sábado, 30 de maio de 2026

Teatro Múltiplo do Ser

 



Multiplicidade mental  
Teatro da identidade  
Um interior confidencial
Construído como obra de arte
Um grupo de crianças improvisa a existência

Elas brincam de ser, elas se movimentam
Trocam de essência  
E inventam mundos sem saber que inventam
Pessoa não é um eu fixo  
Pessoa é um laboratório de consciências

Aqui nasce o impossível:  
Os heterônimos não são disfarces  
São organismos vivos  
Respiram dentro da linguagem
Vidro soprado moldado em emoção

Pessoa sente, mas nunca sem composição
Tudo nele passa pela estética transmutação
Por isso dentro do peito há teatro
Por isso há o dever máximo:  
Escrever para existir de fato

Uma galinha aquece seus pintinhos  
No silêncio do instinto
Assim ele gesta seus indivíduos
Não inventa personagens
Ele os cria como quem gera destinos

Um círculo em torno do tabuleiro  
Vozes, ideias,
Ecos, pedras
À beira-mar resistindo ao tempo
Em Pessoa, a expressão é grandiosa

Mas o controle usa seu filtro
Contra o oceano, uma rocha
Por fora, fechado, misterioso, inacessível
Por dentro, um abismo sensível  
Quase abusivo

Ele navega no estilo  
Num barco de fundo transparente  
Vendo o que há sob a água do inconsciente
Não escreve somente
Subverte, desfaz, reproduz

A própria noção de identidade
É secreta sua espiritualidade:
Iniciática, solitária luz
Um criador de si mesmo
Envolto em peles impalpáveis

Para suportar o mundo inteiro
Pessoa não tem identidade
Pessoa é um sistema
Um campo psíquico habitado
Uma experiência extrema

Um metafísico teatro
Sua vida nunca foi ser alguém
Foi tentar ser todos
E surgem os heterônimos
Quase autônomos

Como planetas com órbita própria
Alberto Caeiro é simples apenas
Em semblante, em aparência
Nega as coisas incorpóreas
Porque dentro dele já moram

É o anti-Pessoa Alberto Caeiro
Da linguagem é o grau zero
Alberto Caeiro é
O antes do entendimento
O ser que é sem saber que é

Álvaro de Campos é excesso  
Surto, vertigem, turbulência
Implode o desmembramento
Em sensações e vivências
Álvaro de Campos não pensa

Álvaro de Campos vibra
Em palavras, grita
Como descarga nervosa
Álvaro de Campos é a decadência
Elétrica da veemência

Ricardo Reis é medida, contenção, forma
Ricardo Reis é o guardião da ordem
Se Campos explode  
Reis acalma
Ricardo Reis transforma o caos em equilíbrio

Uma arquitetura da alma
Fernando Pessoa: nunca inteiriço nem concluído
Fernando Pessoa repara
E não se proclama
Fernando Pessoa é o espectador do próprio drama

Fernando Pessoa não cria heterônimos por estética
Mas por necessidade enérgica
Um só eu, uma só estirpe  
Não sustentaria sua psique
Caeiro é percepção sem ego

Campos, ego em disparo
Reis, superego clássico  
Pessoa, consciência que enxerga
No fim, Pessoa não é identidade
Nunca foi ser alguém a sua vida

Pessoa é o lugar onde todas as personalidades
Tentam existir e nenhuma fica
Envolto em peles impalpáveis
Ele converte as vísceras
Escondidas em obras de arte.


Nenhum comentário: