sábado, 2 de maio de 2026

Luta armada com farda de artista



Cada dia nasce noutro tom,

Um acorde novo pede escuta.

Sou curiosidade, cor de som

E a cura me conduz como batuta

Não é a agulha que me regula

 

É um pulso mais profundo

Uma bússola que aponta à bula

Do remédio do real mundo

A data de nascimento

Certificada no relógio quebrado

 

Junho, setembro ou novembro

Qualquer hora é aniversário

Sobretudo quando lembro

Que sou meu pior adversário

Não procuro mais caminho

 

Nem troco de fase

Eu me torno o próprio destino,

E me componho do topo à base

A verdade não tem conveniência

A realidade é viva — e quer vicejar

 

Viver não é só sobrevivência

É ter coragem de samurai

Sem provas nem vendas

Sem desejo vexado 

A intuição é autêntica

 

É um cavalo indomável

A técnica já é memória 

No corpo que aprendeu;

A vida pede fé agora

No salto para o apogeu

 

Não é mudança de recinto —

É um ciclo que se encerra:

Carma antigo de domínio

Como dominó cai por terra

Visto uma pele com mais poros


Instinto como direção;

Troco muros de protocolos

Por coerência no coração

O ego solta as rédeas

Já não dirige meu curso

 

É a alma quem me redige

Vereda não mais procuro

Quando a ilusão desmorona

Uma palavra se revela:

Ainda crua, é daquele idioma

 

Que vira ponte, lua, estrela

O desgaste não é queda

É sinal de conclusão

Toda forma cadavérica

Cede espaço à expansão

 

A antiga imagem se extingue

Já não veste o que eu sou;

E o que hoje não fica livre

Amanhã pesa e cobra pelo show

Não abandono a técnica

 

Ela aprende a servir

O ego larga as rédeas

Pesco o que rasga aqui

A virada é um zumbido:

Admito que nada rejo 

 

O saber que abre caminho

É o inaudito desejo

Não é fuga nem inércia,

Nem mudez por temor

É agir com a alma alerta

 

Puro néctar do que sou

O passado me observa

Como raiz sob o chão

Minha estrutura se eleva

Na bravura da expansão

 

E o destino, em sua escuta,

Responde ao mais sutil gesto

O sol anda ciente da noite curta

A alma me escreve o trajeto 

Quando sou quem me atravessa

 

Vida sintoniza utopia 

Ação cura ferida velha

Alienação não cicatriza 

O chamado é movimento

Com ternura e precisão

 

Sem calar o que sou por dentro

Nem trair meu coração

A sombra ganha contorno

Deixa de ser jaula

Com grades de ouro


No ritmo, visto a minha cara

Na luta armada da poesia

Sem ferir, sem desistir —

Com a farda de artista,

Pescando o que nada aqui.


 

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