Cada dia nasce noutro tom,
Um acorde novo pede escuta.
Sou curiosidade, cor de som
E a cura me conduz como batuta
Não é a agulha que me regula
É um pulso mais profundo
Uma bússola que aponta à bula
Do remédio do real mundo
A data de nascimento
Certificada no relógio quebrado
Junho, setembro ou novembro
Qualquer hora é aniversário
Sobretudo quando lembro
Que sou meu pior adversário
Não procuro mais caminho
Nem troco de fase
Eu me torno o próprio destino,
E me componho do topo à base
A verdade não tem conveniência
A realidade é viva — e quer vicejar
Viver não é só sobrevivência
É ter coragem de samurai
Sem provas nem vendas
Sem desejo vexado
A intuição é autêntica
É um cavalo indomável
A técnica já é memória
No corpo que aprendeu;
A vida pede fé agora
No salto para o apogeu
Não é mudança de recinto —
É um ciclo que se encerra:
Carma antigo de domínio
Como dominó cai por terra
Visto uma pele com mais poros
Instinto como direção;
Troco muros de protocolos
Por coerência no coração
O ego solta as rédeas
Já não dirige meu curso
É a alma quem me redige
Vereda não mais procuro
Quando a ilusão desmorona
Uma palavra se revela:
Ainda crua, é daquele idioma
Que vira ponte, lua, estrela
O desgaste não é queda
É sinal de conclusão
Toda forma cadavérica
Cede espaço à expansão
A antiga imagem se extingue
Já não veste o que eu sou;
E o que hoje não fica livre
Amanhã pesa e cobra pelo show
Não abandono a técnica
Ela aprende a servir
O ego larga as rédeas
Pesco o que rasga aqui
A virada é um zumbido:
Admito que nada rejo
O saber que abre caminho
É o inaudito desejo
Não é fuga nem inércia,
Nem mudez por temor
É agir com a alma alerta
Puro néctar do que sou
O passado me observa
Como raiz sob o chão
Minha estrutura se eleva
Na bravura da expansão
E o destino, em sua escuta,
Responde ao mais sutil gesto
O sol anda ciente da noite curta
A alma me escreve o trajeto
Quando sou quem me atravessa
Vida sintoniza utopia
Ação cura ferida velha
Alienação não cicatriza
O chamado é movimento
Com ternura e precisão
Sem calar o que sou por dentro
Nem trair meu coração
A sombra ganha contorno
Deixa de ser jaula
Com grades de ouro
No ritmo, visto a minha cara
Na luta armada da poesia
Sem ferir, sem desistir —
Com a farda de artista,
Pescando o que nada aqui.
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