de amor

Uma decisão prática

Papo de consciência

Bênção cósmica, graça 

Do puro cinema 


Penso que a senha 

De acesso ao desagrado 

É abrir, sem pena, a boca toda

Possesso e aguçado,

Dispenso a peçonha 


Que fabrica a alegria

Desprovida de bons humores 

Levanto menos pobre de dia

Acordo sem tremores 

Nem tantas tristezas 


Levando mais forte, quem diria?

De acordo com os interiores 

Itens do meu sistema

Renasço numa noite solar

Debaixo de um céu roxo ou nublado 


Não me deixa o puro cinema

Petreamente ao meu lado

Tio, avô, pai sutil, sentinela do lar inteiro 

Marcello leva o gentil significado

De um jovem guerreiro. 



terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Sonho 11

O sonho número onze

Vem sabe-se lá de onde

Para realizar o que peço

O undécimo sonho

O número do dia em que vim 


É o sopro da sorte para mim

Não será mais sorrateiro

O décimo-primeiro sonho

Nada me esconde

Do sonho, do sim e do som 


Do sorriso bom

A bordo do bonde

Sob o céu, sob medida

A vida bendita me edita

Na fita, tomada onze 


É uma espiritual disciplina 

Adestrar a cabeça

A paz não habita tão longe

Era habituado há dez terças

A pensar ao contrário 


Do sonho onze

Até traduzir o nome

Para me trazer aonde

Nunca deveria ter deixado 

Mas, melhor pensando, 


Se não fosse assim

Perceberia quando?

Ainda bem que ouvi

Aquela voz baixinha:

"Sonhe, sonde e enfrente" 


É uma espiritual disciplina 

Tornar a mente obediente

Eu já fui, estou de volta

E entrei na casa contente 

Sem bater na porta.



quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

O desejo do espelho

 

Do lixo, do lírico 

Ao inequívoco equívoco

Há momentos em que nem o espelho

Deseja me ver belo ou feio

E sei me desenhar por dentro 


Não há nada neutro 

Há essências feito eu e você 

Evidências do fato e do fake

Em sã consciência só sei que

Está tudo fantasticamente bem 


Sou sim, sou singularmente alguém 

Nas primeiras horas da manhã 

Sempre é um novíssimo dia

Se há o passado e o presente, virá o amanhã 

Depois das trevas da travessia


Do mar de esperas e de caldos

Meu ser se eleva e não termina

Num lugar longe ou alto

Havia um náufrago e uma cisma

De que o espelho não me queria 


Havia uma onda e um tempo

Em que não entendia direito 

O espelho já me rechaçou  

Mas hoje vejo quem sou

A coragem vem do coração 


Havia um espelho em cacos

Em que me via aos pedaços 

Há imagens em que o espelho 

Mira as vontades e os desejos

Efeitos da mentalização 


Havia uma temporada 

Em que a tempestade me abrigava

Agora eu não desprezo

O reflexo do espelho 

Nem a minha reflexão 


Do livro, do líquido

Ao onírico capítulo

Há instantes em que o espelho

Não expõe o bastante

Propondo o uso do sonho, da visão.





quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Prazer e felicidade

Trevas daninhas

Alvoradas à tarde

Antes do que jamais

Prazer não significa 

Felicidade, rapaz 


Felicito a minha vida 

Pela epifania

Pelo despertar do chão

Que por si só

É um tipo de perdão 


Por tanta alegria

Avessa ao sol

A versão pior 

Já jaz lá fora, querida,

O furacão devora 


Âncora do interior

Deleite não quer dizer

Prosperidade ou o nome que for 

É transitório o prazer 

Nos velhos reencontros 


Mesmos desencontros 

Um bônus de terror

Nas fúrias dos monstros 

Ferocidade e torpor

Parecia um sonho 


Mas era só ilusão

Na luz em equilíbrio, amor,

Caíram a ficha, o confronto 

Os livros e a razão

Em suma, o mundo todo 


Prazer não é sinônimo 

De felicidade ou paixão 

Porém parecia um sonho

O coração sai do porão

Sopra a poeira e o abandono. 


Luzes noturnas

Estrelas tardias

Antes do que nunca

Prazer não significa 

Felicidade nem culpa.


quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Vamos sair da normose

Os temas e as metas 

Não podem ser apenas metais

São da polpa as colheitas

Em vez da pompa e do papel 

Moedas mentais 


Tilintam do céu 

Viver é um sacro ofício 

Generosidade 

Não é desperdício 

Eu entendi que é hora 


De ficar fora

Da normose 

Apelidada de normalidade 

Atualmente me apavora

A ideia de tomar uma dose 


Do mar de peçonha, de algo

Que me deixa fraco

Mole e grogue

Eu piamente supunha 

Que era alívio ou remédio 


O sutil veneno 

Mas fui testemunha

Das perdas de crédito

Até então não estava vendo

Corria completamente cego 


Viajava e me perdia

Nos atalhos da vida

A Via Láctea

Não é a única galáxia 

Os objetivos não são só mentais 


Não mora no exterior a paz

Há várias Niteróis

Vamos sair da normose 

Vamos cuidar de nós

Radares, cumes, vales e drones 


Sobrevoando nos arredores 

Nuvens, anjos, urubus e pontes

Sobre o travesseiro, na travessa

Com o novo estilo de cabelo

Dentro do corpo, dentro da cabeça 


Vamos nos cuidar direito

Com coragem e carinho 

Eu viro um exército 

Comigo não estou sozinho

Voava plenamente cego 


Agora me visto de audácia e afeto

O sonho pertence à preguiça 

E o pensamento, ao trabalho

A religião dispensa joelhos e missas

As aves mostram o quão somos baixos.