segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Não sabia

 



A minha fantasia

É que vire pauta

Do principal jornal 

A falta de autonomia


Do Banco Central

Tomara que mude a editoria

Ao término do carnaval

E da compulsória alegria


Verdades e disparates

Dividem uma quitinete

No centro da cidade

E se maquiam para a internet


Eu tenho saudades

De quando não sabia 

Que existia

Espelho às cegas


Cegueira assídua

Sonda sedada

Sendas, saídas 

Pequenas e extensas


Passos e palavras

Eu usava caneta 

E tinha pena

Sinto falta


De quando não sabia de nada

Nem da diferença

Entre o acostamento e a estrada

Eu não precisava


Vestir a fantasia

Entrar na fazenda

Nem fazer a barba

Ah, eu não sabia.






sábado, 11 de fevereiro de 2023

Amolada tesoura

 



Sinceramente não sei

De todos os vinis

Que emprestei


Que pedi e perdi

Os pensamentos tão vis

Que já perdoei 


Há quem converse

Sobre recorrentes temas

Inócuos e leves


E há quem tema

Os papos que fervem

Incandescentes problemas 


Às vezes falar a respeito

Do tempo, é, dele mesmo,

Pode causar aquele clima


Uma pancada de ladainhas

O comercial de margarina

É o tradicional pretexto 


A felicidade é sintoma

Não do sucesso, do sucedimento 

Mas do êxito, do êxodo 


Eu usaria até mullet e roupas cafonas

Para que voltassem os bons tempos

O resto é paisagem de subtexto 


Eu levo as memórias

Ao salão de beleza

As unhas se lavam e se cortam


Assim como a cabeleira

Com a amolada tesoura

Sou Melo, sou Moreira.





quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

A vida pede carona



Na paquidérmica turnê

Nos desertos lotados

Nos parques, nos porquês 

Das catracas dos rolês


Nas traças, nos lastros

After não é matinê 

A viagem arfa e é longa 

Sem lenga-lenga, ao meu lado


A vida pede carona

A poesia é de quem sonha

Babando acordado pra ver

Além e aquém da redoma


Em virtude dos vidros

No lustre, no telhado

Na portaria, no mister

Do mistério tinindo de tão nítido


Inédito itinerário 

Ao velho esconderijo

Que não me abandona 

Berro rebelde e calado


Destilado não é vinho

Para se perfumar à mercê

Dos estádios vazios

Entre sóis nublados e sombras


Longe da empatia blasé

Onde é dia-a-dia, onde é íntimo 

Estou comigo, eu vou com você

A companhia se encontra.




sábado, 28 de janeiro de 2023

Diamante e diarreia




Para que o dia raia

Diamante e diarreia

Esperam-se a palavra

Distante, a ideia


E o instante de se levar à praia

Louvar as pedras 

Lavar a alma

Enquanto a onda pega 


Nademos na veia

Na espuma da água

No espasmo da tela 

No espelho de sangue


Talvez à noite se leia

Na torra da estrada 

A nota da estrela 

Na derrota, no derrame.



sábado, 21 de janeiro de 2023

Os guardas da fronteira

 




Os guardas da fronteira

Não me deixam

Atravessar para o norte

Rumo ao interior


A vida é um filme de terror 

Psicológico, com cortes

Coleira, colégio, colheita 

Entre privilégios e rasteiras


Eu me esqueço do passaporte

Para aquele voo

Bem depois das dez e meia

Não me deixam transpor


Sem pagar as taxas aduaneiras

Já sei que quando for

Preciso, atento e forte,

Portarei na carteira 


A alma, o passaporte

Para cruzar o atual estado

O sol ignora a aurora ao se pôr 

Para os guardas da fronteira


Ficarem sossegados

Com afinco sendo quem sou

Não é questão de sorte

Mas de intuição certeira.










sábado, 14 de janeiro de 2023

Coisas do pretérito

 



Parecem coisas do pretérito

Anos oitenta, novena e zero

Planos plenos na gaveta

Decretos pétreos que revogo

O sentimento é ideal


Vendo mais mortos

Do que os vivos nas fotos

Destroços, ciscos, poeira

E o comecinho do mofo

A ideia é sentimental 


Não é só mais no mar que percebo

O quão sou pequeno 

Uma temporada inteira

De tempestade nos olhos

Tempero do tempo temporal 




sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Apesar da mesma ausência

 


Há frutos do mar

E frutas do pomar

Há uma diferença

Entre a nostalgia


E a saudade

Apesar da mesma ausência 

Eu sinto falta do ar,

Do tempo, dos dias, da idade 


Em que não sabia de nada

Eu me lembro do lugar

Onde tudo era à tarde 

Onde já foi meu lar, minha tenda


E vejo como está agora

É como se eu estivesse fora

De lá, à margem da estrada 

Noutra cidade, noutra existência


Não pode ser capaz pela espora

Em busca da paz de espírito

E a dança dos eucaliptos

É sopro da safra apenas.