Eu alimento saudades
De um tempo sem despedida
Quando o medo era suave
E mais leve era a vida
Levo colher à boca do afã
O relógio corria outrora
Sem pressa do amanhã
A inocência dormia
Sem receio da aurora
Hoje o peito é nostalgia
Fotografia empoeirada
Canção que o tempo assovia
Na janela da madrugada
Mas não reclamo do vento
Nem do peso que a idade traz
Pois a dor de cada momento
Deixou um palhaço lá para trás
Revoluções e novidades
Já estão na pauta do dia
Em meio às ansiedades
Respirar é alforria
O mundo gira depressa
Tudo muda de repente
Às vezes a alma tropeça
Tentando ser coerente
Eu não tinha dificuldades
Para encontrar alegria;
Ela morava nas tardes,
Nos silêncios, na poesia
Ela ficava bem à vontade
E, mesmo após tantas partidas,
Apesar de várias barbaridades
Mesmo após o tempo ruir
Ainda alimento saudades
De quando ninguém morria.
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