sexta-feira, 28 de junho de 2024

Arrancaria

 


Arrancaria a cabeça
Para cortar os pensamentos
Ou dormir enquanto a dor não cessa
Há outros procedimentos

Onde está por fazer tudo aqui
Não seria a cultura
Espelho do feudo de Icaraí
Que teria maior altura

Quem se livra do revés
Leva a vida pós-stress
Com outra frequência
A estação é sintonizada

Uma canção, uma sílaba
Para apagar a ausência
De alguém, da fábula, de nada
Quem do refrão se priva?

Além de mim, ninguém me destrói
Cansei de sair para dançar
Antes cair das nuvens de Niterói
Do que do oitavo andar

A vida é um enigma
Que a gente clareia
Por mais que se queira
Descansar, quem duvida?

A fé, mesmo que se aprofunde,
Jamais tem completude
Quem não acredita
Em milagres não é realista

Eu me uno em versos
Universo, reflexo, versão
O céu todo submerso
Reflexão, arte, subversão

Geral jura, o mundo gira
Pilastra, invenção
Realidade, mentira
Palestra, silêncio

Arrancaria meu coração
Ah, eu sigo querendo
Uma canção, uma sílaba
Razão, símbolo, bênção. 

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Mantra


Mantra, trama
Oração, coração
Outdoor, altitude
Slogan, escolha
O tempo não se adianta
Que horas são?
Seja a ocasião que dure
Os anos que se foram

Banda contra furadas
Tramoias, trapaças
E eventuais ressacas:
Acordo são
Meras coincidências
Acontecem apenas
Nas novelas, nas peças
Sincronicidade é outra esfera

Uma nova era começa
Embora sinta o peso
Na minha cabeça
Nos meus ombros
Vislumbro menos desespero
Do que horizonte, palpáveis sonhos
Mais bálsamo do que júbilo
Alguma base nos escombros

Nos encontros, nas encostas
Jornadas de escola, fontes de estudo
Método, nada e tédio confortam
Consolidação é alegria de Saturno
A bobagem tem algo de ingênuo
Vira veneno a boa sorte
Gelo no inferno do incêndio
Verão no hemisfério morte

Mais na dor do que no amor
Duro amadurecimento
Não poderei ser o que for
Se permanecer pequeno
Mantra, ciranda
Oração, revolução
Outdoor, quiproquó
Slogan, vida louca.

sábado, 15 de junho de 2024

Nomes da infância

 

Buracos? Boatos?

Não encaro nem busco

Estou atrás de entusiasmos

Não sou operário do susto

Preciso ir lá embaixo

Para encontrar o sumo

E me ensopar no barro

Ondulando no fundo


Porém nada mais traz

A magia dos pueris tempos

Saudade ou nostalgia, tanto faz

Eu resisto quando me lembro

Há quem goste mais

De olhar para o firmamento 

E pescar temporais

Do que se ancorar por dentro 


Os nomes da infância jamais

Cairão no esquecimento

Eu quero aquela paz

Ou qualquer entendimento

Biruta? Um bocado

Não crio gomas nem musgos

Estou atrás de recados

Nos grilos, nos muros 


Preciso ir, senão me calo

Cansado em cacos sumo

No retrovisor do carro

Do que restou do mundo

Aos nomes da infância que jaz

Mando meu agradecimento 

Eu quero aquela paz

Apenas a que aguento.


terça-feira, 4 de junho de 2024

Transparência turva

 

Meu repúdio às inúteis

Notas de repúdio

Cadê as noites sem nuvens 

Estelares neste mundo?


Quem me dera 

Se a casca grossa

Fosse só da tartaruga

Mas é coisa única


É coisa nossa

Transparência turva

Impermanência eterna

Inércia, caça, fuga


Vire a ampuleta

Vire a mesa

Vire o que virá

Vá e se mexa


Todo dia tem

Aniversário de alguém

Mas nem sempre rola

Bolo com aquela roda


A ira espuma,

Mas não ensaboa

A gulodice enche 

E não preenche a lacuna


O desleixo se transborda

E não vai embora

A mesquinhez empilha

Não é uma fonte boa


A soberba cintila

Estrela, trilha, tralha

A obscenidade se dispõe

E não leva a mala


Somente a inveja se disfarça

De sorrisos, de abraços

De uma salva de palmas

De um barco furado


Vire o disco

Vire a cara

Vire a pá

Vire a página.



terça-feira, 21 de maio de 2024

Fique em casa


 

Fique em casa

Caso não haja

Dano estrutural 

Cigarro é chupeta fatal


Abdução é resgate 

Em vez de sequestro

A inocência é uma leviandade

Vivemos bem funestos


Denota torpor

Uma testa sem rugas

Toda a arte tem o ardor 

De ser música


Quem ri

Ainda não sabe

Da inesquecível novidade

Que está por vir


Niterói mora em mim 

Como uma peça

Não pelo que tem aqui

Mas porque me leva


Fique em casa

Se não houver 

Ousadia nem asas

Ou vá a pé.


segunda-feira, 13 de maio de 2024

Se não fosse pelo poema

 

Se não fosse pelo poema

Pela música, pelos livros

Pela alvorada, pelo cinema

Haveria mais motivos

E motes para a loucura


A mente jamais descansa

Até abiscoitar a plateia 

Poetas são os que mantiveram 

Os olhos de criança

Os chinelos e a bermuda 


Não há uma melhor imagem

Sem capricho na imaginação

A lógica é um atributo das plantas

O rodo e o pano de chão

No ringue, no tumulto, na paciência 


A medida muda, mas o desejo não

Ignoro dois olhares

Que leiam o mesmo poema

Uma risada de mau gosto

Pode acabar com a personagem


No meio da criação sistêmica 

Do medo e do transtorno 

Desbloqueio da criatividade

A contradição cria vida

Todo poeta é pateta


Ah, se não fosse a poesia

Todo pateta seria poeta

Um larápio é julgado 

Um pouco mais temerário 

Do que um poeta, escrever é decidir


Um desenho no quadro

O espírito e o corpo

O escrito e o frenesi

A intuição é um sopro

Fresco do lugar comum 


Se não fosse pela pintura 

Da cabeça em letras

Terapêutica literatura

Balé das estrelas

Não teria sentido nenhum.



sexta-feira, 3 de maio de 2024

A manutenção da vigília

 

É difícil 

Viver de arte

É impossível 

Viver sem arte


Um dia eu atinjo 

A tal da estabilidade

E ficarei curtindo 

O tédio e a felicidade 


É difícil 

Ser eu mesmo

É impossível 

Deixar de sê-lo


Agora só depende 

Da minha vontade

A hora em que de repente 

O sonho se torna realidade


É difícil 

Eu sei, estou aqui

É impossível 

Desistir de ser feliz


Não adianta pingar

Adoçante na vista

Por um olhar mais doce

Nas páginas da revista 


Sob o sol

Sai o suor

Pano de fundo 

Plano de fuga


São vários dias

Sob o sol que chove 

E as chuvas que brilham

Para virar jovem


Não há a possibilidade 

De voltar ao século dezenove

Nem por curiosidade

Sob o céu que se move


Só o obscurantismo aprova

E a negligência suporta

O império da mediocridade

Não há outra forma 


A arte é uma impostora

Deliciosa e irresistível 

Com ela, nada é impossível

A arte é ficção poderosa


E com a dona

Não há quem possa

Quando a ficção não funciona 

É porque é realidade grossa 


A crença é enfadonha

E a dúvida, bonita

Por mais que se sonhe

A manutenção da vigília é a vida 


As coisas desejadas 

E aparentemente infactíveis 

Só podem ser alcançadas

Com uma pirraça tranquila


Os gênios são trovões,

Encaram o vento, 

Arrepiam peões e patrões 

E despoluem o ar modorrento


Recentemente, 

Ao longo destes indiferentes 

Dias estranhos

Passaram-se diversos anos.