terça-feira, 21 de maio de 2024

Fique em casa


 

Fique em casa

Caso não haja

Dano estrutural 

Cigarro é chupeta fatal


Abdução é resgate 

Em vez de sequestro

A inocência é uma leviandade

Vivemos bem funestos


Denota torpor

Uma testa sem rugas

Toda a arte tem o ardor 

De ser música


Quem ri

Ainda não sabe

Da inesquecível novidade

Que está por vir


Niterói mora em mim 

Como uma peça

Não pelo que tem aqui

Mas porque me leva


Fique em casa

Se não houver 

Ousadia nem asas

Ou vá a pé.


segunda-feira, 13 de maio de 2024

Se não fosse pelo poema

 

Se não fosse pelo poema

Pela música, pelos livros

Pela alvorada, pelo cinema

Haveria mais motivos

E motes para a loucura


A mente jamais descansa

Até abiscoitar a plateia 

Poetas são os que mantiveram 

Os olhos de criança

Os chinelos e a bermuda 


Não há uma melhor imagem

Sem capricho na imaginação

A lógica é um atributo das plantas

O rodo e o pano de chão

No ringue, no tumulto, na paciência 


A medida muda, mas o desejo não

Ignoro dois olhares

Que leiam o mesmo poema

Uma risada de mau gosto

Pode acabar com a personagem


No meio da criação sistêmica 

Do medo e do transtorno 

Desbloqueio da criatividade

A contradição cria vida

Todo poeta é pateta


Ah, se não fosse a poesia

Todo pateta seria poeta

Um larápio é julgado 

Um pouco mais temerário 

Do que um poeta, escrever é decidir


Um desenho no quadro

O espírito e o corpo

O escrito e o frenesi

A intuição é um sopro

Fresco do lugar comum 


Se não fosse pela pintura 

Da cabeça em letras

Terapêutica literatura

Balé das estrelas

Não teria sentido nenhum.



sexta-feira, 3 de maio de 2024

A manutenção da vigília

 

É difícil 

Viver de arte

É impossível 

Viver sem arte


Um dia eu atinjo 

A tal da estabilidade

E ficarei curtindo 

O tédio e a felicidade 


É difícil 

Ser eu mesmo

É impossível 

Deixar de sê-lo


Agora só depende 

Da minha vontade

A hora em que de repente 

O sonho se torna realidade


É difícil 

Eu sei, estou aqui

É impossível 

Desistir de ser feliz


Não adianta pingar

Adoçante na vista

Por um olhar mais doce

Nas páginas da revista 


Sob o sol

Sai o suor

Pano de fundo 

Plano de fuga


São vários dias

Sob o sol que chove 

E as chuvas que brilham

Para virar jovem


Não há a possibilidade 

De voltar ao século dezenove

Nem por curiosidade

Sob o céu que se move


Só o obscurantismo aprova

E a negligência suporta

O império da mediocridade

Não há outra forma 


A arte é uma impostora

Deliciosa e irresistível 

Com ela, nada é impossível

A arte é ficção poderosa


E com a dona

Não há quem possa

Quando a ficção não funciona 

É porque é realidade grossa 


A crença é enfadonha

E a dúvida, bonita

Por mais que se sonhe

A manutenção da vigília é a vida 


As coisas desejadas 

E aparentemente infactíveis 

Só podem ser alcançadas

Com uma pirraça tranquila


Os gênios são trovões,

Encaram o vento, 

Arrepiam peões e patrões 

E despoluem o ar modorrento


Recentemente, 

Ao longo destes indiferentes 

Dias estranhos

Passaram-se diversos anos.