quinta-feira, 19 de março de 2026

Vinhetas

 

Eu vejo propagandas

como quem anda de volta,

passos rumo a outra rota 

em ruas de fita solta —

vinhetas de velhas bandas

soprando ecos na memória.


Um vídeo-game de fases raras,

vidas que já foram embora,

níveis que a infância guardava

numa tela que o tempo devora.

E a ignorância, tão clara,

hoje se exibe — e se adora.


Mas a vida ainda entoa

um refrão manso e profundo,

sobretudo após o mergulho

no escuro íntimo do mundo;

nas águas turvas e boas

onde me afundo em refúgio.


E então, num gesto interior,

acendo um antigo interruptor —

luz breve, mas necessária,

rasgando a sombra precária

no silêncio da caverna.


Ali, com mãos mais eternas,

escrevo com letras dispersas

da sopa ardente de amor;

palavras líquidas, imersas,

cozidas no mesmo calor.


E ao sair, com o peito aceso,

entre o que fui e o que sou,

vejo, num sopro suspenso,

comerciais de antigamente —

como se o tempo, indefeso,

ainda cantasse na gente.




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