Eu vejo propagandas
como quem anda de volta,
passos rumo a outra rota
em ruas de fita solta —
vinhetas de velhas bandas
soprando ecos na memória.
Um vídeo-game de fases raras,
vidas que já foram embora,
níveis que a infância guardava
numa tela que o tempo devora.
E a ignorância, tão clara,
hoje se exibe — e se adora.
Mas a vida ainda entoa
um refrão manso e profundo,
sobretudo após o mergulho
no escuro íntimo do mundo;
nas águas turvas e boas
onde me afundo em refúgio.
E então, num gesto interior,
acendo um antigo interruptor —
luz breve, mas necessária,
rasgando a sombra precária
no silêncio da caverna.
Ali, com mãos mais eternas,
escrevo com letras dispersas
da sopa ardente de amor;
palavras líquidas, imersas,
cozidas no mesmo calor.
E ao sair, com o peito aceso,
entre o que fui e o que sou,
vejo, num sopro suspenso,
comerciais de antigamente —
como se o tempo, indefeso,
ainda cantasse na gente.
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